Coimbra de Matos: “penso em ti, logo existo”

Deixo aqui na íntegra o meu testemunho hoje no Público sobre Coimbra de Matos. Qual é o sentido da vida? Coimbra de Matos fugiu sempre de respostas floreadas. Não tinha medo das contradições. Nem do contraditório. Há um sentido para a vida, muito para lá do hedonismo moderno, dos que furiosamente vivem um dia de cada vez… cada vez com menos horizonte. A resignação é desumana porque o homem, ao contrário dos animais, faz-se projetando futuro.

Respondeu que há um caminho para ser feliz. E sustentou-o cientificamente com 60 anos de clínica e investigação com observação. Em que deitou no sofá os pacientes. E a todos nós, Portugueses, como nação. Com uma calma oracular e terna. Estivemos ali, deitados sob a escuta atenta do seu pensamento crítico, e eles iam-nos analisando, desde a Inquisição. Entre goles do vinho que saboreávamos, nas nossas longas conversas, no meio das baforadas de cigarros que nunca deixou. O caminho da felicidade, o sentido da vida, não era, para Coimbra de Matos, o da autoajuda, mas o das relações. Penso em ti, logo existo. Somos o que fazemos para mudar aquilo que somos na relação com os outros. Uma autêntica pedrada no charco de tantos lugares-comuns: o do neoliberalismo, que nos diz que devemos pensar em nós e ser competitivos; o da psicanálise clássica, dizia ele, demasiado centrada no fardo do passado. Em Coimbra de Matos há futuro. E há cooperação. A vida não é um jogo de soma zero, é um jogo de somar.

Cresceu a cavalgar os socalcos que fizeram do rio Douro, bravo e inóspito, uma obra de arte. Trabalho duríssimo para os “de baixo”, que com as mãos fizeram um dos mais belos lugares do mundo, onde o trabalho ganha beleza e sentido como atividade. Trabalho no qual o homem encontra um sentido, um saber-fazer, de criatividade e construção. Sem falsos mitos dos heróis do trabalho, dos Stakhanovistas, ou do “pobrezinho, mas feliz” do salazarismo. Ele viu na força dos carregadores de uvas, submissos, a potencialidade da resistência à submissão. Coimbra de Matos não tinha dúvidas: as pessoas são melhores do que as instituições.Passou pela neurologia, mas foi na psiquiatria que se encontrou. Mas não ficou só por aí. Entrou na psicanálise e refundou-a. Nos EUA afirmaram que Coimbra de Matos tinha encontrado o “elo inexplicável” da transferência. O paroquialismo português, de que ele sempre fugiu, nunca chegou a reconhecer o seu lugar na história da psicanálise mundial. Coimbra de Matos é universal. Quis tratar as causas das doenças mentais e condenou com veemência as farmacêuticas que medicalizam as doenças. Um negócio – que é a negação do ócio. O ócio, o prazer, a criação, deve ser esse o sentido da vida. Ao contrário de tantos psicanalistas que fugiram do tema da depressão, ele abraçou a sua compreensão. E a sua cura. Mais cedo ou mais tarde – nunca muito tarde, de preferência –, queria “livrar-se” dos pacientes: dar-lhes alta, queria que eles construíssem novas relações felizes. Só os saudáveis abraçam o que é novo, só os que têm saúde mental olham o desconhecido com curiosidade; os doentes olham o outro com medo e desconfiança. Falta também tudo isso, insistia ele, nos locais de trabalho: cooperação, confiança, afecto, democracia. E tempo. É preciso trabalhar menos e melhor. Por isso dizia-se um socialista, defensor de um modelo cooperativo de sociedade. A cooperação está na base da diferença. E da liberdade. O sucesso da nossa evolução não é a competição, afirmou vezes sem conta.

