Confinamento, a saúde pública neoliberal

Os últimos dias em Portugal merecem uma reflexão – a “despublicação” no Público de um artigo de um médico anestesiologista, depois de aprovado para publicação, com uma linha face às vacinas nos jovens igual à da maioria dos órgãos técnicos e acusado pelo jornal de colocar em causa o “relativo consenso” (se há relativo consenso em Portugal é contra a vacinação de jovens). Sobre o “tom” do artigo nem me pronuncio – o Público teve 20 anos Vasco Pulido Valente a tratar abaixo de cão tudo e todos como cronista, nunca achei que fosse o grande pensador que a direita, com falta de quadros, construiu, mas jamais achei que devia ter sido apagado, cancelado; ficámos também a saber (para quem não tinha tirado uns minutos a ver os videos racistas no instagram da influencer, pode surpreender) que a ex-enfermeira blogger Carmen Garcia, acarinhada pelo Público, e o veterinário e virologista Pedro Simas são agora candidatos pelo PSD/CDS às autárquicas; o médico de saúde pública, já era sabido, Ricardo Mexia é director de campanha da coligação da direita em Lisboa, liderada por Carlos Moedas. Ao mesmo tempo o ex jornalista Pedro Almeida Vieira torna público que parte dos médicos que subscreveram a actuação do governo na pandemia recebem em alguns meses mais das farmacêuticas do que do SNS, a partir de uma investigação simples dos sites de transparência (mas que nunca nenhum jornalista foi investigar até ele o fazer). No meio disto até houve uma campanha publicitária que foi suspensa – meses depois de anunciar que as lentes matavam todos os vírus!, algo que não se via anunciado desde a última bruxa na Idade Média. Portugal é impagável. Não fossem os milionários terem ido à lua no mesmo ano que confinaram a classe trabalhadora ao trabalho, vetando-lhes o lazer, e o caso das lentes que curam vírus estaria entre os primeiros lugares da ciência-política pandémica.

Tenho pouca paciência para o vulgar determinismo mecanicista que acha que as atitudes individuais se explicam pelo dinheiro e pelas pressões financeiras; a sociedade e a actuação subjectiva é algo muito mais complexo e o móbil das pessoas é múltiplo. Acredito, por exemplo que, como a maioria das instituições/colégios/comissões formais se pronunciaram contra as vacinas em jovens, vamos encontrar muitos pediatras que tomaram esta posição, contra, e são, no entanto, como quase sempre na medicina, financiados na investigação por farmacêuticas (infelizmente o Governo há muito deixou de o fazer directamente, nem para conferências, essenciais a que os médicos mantenham o conhecimento actualizado). Acho também que todos têm o direito de ser candidatos por qualquer partido. Portanto, nada disto é novo (podemos debater como deveria ser) – o que é novo é que não tenham sido os próprios a assumir desde o início as suas ligações partidárias e, no caso dos médicos, o financiamento privado – aliás o site foi criado justamente porque se exige democraticamente que os médicos revelem a origem dos seus financiamentos.

A ideia de ir buscar figuras públicas, influenceres ou técnicos para passar a ideia – errada – de independência “acima da política” essa é que falhou em toda a linha. As pessoas e os jornais têm o direito de defender o que pensam, o que não podem é assumir perante a sociedade um papel de representação geral quando de facto estão ligados a representações particulares e/ou específicas. Não há um “bem geral” acima de interesses particulares. Nunca houve, nem na crise de saúde pública nem antes dela, as sociedades são profundamente divididas. O que é essencial e salutar é portanto deixar claras essas divisões para que quem lê, e escuta, possa pensar com todos os dados na mão.

