Transparências

O debate em torno do uso de um camufaldo sistematicamente pelo vice-almirante não é um debate sobre a pessoa em si, muito menos sobre a missão. A bondade ou eficiência da pessoa em causa não deve ser discutida. O debate é sobre populismo e autoritarismo. O mundo político, com escassa oposição – tirando curiosamente nos EUA, país onde à esquerda do Partido Democrático surgiu uma esquerda com algum grau de combatividade e programa minimamente consistente -, alimenta cada vez mais a ideia de que o caos da competição capitalista e da consequente desagregação social podem ser combatidos com uma autoridade providencial, e com medidas bonapartistas. O recurso a uma liderança militar para um trabalho de coordenação de saúde pública não significa que Portugal não tem quadros civis de saúde pública para o lugar, que conhecem melhor a organização da saúde e que podiam até fazer um trabalho melhor ou tão bom quanto. Esta escolha significa ausência de consenso no aparelho de Estado (entre PS e PSD) sobre que figura deve ocupar esse lugar. Simbolicamente passa a ideia – perigossíssima – de que o país para funcionar precisa de uma estrutura militar. Não fosse isto já por si extremamente grave, o vice-almirante optou pelo uso de um tipo de farda de guerra e de combate. Quando as coisas estão mal na sociedade resolvem-se com mais democracia e não com menos. Se a vacinação correu mal no passado não foi porque os “médicos são incompetentes” ou porque há um controlo democrático da saúde pública, mas justamente porque não há controlo democrático na saúde pública. Há muito que existem traços ditatoriais dentro do aparelho de Estado, central e autárquico, que vivem do amiguismo, do nepotismo, dos favores. Não é de fardas camufladas que o país precisa para funcionar, mas de transparência. Só há transparência onde há democracia real

10 thoughts on “Transparências

  1. Não é possível ver coisas que não se sentem. A impressão deste tempo está em todo o lado, e é cada vez mais difícil de sentir. É difícil permanecer desperto. A vida que nos reduz é um acto falhado, é também um tempo que não nos pertence. A “ideia” é uma repetição inteligente. As nossas pessoas nunca deixaram de ser medíocres, as que experimentaram um mínimo de conhecimento, conforto e poder entendem como desejável a repetição estéril.

  2. Cara Raquel,

    Parece-me que há uma outra mensagem importante (talvez mais importante) associada à militarização do programa de vacinas. Não se trata só de sugerir que não há “civis” capazes/suficientes para o organizar, mas sim de revestir o programa em si de uma urgência, de uma importância para a sobrevivência do país parecidas com a de uma guerra. A abordagem militar à vacinação é uma manobra de simbolismo autoritário, sublinha a mensagem que tem sido passada às pessoas de que “tem de ser”, pelo país, pelos outros, porque é nosso dever, etc.

    Isto é particularmente preocupante com uma vacina que não é como as vacinas tradicionais, que utiliza uma tecnologia que o próprio Mike Yeadon (ex-vice presidente da Pfizer) descreveu como muito instável e que variadíssimos cientistas (ele, o Sucharit Bhakdi, o Wolfgang Wodarg, etc.) defendem que é mesmo perigosa para a saúde das pessoas.

    Mesmo que não queiramos dedicar-nos a discussões científicas mais detalhadas, uma coisa é inegável: estas vacinas estão em fase experimental. Foi-lhes dada uma “Emergency Use Authorization” nos Estados Unidos, pela FDA. Cá, na Europa, têm uma “conditional marketing authorization” da EMA. Isto encontra-se nos respectivos sites. O que é grave é que isto não está a ser dito às pessoas e ninguém está a discutir, em público, a pressão social geral que está a ser gerada para que todos se vacinem, da qual a militarização que tão bem notou é apenas uma parte ou um sintoma particular.

    Muito obrigado pelo seu trabalho.