Beber sempre o mesmo vinho é uma chatice. Ele e o seu irmão Zé, para quem olhava com indisfarçável ternura, como se ele ainda fosse a criança a quem ensinou travessuras, são produtores de vinho, um delicioso néctar feito renunciando às técnicas altamente produtivistas e padronizadas que fazem o mesmo vinho, todos os anos, saber ao mesmo. O dos Matos é um vinho de artesão. Porém, adorava provar um novo vinho, de qualquer parte do mundo. Fazer sempre o mesmo cria rotinas que matam as relações. Há relações saturadas. O segredo de uma boa relação é não ser saturada. Uma relação é um ato de rutura com a rotina. As relações não são, como declara a literatura romântica, o encontro com a alma gémea, com a metade afastada de mim… Pelo contrário, no amor as pessoas não encontram o que lhes falta. Elas complementam-se, o amor acrescenta. Ateu radical, filho de médicos produtores do Douro, da parte da mãe, família de médicos, cultos e letrados em tempos em que metade da população era analfabeta; da parte do pai republicano, progressista, num país onde durante 48 anos não se saboreou a palavra liberdade a não ser na boca dos resistentes. Em casa todos se tratavam por tu, coisa invulgar naqueles tempos no Douro, lugar de sofrimentos atrozes para os trabalhadores rurais onde os mais ricos proprietários ainda tinham, recorda Miguel Torga, o costume de no início da vindima exigir como praxe que um dos trabalhadores, em geral um homem descalço, pobre, faminto, ajoelhado, limpasse com um lenço branco as botas ao patrão, perante o olhar de todos os outros que iam trabalhar. Um ritual de humilhação.Zangou-se com as palavras domínio, poder, hierarquia, Estado. É um produtor de vinho e um fazedor de homens livres. Entra-se na sua vida e não se sai o mesmo.

Domestica-se muito neste mundo, e isso faz-nos mal desde crianças, dizia Coimbra de Matos. Domesticam-se as crianças, impondo limites duros, em vez de lhes ensinar que a própria realidade tem limites. Domesticou-se Portugal, desde a Inquisição, com um hiato de liberdade no 25 de Abril, revolução que viveu com entusiamo, depois de já como médico ter assistido à guerra colonial, da qual voltou ainda mais convencido de como “a tropa é fandanga”, cheia de tiques de poder.

“Foi no dia 2 ou 3 de Maio pela 9, 10 horas. Eu estava no Hospital Júlio de Matos. O João dos Santos apareceu lá com o carro cheio de cravos vermelhos e o convite ‘Vamos ocupar o Instituto de Assistência Psiquiátrico’ (órgão central de coordenação e administração dos serviços psiquiátricos, num segundo andar da Rua Pinheiro Chagas). Fomos até lá uns vinte ou trinta. O diretor tinha saído. O subdiretor pôs uma primeira condição para ser substituído: tinha de assinar os cheques. Respondi-lhe: Mas na minha presença. (Entretanto tinha sido eleito, nas escadas e de braço no ar, para tal função.) Pôs uma segunda questão: precisava de uma ordem da Junta de Salvação Nacional. Fomos lá. Falei com um major. Perguntou-me se era pelo povo, disse que sim. Trouxe um papel escrito à mão. À saída falei para a TV. E assim acabou a Tomada do IAP.”Resistir contra quem nos espezinha. Saborear a palavra liberdade como se bebe um longo porto. Não esperar como vítima, não ficar quieto, acossado. Dizer não! Quis que os seus doentes se curassem a dizer não. Que não se adaptassem a ambientes que lhes fazem mal, antes mudassem os ambientes para que lhes fizessem bem. Entusiasmo é a palavra chave para se ser feliz, dizia o homem que nasceu em plena crise de 1929. É também a dele em gesto. O seu gesto mais comum é abrir os braços, e receber o novo. Diz “não” de braços abertos. Nunca se encolhe. Era forte, determinado, a mãe queixava-se disso. Subia a cavalo as encostas do Douro, até lá acima, em São Leonardo da Galafura, e contemplava o horizonte, as possibilidades, o futuro.

O sentido da vida é fácil. É ser feliz, encontrar-se, a identidade. E encontrar-se nos outros, a relação. E é deixar uma obra para os que vêm. Eis um homem que sabia ouvir e tinha esta receita maravilhosa, quase mágica: ouvir atentamente quem precisa de falar. E avisava: 80% dos psicanalistas não fazem bem e podem fazer mal. Ria-se. Não há lugar a dogmas: ateu, republicano, matou reis, matou Deus. E com isso abraçou a humanidade. Apostou estrategicamente no ser humano, no devir, na mudança. Na revolução, não apenas na revolta, ou seja, depois do não, a verdadeira e duradoura mudança. Tinha 92 anos e olhava a humanidade cheio de esperança. Porque, dizia sempre, “quando não há caminho, abre-se!”

https://www.publico.pt/2021/07/04/sociedade/noticia/coimbra-matos-penso-logo-existo-1968854?fbclid=IwAR3Mx5SJeUDx6SHqAAPh1dUZ8OSykmKO8ELTDTNVVXaNj0MvpMN31AbK32g

5 thoughts on “Coimbra de Matos: “penso em ti, logo existo”

