Longe da Civilização

A morte da professora grávida do IST em Lisboa veio recordar-nos que há um hiato geracional no nosso país. Há uma geração de gente formada, cosmopolita que viveu e trabalhou ou simplesmente viajou para a Europa civilizada que não suporta a forma como se conduz em Portugal. Sou dessas. Ando a pé, de bicileta, raramente ando de carro e tenho medo das estradas e dos condutores portugueses. Medo e profundo desprezo.Tenho asco (não há melhor palavra) por gente que anda a 50km (ainda que seja o legal) a atravessar aldeias e bairros (onde andam muitas vezes a 100km/h); desprezo por tipos que na autoestrada se colam na traseira do nosso carro a 120 km/h para ultrapassar; chamo “animal” (para mim) aos tipos e às tipas que se “esquecem” de parar na passadeira e aos que aceleram antes de parar, para mostrar a sua arma – que penso ser sempre proporcional à falta de amor e de humanidade; tenho desdém pelos sucessivos Ministros que nada conseguiram fazer à guerra civil nas estradas portuguesas a não ser campanhas inúteis; menosprezo os que ultrapassam em curvas em estradas nacionais.

E sinto pena dos indignados que acham que há muitas ciclovias e, de facto, não conhecem o que é o prazer e a felicidade de andar a pé ou de bicicleta, e fazer disso mobilidade e vida, sem ter medo de ser esmagado; o prazer de deixar crianças irem para a escola sozinhas com 6 anos de idade, o prazer de ver um carro a 30km/h e ainda parar a 100 metros da passadeira – foi assim que vivi na Alemanha, na Holanda, na Suiça, e é assim em todos os lugares onde a civilização chegou em doses mínimas. Portugal tem estradas assassinas, condutores desgovernados, e depois muitas multas em zonas desnecessárias que servem como impostos. Acidentes acontecem, de facto, mas em Portugal a maioria das mortes na estrada não são fruto de acidentes, são políticas publicas.

A morte da professora pode ter sido acidental, não sei, mas na Suiça é normal uma mulher grávida andar de bicicleta na estrada e ainda levar na bicicleta outro filho bebé, depois de deixar o outro, com 6 anos, ir para a escola sozinho. Em vez de menosprezarmos as conquistas dos países mais ricos, devíamos exigir que esse fosse o nosso futuro. Na Holanda manifestações gigantescas nos anos 70 impuseram a regra de a bicicleta tem sempre razão numa colisão com carro, e dos 30km/h nos bairros. Lutaram. Ganharam um país onde se respeitam os peões e a lei do mais forte e da arma na mão (o carro) não vinga.

9 thoughts on “Longe da Civilização

  1. Tudo o que escreve é uma pura verdade…
    Sei de um caso de um examinador que chumbou um aluno por ele ter percorrido uns poucos km na autoestada a 50 km (toda a sua condução no exame foi exemplar), tendo passado no condigo com todas as perguntas certas… Pelos vistos, os condutores de automóveis, tem que ser todos uns aceleras… Cada dia que passa, fico mais triste por muita desta gente que me rodeia… Até sempre!

  2. Muito bem.
    Então e o que dizer daqueles ciclistas todos fardados de desportistas que teimam em recusar circular pelas ciclovias e preferem andar pelas estradas, no meio do tráfego e para quem os sinais luminosos não passam de decoração colorida?
    Tu bota civismo nisso, meu!!!

  3. Há uma elite cosmopolita que acredita que a mobilidade automóvel deve ser amplamente reprimida, uma elite que quer ver a sua liberdade ampliada, uma elite que tem recursos e condições para não se sentir privada por esta supressão.

    Não existe civilidade num lugar de luta constante.

      • E as pessoas estão aos poucos a desistir de si próprias, a assimetria de capacidade alimenta a autoflagelação.

  4. Senti um estranho incomodo ao escrever o meu último comentário…preferia tê-lo feito em privado, a ambiguidade das redes sociais tem isto de particular.