  3. Mais uma vez, a Drª Raquel sempre atenta, combativa e certeira face aos problemas atuais, dos quais alguns passam (quase) despercebidos a muitas pessoas. Não porque as pessoas não os entendam (por vezes é verdade que não estão mesmo informadas), mas justamente porque as questões e as particularidades mais pertinentes e por vezes menos claras (convenientemente mantidas na obscuridade) não são apresentadas e esclarecidas de forma clara, transparente e inequívoca.
    De facto, sempre achei que a utilização do camuflado de guerra pelos “soldados” no programa de vacinação foi um exagero tal que só nos leva a pensar na perspetiva autoritária e militar, que poderá justificar-se muito bem num cenário de guerra, mas que não traz serenidade e esperança às pessoas, pelo contrário. Se o objetivo era querer mostrar a capacidade de foco, de disciplina, de definição de objetivos, prioridades e de controle, não era preciso usar uma farda de camuflado de guerra para esse efeito, nem chamar militares para cumprir esse papel. E mesmo que não a usassem, não seria por isso que os militares iriam perder respeito e prestigio. Aliás, sendo a camuflagem uma técnica também utilizada pelos animais e plantas para enganar o inimigo/predador (neste caso é uma questão de sobrevivência), aqui pode querer dizer que a situação ainda é bem pior do que a que nos estão a contar, ou pior ainda, como se fosse uma guerra contra as pessoas e que o “inimigo” são elas mesmas! Isto não é uma guerra, é uma pandemia, e venham os camuflados de guerra que vierem, o vírus não vai ficar confundido e assustado, e muito menos fugir da “armadilha”.
    Por outro lado, a solução dos recursos humanos militares para estas missões será algum “sinal” de que qualquer outra missão ou problema que os políticos não queiram resolver ou não se entendam por causa das suas contendas politicas só será resolvida pela via militar? Se assim for, acho que será um mau sinal para o povo que elege os seus representantes democraticamente, esperando que sejam eles, democraticamente, a organizarem-se, a planificarem, a coordenarem, a colocarem as pessoas qualificadas e competentes nos lugares das áreas das suas competências – e aqui sim, demonstrando respeito pela democracia e pelas qualidades e competências desses profissionais – e a alocarem os recursos e meios necessários para os deixarem trabalhar. Pelo menos, a confiar nas palavras do coordenador da task force da vacinação, o vice almirante Henrique Gouveia e Melo, na Grande Entrevista, com Vitor Gonçalves, ele acha que as “pessoas andam alienadas”, porque é um militar e não um político – “Eu daria um péssimo político certamente (…) não tenho qualidades para isso (…)”. Ele até pode nunca vir a ser candidato Presidencial ou outro, e até ser honesto, mas outros poderão não ser e achar isso uma boa oportunidade de promoção, já que as pessoas andavam esquecidas das Forças Armadas. Não quero com isto dizer que não fossem bem sucedidos, mas confesso que para mim já chegou o mau exemplo de Bolsonaro!
    Por seu lado, também acho pertinente a mensagem de Sebastião B. Cerqueira, que nos alerta para a perigosidade das tecnologias utilizadas nas vacinas já a serem utilizadas, mas ainda em fase de testagem (ou é só no caso da Pfizer?). Seja como for, o terror em que as pessoas vivem – a cada dia/semana/mês que passa parece surgir uma variante nova do vírus, cada uma mais mortal que a outra, e o número de casos a aumentar aqui e ali – não deixa nenhuma dúvida de que é melhor ter alguma coisa do que não ter coisa alguma. Por isso, não censuro a reação quer dos que cedem à pressão, quer dos que não cedem. Tanto uns como outros são livres de escolher, desde que o façam depois de informados. Contudo, é aqui que reside a causa de muitos problemas, e por isso, o recurso ao autoritarismo e militarismo para os resolver – ainda haverá muitos Portugueses que não se informam sobre as coisas que afetam ou que de alguma forma determinam o percurso e as consequências das suas vidas, que têm medo de perguntar, questionar e de descobrir a verdade (por exemplo, isto acontece em consultas, com os médicos), que não querem ser “mal vistos” ou “olhados de lado” pelos outros, que confiam nos seus líderes cegamente (líderes políticos, religiosos, entre outros), que não protestam, combatem, reclamam ou denunciam os problemas (por exemplo, verifico isso até nos supermercados, nos restaurantes, nos centros de saúde, etc., e nem utilizam o Livro de Reclamações) e que ainda pensam e agem/trabalham de forma individualista e não coletiva. A propósito de líderes, gosto particularmente de uma mensagem de Nelson Mandela que diz ”É melhor liderar a partir da retaguarda e colocar outros à frente, especialmente quando estamos a celebrar uma vitória por algo de muito bom que aconteceu. Mas deves tomar a linha da frente quando há perigo. Desta forma, as pessoas irão apreciar a tua liderança.”

  4. Acho uma certa graça à preocupação das pessoas com o facto de a vacina estar “em fase experimental”.
    Quereriam estas pessoas que a vacina passasse pelo habitual processo de testagem e validação da FDA para ser aprovada ao fim de cinco anos ou mais? Enquanto a pandemia ia ceifando milhares de vidas?
    Eu sou capaz de apostar que essas mesmas pessoas, quando estivessem deitadas numa cama de hospital, aflitas com dores e sem conseguir respirar, iam pensar de maneira diferente. Ou talvez nem pensassem em nada, porque quando se está horas, dias, semanas, a sofrer intensamente numa cama de hospital, se pensa pouco.
    Talvez considerassem as vantagens da vacina, isso sim, quando vissem um filho ou um dos seus pais nessa situação, sem poderem sequer dar-lhe a mão e algum conforto.