  1. Obrigada por este claro testemunho e homenagem maravilhosa. Não conhecia o Professor António Coimbra de Matos até ao dia em que soube do seu falecimento. Conhecia o Professor Carlos Amaral Dias, também psiquiatra e psicanalista, por quem tinha uma grande admiração, e com o qual aprendia sempre tanto! Ouvia atentamente e falava claramente como só um psicanalista como ele sabia fazer. Infelizmente, também já não está entre nós.
    Gostei muito de saber que o Professor Coimbra de Matos era uma pessoa com tantas e boas qualidades, um filho de uma terra sulcada de trabalho com suor e lágrimas, que conhecia e compreendia bem as suas gentes, e toda a gente, um homem dotado de uma sensibilidade e generosidade raras, com uma abertura de mente e de espirito como há poucos, não resignado e insubmisso, crente nas pessoas e na sua força, com esperança na Humanidade, com sentido de humor, um médico com a sabedoria que lhe vinha mais da observação e das relações com as pessoas do que dos manuais científicos, que evitava “drogar” o doente para o ajudar e ensinar a acreditar mais nele próprio a “abrir caminhos”, os caminhos da felicidade, acarinhado e admirado por todos, e também pelos seus alunos – também li a carta de adeus dos psicanalistas ao seu Professor, que a Drª Ana Batarda, psicóloga clínica e psicanalista escreveu no Expresso.
    Que homenagens sinceras e carinhosas! Tudo o que li me comoveu profundamente. Identifico-me tanto com a sua filosofia de vida, a sua maneira de pensar, de encarar a vida e as suas pequenas e grandes coisas – a analogia do vinho, as rotinas e as relações entre as pessoas achei simplesmente deliciosa, simples, mas cheia de sabedoria. Todos os que o conheceram pessoalmente e que com ele privaram na sua vida familiar, social e profissional tiveram um grande privilégio. Ele deve ter tido uma vida plena e feliz, deve ter vivido a vida tal como a escolheu viver, e isso é uma coragem a que poucos se atrevem. Confesso que com pessoas assim a vida é sempre um prazer e não um sacrifício. Desde muito nova sempre achei que as pessoas boas nunca deviam morrer!
    Há cada vez menos pessoas dispostas a ouvirem os outros, que sabem ouvir os outros que os compreendem e acreditam neles, sem medos e desconfianças, quanto mais beber com eles um copo de um novo vinho, subir ao alto de um monte, saborear a liberdade e ver o caminho do futuro.

  2. Aproveito este espaço para deixar a minha sentida homenagem ao Professor (psiquiatra e psicanalista), António Coimbra de Matos, e também ao Professor (psiquiatra e psicanalista), Carlos Amaral Dias…

  3. nah nao acredito em deuses nem em super homens mas numa coisa eu concordo com esse senhor doutor a ideia do paciente dizer nao porque se vivem em tempos perigosos onde ate o lider da igreja ortodoxa russa veio dizer que quem nao levar vacina peca nojentos hipocritas a proposito disso estou a ler um livro de raoul vaneigem chamdo as heresias one ele diz na contracapa o catolicismo e o protestantismo aos poucos reduzidos ao estado de ideologias nao hao de escapar nos ultimos anos deste seculo vinte ao fim dos totalitarismos e das formas de pensamento monoliticas mas infelizmente hoje vivie-se a ditadura da ciencia chegou a vez da ciencia a boleia de politicos cinicos ditar a lei pra mim esses malditos cientistas mentirosos nao sao mais importantes que um jogador de futebol sao todos seres humanos a europa nao se livra de vez dos dogmas da religiao nem da ciencia e como disse nieztche todas as conviçoes sao prisoes a ciencia se transformou como escreveu raoul em neo-religiao do estado estado hipocrita que concorda com a eutanasia e o aborto e depois cinicamente vem pa tv mostra-se preocupado com mortes de velhos por gripe desprezo o poder seja ele qual for dos prazeres ha-de nascer a audacia e o riso que ignora as ordens as leis ou a moderaçao ha-de abater com a inocencia presente na criança tudo quanto ainda setencie reprima calcule e governe e ja agora o que eu gostava mesmo em nome da ciencia mentirosa era que todos tivessem doentes sem sintomas que maravilha ter dor de cabeça mas nao ter sintomas de dor de cabeça o ser humano fez um pacto com a morte e infelizmente nao deixa de o fazer nao conseguiram guardar uma lei e querem conseguir guardar 10 vinte 613 enfim hipocritas e pior assassinos tudo em nome de que?

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