  5. É um facto que os acidentes acontecem (é sempre discutível se podiam ou não ser evitados), mas neste caso, pelo que ouvi e li nas notícias, parece que não houve dolo ou irresponsabilidade do condutor do carro. A perda de uma vida – e tão jovem! – é sempre de lamentar, mas a de duas ao mesmo tempo, uma delas dentro da outra, ainda a caminho para nascer, é duplamente avassaladora e destruidora das nossas mais profundas crenças e energias emocionais.
    Também sou utilizadora de bicicleta há muitos anos, e em 2017 fui atropelada, como se fosse invisível ou tivesse um manto que me tornou invisível, como aquele do Harry Potter. Fiquei mal, mas felizmente tive mais sorte. Cumpria todas as regras enquanto circulava, porque também sou condutora do meu carro e conheço as regras, e ainda sou do tempo em que tive de tirar a licença para andar de bicicleta! Mas o excesso de velocidade e a utilização do telemóvel ao mesmo tempo que se conduz, numa rotunda ampla, com excelente visibilidade, numa manhã linda, na cidade – note-se, numa rotunda – são proezas que eu julgo que nem um piloto profissional de Fórmula 1 seria capaz ou se atreveria a fazer, mesmo como brincadeira nos treinos, quanto mais num local de trânsito, incluindo utilizadores de bicicleta! Contudo, o inimaginável aconteceu e, pasmem-se, a culpa ainda foi minha, porque a condutora do veículo achou que eu não devia estar à sua frente, naquele lugar!!! Então, onde deveria eu estar se entrei na rotunda depois de tomar as devidas precauções, quando não havia trânsito a circular? Deveria ter adivinhado o que iria acontecer e ficar parada à espera que todos os loucos passassem para só depois eu seguir o meu caminho? A verdade é que não tenho esse poder, e mais rápido do que eu pudesse imaginar, antes de sair na 2ª saída, onde eu pretendia, eis que, por um qualquer capricho dos deuses, ali estava eu a obstruir a trajetória de alguém que não queria que houvesse obstáculos (pessoas!) na rotunda, porque talvez tivesse traçado um objetivo para aquele dia, e queria estabelecer um qualquer record chegando a um lugar mais rapidamente, ou antes, do que o chato de um “obstáculo” que já lá estivesse! Fui abalroada e fiquei no chão sem me poder mexer da cintura para baixo, mas a única preocupação da condutora do veículo foi a de me informar que o seu carro ficou com um vidro partido e uns arranhões na chapa! Felizmente, apesar de meia atordoada, a minha cabeça ficou bem (valeu-me o capacete!), e para controlar a minha raiva avassaladora, só me ocorreu perguntar-lhe se ao menos o carro ainda estava capaz de andar…
    Obviamente que não se tratou de um caso de “azar”, encandeamento, ou qualquer outro fator humanamente impossível de controlar. Obviamente que se tratou de um caso de falta de inteligência, falta de respeito e empatia pelos outros, falta de civismo, de um enorme egoísmo e egocentrismo, ridículo e estúpido, e só não acabou em desgraça por pura “sorte”! Ainda hoje costumo brincar com a situação e digo que o problema das vitimas é estarem à frente dos acontecimentos, mas não poderem adivinhar o que lhes vai acontecer, e por isso a culpa é delas! E a gravidade é tal que até já têm acontecido acidentes com bicicletas e peões nos passeios públicos, porque os próprios utilizadores de bicicletas têm medo de andar nas estradas!
    Lamentavelmente, estes casos não são poucos, pelo contrário, são cada vez mais, e numa época em que se deseja evitar ao máximo a utilização de transportes poluentes e de fazer mais exercício físico, as pessoas livres e conscientes têm o direito de optar por meios de transporte alternativos e sustentáveis, mas com segurança. Por tudo isso, o investimento em ciclovias nas cidades, como acontece em muitos outros países da Europa há muito tempo, deveria há muito ter sido uma forte prioridade – pouparíamos no ambiente, na economia, na saúde, aumentaríamos a qualidade de vida e a felicidade das pessoas, e sobretudo salvaríamos vidas.
    Só me resta lamentar profundamente o que aconteceu a Patrizia Paradiso, bem como a todas as outras vitimas destas circunstâncias.

    • Obrigado pelo seu testemunho mas tenho que assinalar logo um erro no primeiro parágrafo quando diz que não houve dolo ou irresponsabilidade do condutor do carro. O condutor atingiu a ciclista por trás, logo presume-se à partida que tem a responsabilidade no acidente.

  6. Sim, é verdade, Drª Raquel, e assim prevê o código da estrada. Contudo, essa minha afirmação teve por base a informação que fui ouvindo e lendo, nomeadamente no Público – https://www.publico.pt/2021/06/28/local/noticia/ciclista-atropelada-mortalmente-avenida-india-lisboa-1968221, onde surge a informação que passo a citar “(….) De acordo com o site Lisboa Para Pessoas, o condutor do veículo não terá visto a ciclista na estrada por estar encandeado pelo sol (…). ”
    É um facto indiscutível que o condutor teve responsabilidade no acidente por ter embatido na traseira da bicicleta, por ter provocado o acidente e a morte da ciclista grávida, mas com base no que li, eu não interpretei como tendo sido um ato doloso, feito com intenção ou vontade consciente por parte do condutor.
    Só tenho muita pena que este acidente tenha acontecido de forma tão trágica, com perda de vidas. Depois do acidente que já contei aqui, não desisti de andar de bicicleta, e já tive muitos sustos, mas conheço casos de pessoas vitimas de acidentes com bicicletas que, simplesmente, desistiram por medo e pânico de voltar a acontecer.

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