  5. Raquel,
    Pelo seu texto, reparo que lhe escapou um detalhe importante, que explica o uso da farda de acção, ou seja, o uniforme camuflado, por parte do Almirante (um Vice-Almirante é já um Almirante e é assim que publicamente deve ser anunciado, tal como um General é sempre indicado como General, independentemente do número de estrelas): esta é a única farda que é comum a todos os ramos das Forças Armadas Portuguesas e ao escolhê-la, o Almirante pretende deixar vincado que não se trata de uma missão da Marinha, mas sim de todas as Forças Armadas. Quanto ao resto, a incompetência deste Governo conduziu a esta solução, que se tornou bastante mais pacífica e eficiente. Sobretudo porque apagou o tradicional coro de lamentos e de mal-dizer de que a ‘sociedade civil’ é tão rica, passando para uma forte discrição.
    Aproveito para um segundo comentário: acabei de ler o seu texto sobre o recente acidente mortal de uma ciclista em Lisboa. Todas as mortes são sempre de lamentar. E esta é de lamentar a dobrar. Mas não posso deixar de lamentar também tudo o que diz e o modo como o diz. Porque nem os condutores dessa Europa ‘civilizada’ (estes pensamentos nem parecem vindos de si…) são mais ‘civilizados’ que os portugueses, nem são assassinos em potência. E os que se comportam mal, cada vez alimentam mais o erário público português, com pesadas coimas, que levam o Governo a prever receitas de 55 milhões de euros com multas de trânsito, sem praticamente investir em prevenção rodoviária. Muito menos, infelizmente, os ciclistas são todos vítimas. Também os há com esse espírito dos condutores de automóveis, com uma diferença grave em Portugal: não são passíveis de ser responsabilizados, a menos que sejam detidos ’em flagrante’. Porque as bicicletas deixaram de ter matrícula, como antigamente, e os seus condutores deixaram de necessitar de uma licença (que era emitida de forma muito simples, pelas câmaras municipais), que obrigava a demonstrar um mínimo de conhecimentos do código da estrada. Para além destes aspectos, hoje, as bicicletas circulam por todo o lado – e não apenas pelas estradas – e não dispõem de seguro, nem pagam quaisquer taxas de circulação. E frequentemente os seus condutores comparam-se aos dos camiões maiores, que pelo tamanho assumem que são os ‘reis da estrada’.

  6. Concordo totalmente com a Profª Drª Raquel Varela.
    O camuflado, ou qualquer outra farda militar, encerra uma carga simbólica poderosíssima de respeito pelas regras, de lealdade inquebrantável perante o inimigo (valor muito importante num país que esteve em guerra até ainda não há muito tempo), de verticalidade e de incorruptibilidade face à sociedade civil. Claro que tudo isto é uma fantasia, como sabemos pelos casos na instituição militar, sejam de corrupção, sejam de desrespeito pela vida, que têm vindo a lume na imprensa.
    No entanto, isso não impede que, no mundo ocidental, muita gente anseie por um regime militar; ou, pelo menos, que deseje ser governada por militares. Aliás, entre os jovens, e nos mais variados países desenvolvidos, os jovens que consideram essencial viver numa democracia estão a reduzir-se a uma significativa minoria. Veja-se o retrato absolutamente assustador das atitudes da população face à ideia de democracia em
    https://www.journalofdemocracy.org/articles/the-signs-of-deconsolidation/
    Vemos bem a que é que esse desejo por militares no governo nos leva no presente (Brasil e Birmânia são dois exemplos devastadores) e no passado, tanto no recente (Chile e Grécia), como no mais longínquo. Mas a evidência não interessa às pessoas. O mito e o símbolo são mais fortes.
    O que é aberrante é ver políticos e democratas de esquerda a alimentarem, de forma suicida, este mito perigosíssimo para a democracia… democracia, aliás, que é o que os sustenta a eles próprios.
    Quando os políticos passam a mensagem de que fracassaram miseravelmente, e de que têm de ir buscar alguém fora dos quadros profissionais competentes do atual regime (a uma instituição que, pela natureza muito especial das funções a que é habitualmente chamada a exercer, não é intrinsecamente democrática) para resolver um problema, aí não auguro nada de bom para esta democracia.
    Por muito excelente pessoa, político e profissional que seja o sr. vice-almirante Gouveia e Melo.

  7. Com tantos cometários de ilustres conhecedores, não tenho coragem de escrever muito mais…E como diria o meu saudoso avô; “não se deve comentar o que é correcto!

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