Em jeito de explicação para tudo isto tenho uma proposta sociológica rápida, uma “teoria minuto”, a desenvolver – há um sector ligado ao PSD e CDS que quis mostrar que era melhor gestor do país na pandemia e ajustou o discurso catastrofista a este propósito. O Governo português, atrelado à transição digital/verde/bazuca alemã, juntou-se ao coro e começou uma concorrência entre quem conseguia meter mais medo, e mais medidas para dar uma falsa sensação de segurança ao medo criado. A pandemia, cuja degradação em 30 anos do SNS colocava enormes desafios, junto de uma população obesa e diabética, ou seja, pobre, impraticáveis para um SNS de facto desnatado, foi o móbil usado e abusado para despedir massivamente e cortar salários às classes trabalhadoras portugueses, com os sindicatos paralisados pelos Estados de emergência e a incapacidade de fazerem uma critica contundente às sucessivas leis de excepção, que se tornaram a norma. Juntou-se a ausência de oposição porque da esquerda à direita todos de facto olham a bazuca, isto é, o endividamento crónico do país e a dependência face à Alemanha como a única alternatiova. Devo dizer que o pânico, e digamos o baixo nível, mau gosto e rudeza, que já chega a altas instâncias, de chamar “negacionista”, ou o inédito de suprimir artigos já publicados, bem como a canonização do Almirante, tudo isto reflecte uma enorme fraqueza do Estado e dos Governos, e não o contrário. As vacinas levantam incógnitas, desde logo porque legalmente estão em fase experimental (cada vez mais não há consenso, mas muito por saber, Israel, Suécia, Inglaterra, com comportamentos muitos distintos levantam novas dúvidas sobre a imunidade da doença ou da vacina, efeitos a longo prazo da doença ou da vacina, variantes, etc não há qualquer consenso, e todos parecem saber menos à medida que o tempo avança).

A Europa tem dois países e meio fanáticos (França, Itália e Portugal, sem oposição) com certificados para circular dentro do país, enquanto na larga maioria da Europa à esquerda ou à direita mas onde há oposição (Espanha, Inglaterra, Alemanha, Escandinávia) a vida regressa ao normal possível, e todos olham o caso sueco e respiram fundo – como será o Inverno? Penso que o exercício agora não é responder defensivamente a campanhas negras e de calúnias que vão ofendendo e cancelando pessoas, com ataques ad hominem, e “negacionista” (o novo “cala-te preto e vadia”), mas tentar compreender porque a maioria dos países tomou estas opções irracionais e foi incapaz de resolver a crise de saúde pública. Não é “loucura” coletiva – porque isso não explica nada. Responder a quem grita negacionista com és “louco” ou ” medroso” não explica o que aconteceu. É preciso compreender o que signfica para a saúde pública o neoliberalismo, a individualização da saúde, e o lockdown é isso – cada um é culpado e responsável pela sua doença. É aqui que, salvo o caso Sueco, o país no mundo com maior tradição socialista e social democrata (de sempre – sim nunca houve na história um país semelhante em termos de igualdade e democracia), todos os países mergulharam – a doença deve ser enfrentada com o máximo ideológico ultra liberal – o confinamento de milhões de seres humanos.

Deixo aqui um link (no post anterior) para quem tiver tempo, foi o melhor que li sobre a pandemia, o de Panagiotis Sotiris, um dos meus colegas mais instigante, teórico marxista fez um artigo detalhado (dados abundam e em comparação vários países da Europa) e sobretudo socialmente analítico sobre as consequências do lockdown para as classes trabalhadoras na Europa e o papel do neoliberalismo a gerir a saúde pública, bem como da restruturação produtiva em curso. Está na Historical Materialism, a revista mais importante de teoria critica hoje, demonstrando, a quem andou, digamos…distraído, que o mundo não está ou com Bolsonaro ou contra ele. Se continuamos a responder a esta dicotomia mecanicista, ou a provocações de ofensas não conseguimos andar para a frente para entender o muito que ainda está por explicar.

PS: Sendo o artigo grande se alguém se oferecer para ajudar a traduzir eu entro em contacto com o autor a pedir permissão bem como com a revista académica. Thinking Beyond the LockdownPanagiotis SotirisPanagiotis Sotiris | ORCID 0000-0002-9224-738X Hellenic Open University, Greece panagiotis.sotiris@gmail.com

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5 thoughts on “Confinamento, a saúde pública neoliberal

  1. Isto, já não vai lá, com palavras, mas sim com acções! Os ditos partidos de esquerda, pouco nada têm feito para alterar, esta e outras situações, cingem-se a sustentar os seus interesses, e do capitalismo em particular, e não só! O combate vai ser duro e prolongada, o povo trabalhador, desempregados, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, na sua maioria, vão passar a pior das misérias de sempre, terrorismo psicológico (como tem sido habitual dos partidos das direita da extrema-direita e dos neofascista do “Chega”)! Não podemos confiar nos partidos que se passeiam no parlamento, nem tão pouco na chamada «”União Europeia”»!!!

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