Em defesa da investigação e da cooperação.

Nota do Grupo de História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais a propósito de Raquel Varela, sua coordenadora

Nos últimos dias têm-se multiplicado no espaço público ataques à idoneidade e percurso académico de Raquel Varela, através de artigos de jornal e um comunicado da direção do Instituto de História Contemporânea, unidade de investigação da NOVA-FCSH que integrámos até ao dia 10 de setembro deste ano. Trata-se de um ataque inusitado, repleto de alegações infundadas, insinuações sustentadas pelo anonimato, contas mal feitas, com argumentos que a seu tempo e nos locais próprios serão certamente escrutinados e, estamos certos, se constituirão em exemplo deplorável das piores práticas no jornalismo e na academia portuguesa. Perscrutar o percurso de uma académica, que é também intelectual pública, sem qualquer contexto, saber ou contraditório de facto, é expediente para a tentativa de suprimir a crítica, função primeira da Universidade. Não aceitamos trabalhar sob este tipo de chantagem. Somos quase três dezenas de investigadores, com trabalhos muito distintos mas que dialogam e muitas vezes divergem entre si. Esse é o legado das ciências sociais. É na crítica e no diálogo fraterno em cooperação que queremos trabalhar.

Prestamos aqui a nossa solidariedade incondicional a Raquel Varela que, com grande elevação, tem contribuído para o esclarecimento de todas as insinuações e alegações contra si, colocada numa posição que jamais devia ter vindo para os jornais, numa clara e inequívoca tentativa de assassinato de carácter, deplorável numa democracia. O aproveitamento de um jornalismo que quer partilhas escandalosas é uma ameaça aos direitos e liberdades e garantias dos cidadãos. A conivência deste com “guerras internas” da Academia é inaceitável. Como investigadores e cientistas opomo-nos a este ambiente tóxico. A ele contrapomos investigação em cooperação, total abertura, para dirimir frontalmente as divergências.O grupo de investigação de História Global do Trabalho e Conflitos Sociais existe há dez anos e neste período de tempo foi coordenado por Raquel Varela. Enquanto investigadores do grupo participamos dessa coordenação, eleita anualmente, e somos com ela parte dos seus sucessos e dificuldades. Foi em grande medida através da sua coordenadora que o grupo garantiu uma presença ímpar no campo da história contemporânea, nomeadamente no campo das realidades laborais, com inúmeras parcerias, dentro e fora do espaço académico.

O trabalho e experiência de Raquel Varela muito contribuiu também para que o grupo alcançasse uma internacionalização reconhecida e valorizada por todos os momentos de avaliação até hoje, constituindo-se como unidade de referência para tantos investigadores estrangeiros. Com uma forte ancoragem à História, o grupo diversificou-se na sua natureza e composição, somando investigadores de um conjunto variado de áreas, inclusive além das ciências sociais e humanas. Essa diversidade está refletida numa produção diversificada, no cruzamento interdisciplinar como método permanente, num entendimento das realidades sociais mais profundo e plural, na capacidade de integrar redes, nacionais e internacionais, fundamentais para o conhecimento científico.Essa realidade do grupo que foi determinante para a decisão da maioria dos seus investigadores de permanecer na NOVA-FCSH, abandonando o IHC, mantendo o grupo, mantendo objetivos e práticas de trabalho comuns. Uma unidade de investigação será sempre mais do que a prática da sua direção em cada momento, será a sua própria história, a afirmação dos seus princípios e valores no campo da investigação e divulgação científicas, numa concepção de democracia que valorize o conhecimento sem dogmas e tenha como objetivo uma sociedade livre, plural e de acesso universal ao ensino e à cultura. Essa herança do IHC nenhuma direção poderá levianamente ofuscar ou simplesmente apagar da história da FCSH. Ela sobreviverá a práticas que consideramos inaceitáveis e que nos levaram a sair desse instituto.

Foram anos de intenso trabalho, de aprendizagens felizes e também de dificuldades. A ciência é um trabalho exigente e muito pouco reconhecido pelas políticas públicas, acossada pela falta de meios e sobretudo pela ausência de uma visão para o sector onde a grande maioria dos seus participantes vive condições de precariedade crónica. O mesmo se passa em tantos outros níveis das realidades laborais que têm sido objeto dos nossos estudos e que continuarão a sê-lo. Foram dez anos em que investigadores do grupo de História Global do Trabalho e Conflitos Sociais integraram o Instituto de História Contemporânea e para ele contribuíram com o melhor da capacidade dos seus membros. Agora é tempo de outros desafios, na FCSH, num lugar onde prevaleçam a transparência e a cooperação, a frontalidade nas divergências e controvérsias científicas, o cuidado e o respeito pelos seus investigadores.Os investigadores do Grupo de História Global do Trabalho e dos Conflitos Sociais

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2 thoughts on “Em defesa da investigação e da cooperação.

  1. Sabe que os vermes e cobardes não vão parar… mas como vermes vivem e como vermes secumbirão.
    Mantenha-se frontal como sempre, não os tema.

    .

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