Sica, conta-me mais

Fui ver Druk. Um autêntico retrato da sociedade hoje- dá para pensar tudo. Para me redimir fui logo a seguir ver Ontem, Hoje e Amanhã, magistral. Os dois filmes receberam o óscar de melhor filme estrangeiro, e são comédias. É o único que têm em comum. Separa-os 6 décadas e toda a história do século XX. Druk é um filme de desistência, desinteressante, sem futuro, alienado, de gente triste que se alegra só com drogas (álcool no caso). Ontem, Hoje e Amanhã é um filme apaixonante, grande arte nascida no colo da resistência. Hoje seria cancelado, é tudo livre (como se diz, politicamente incorrecto). Druk foi agraciado, é um filme de coitadinhos, politicamente correctíssimo, para a politica deste tempo em que os políticos insistem que o futuro é de apocalipses, sociais e climáticos e outras visões milenaristas com que o poder sempre tentou derrubar a esperança.

Druk conta a história de 4 professores em burnout que resolvem embebedar-se para tentarem ser felizes. Os adolescentes a quem dão aulas estão nas aulas, enfadonhos, chatos, e alegram-se apenas fora da escola em grandes bebedeiras. A escola é um lugar sem interesse, para os adolescentes e para os professores. Os professores resolvem seguir-lhes o rumo, e começam a beber para trabalhar. O álcool ajuda-os a gostar de dar aulas, que transformam em jogos (a teoria de que as aulas são chatas porque lhes falta “estímulos” leves e brincadeira é uma das teses que o filme se propõe) e um deles, depois de beber, consegue mesmo voltar a fazer amor com a mulher. Quando aparece um aluno ansioso com o exame o professor resolve dando-lhe…um golo de Vodka.

O professor de história, personagem central, ganha mesmo o entusiasmo dos alunos quando lhes explica que Hemingway e Churchill eram dois bêbados e por isso produziram grandes obras literárias, ganhando o Nobel. Terá escapado ao professor que Churchill esteve num colégio interno até ser adulto, onde – em vez de pancada e pedofilia, como os pobres gostam de retratar os colégios da alta burguesia – recebeu o melhor da cultura universal, da ciência, da arte e do desporto e das relações sociais (de classe é certo, mas relações e não solidão que é a grande doença dos trabalhadores e sectores médios hoje, fruto da competição nos locais de trabalho). Não foi pelo que Churchill bebeu às 7 da manhã durante a II Guerra que conseguiu escrever livros, como se imagina. Para Druk sim, a saída está na autoalienação – a escola é insuportável, a família tornou-se por isso insuportável (é o lugar de trabalho que determina as outras relações sociais), os filhos são desinteressantes e os alunos de fugir, o que fazer? Lutar, resistir, organizar, transformar, entrar em ruptura com o Estado? Não – romper com o puritanismo escandinavo, exagerado neste campo do álcool, e apanhar umas homéricas bebedeiras.

A escola é o lugar de adoecimento, o lugar central do filme, mas toda a culpa das suas frustrações aparece como subjectiva, fruto de características individuais e nunca laborais. Druk é um filme de autoajuda, em suma. Na versão heterodoxa do – “beba álcool em vez da ioga matinal e da meditação para combater o inferno em que se transformaram os locais de trabalho”. Está lá a solidão de classe que atinge agora quase todas as classes, excepto naturalmente a burguesia.

De classes sociais fala-nos Vittorio de Sica em “Ontem, Hoje e Amanhã”, um tríptico de 3 casais, hilariante, representados por Sophia Loren e Mastroianni – divinais. Não só ecléticos, como diz a crítica, mas magistrais, divinais, todos os superlativos. Uma família miserável da classe trabalhadora que anda entre o encantamento sexual, amoroso, a aldrabice, a fraude, a prisão, a solidariedade do bairro, a fuga ao Estado, e a traição – hoje seria cancelado, já que estamos em tempos de personagens puras, ideiais. Um trabalhador solidário e fraudulento não pode ser retratado. Só puro.

A dupla da mulher da alta burguesia num Bentley com casaco de vison, apaixonada pelo professor, intelectual, discursando com sinceridade sobre os valores do amor, mas que à primeira ameaça à sua propriedade (o carro tem um acidente) sucumbe ao valor superior do dinheiro. Morrerei por ti…dinheiro. Irei até ao fim do mundo, meu amor…a herança.

E a última, inesquecível, Loren é aqui uma prostituta, em versão acompanhante com casa própria, e um filho de um industrial apaixona-se por ela, ao mesmo tempo que um seminarista jovem se recusa a ir para o seminário, por amor a ela. Ela faz então uma promessa a Deus, junto da avó, beata, para ele ingressar. A promessa consiste em abstinência sexual…uma semana, a semana em que o filho do industrial – Mastroinani – está lá, que se terá que contentar com um inesquecível striptease do abat-jour.

O grande cinema italiano não pode ser compreendido fora do impulso cultural que significou a resistência revolucionária ao fascismo. Não pelos temas, porque Sica não fala de revoluções, nem de operários idealizados, mas por conseguir ver o homem na sua totalidade, na sua integralidade – isso só a transformação social da revolução dos operários não idealizados, que abala os alicerces do status quo, permite.

Druk retrata uma pequena parte, de homens pequenos, partidos aos bocados, sem sociedade, sem totalidade, desesperados porque desistentes. Sica retrata uma sociedade que o almeja ser, cheia de contradições e mudanças. Em Sica não há gente pura, partida a meio, aos pedaços, retirada da sua totalidade. Druk tem piada, às vezes ri-me de facto, mas é brutalmente aborrecido. Foi um alívio quando terminou. Aborrecido tanto quanto seriam e serão as aulas com piada e jogos, onde não se explica a essência da humanidade e do conhecimento, mas apenas visões fragmentadas do mundo. É um alívio quando terminam. Sica é de morrer a rir, delirante por vezes, total, arrebatador, porque explica-nos, abala-nos, remexe-nos, ajuda-nos a compreender o que somos na totalidade das nossas contradições. Queremos ir para lá, junto de Loren e Mastroianni e quase lhes pedimos continuem, contem, contem-nos mais de nós, a humanidade.

2 thoughts on “Sica, conta-me mais

  1. Se fosse o neofascista do “Chega”, os jornalistas de m**** andavam a traz dele como cães raivosos!!!
    Creio que não estou a dizer nenhuma mentira, que os média (comunicação social) tivessem feito alguma referência ao filme, “Miss Marx” da cineasta italiana Susanna Nicchiarelli.
    Como principais actores, Romola Gari, Patrick Kennedy, John Gordon Sinclair.
    Uma biografia sobre a activista politica Eleanor Marx, a filha mais nova de Karl Marx, com destaque para as lutas pelos direitos das mulheres, das revindicações dos trabalhadores e pela abolição do trabalho infantil…
    Por hoje é tudo… (retido do facebook) https://www.youtube.com/watch?v=I81rfcu21z8&t=25s

  2. Pingback: Sica, conta-me mais – Museu Educação Diversidade

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