Questões Públicas e Privadas no Sol – contributo para um debate

“Também a investigadora e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa Raquel Varela desvaloriza a relevância dos detalhes da vida privada dos políticos para a governação, afirmando que é «muito importante falar disto nesta sociedade de ‘espetáculo’». «Com as altamente comunicativas campanhas eleitorais ainda explodiu mais, e tem de haver uma barreira clara e independente entre aquilo que é privado e aquilo que é público», salienta a historiadora, declarando que «a comunidade não tem nada a ver com os aspetos privados dos políticos». Raquel Varela, no entanto, deixou uma separação entre detalhes que possam interessar ao bem público e comum, como relatos de contas públicas que incidam sobre serviços e bens públicos, e detalhes do foro privado dos políticos.

Raquel Varela acrescenta uma outra perspetiva sobre este assunto, dando conta dos casos onde a questão não se prende tanto sobre se é ‘seguro’ ou ‘válido’ que um político partilhe os dados privados da sua vida, mas sim sobre o uso que os mesmos políticos dão a estes mesmos detalhes privados da sua vida. «Ao que assistimos é a um aproveitamento dos políticos que utilizam a sua vida privada em seu proveito, mas também assistimos a campanhas negras para as quais os media e os jornais acabam por ser veículos de transmissão, para tentar retirar alguém da vida política, através da vida privada», constatou a historiadora, falando de uma cultura de «incentivo ao voyeurismo e da invasão da vida privada».

A título de exemplo, Raquel Varela referiu Marcelo Rebelo de Sousa, um Presidente da República que não esconde o local onde passa férias, que é conhecido por ser ‘o Presidente dos afetos’, e que, para a historiadora, «utiliza os detalhes da sua vida privada para se promover». «Quanto menos cultura e formação política há, mais sobram fotografias e detalhes da vida privada. Discutir a dívida pública, o lugar do país no mundo e a crise económica exige uma complexidade para a qual não há formação política, mas discutir a praia onde o Professor Marcelo vai ou quem é homossexual ou não é, há 10 milhões de pessoas que têm opiniões sobre isso», ironizou.

Raquel Varela acusou a chegada de uma «onda puritana», e de um  conservadorismo que «vem da esquerda e da direita». «Vivemos uma onda persecutória, de fim da fronteira entre público e privado, com muitos movimentos puritanos a vir ao de cima. Se pensarmos nas políticas de cancelamento, também referem muito isso», concluiu a historiadora.”

https://sol.sapo.pt/artigo/746026/politicos-com-vida-privada-a-lupa

1 thought on “Questões Públicas e Privadas no Sol – contributo para um debate

  1. Viva, Drª Raquel! Já estava com saudades de si e das suas ideias e opiniões.
    Tudo depende de quem veste o vicio. Já diz o povo que “Quem tem dinheiro, tem vícios”. Os vícios são dispendiosos, e por isso também dão nas vistas. Hoje em dia, inteligente parece ser aquele que faz os seus vícios parecerem virtudes e com isso tirar proveitos. Também é verdade que quem não tem dinheiro também os tem, mas a diferença é que nos ricos os vícios até ficam bem, transformam-se em virtudes, e todos têm muita curiosidade pelo seu brilho glamoroso, concluindo que os ricos e famosos até são “humanos”, pelo que os seus delitos até são considerados normais e aceitáveis. Isso deve explicar a razão pela qual tantos corruptos e ladrões poderosos permanecem á solta ad aeternum… Os ricos, os líderes, os políticos e demais agradecem e aceitam essa atenção e espécie de apoio por vaidade ou necessidade.
    Por outro lado, psicologicamente, saber e colecionar detalhes sobre as vidas privadas dos famosos parece ter um efeito consolador e compensador sobre aqueles que gostam de viver as vidas e os sonhos dos outros como se fossem as suas, mesmo não sendo os melhores dos exemplos. Paradoxalmente, em muitos casos há até um sentimento de empatia/simpatia por algumas personalidades que, mesmo não sendo simpáticas e/ou não tendo contribuído em especial para o bem da sua comunidade ou da Humanidade, pelo contrário, têm o poder de influenciar as vidas dos seus admiradores/fans. Hitler, por exemplo, conseguiu tantos admiradores e seguidores! E por que não fazer como eles para ver se me sinto mais feliz e humano, e quiçá, ainda ganhar vantagens com isso? Para isto não é preciso ter cultura, informação ou ser inteligente. Basta ser pobre, trabalhar precariamente ou viver dependente de um sistema que tira aos pobres para dar aos ricos. Por isso, os vícios dos pobres, e de outros menos ricos e famosos, mesmo tendo sido virtudes, são crimes que não compensam, e não têm graça porque são pobres, e tolos, e deles não reza a História.

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