Que escola e que país queremos?

O João Jaime Pires é professor e director de uma das melhoras escolas públicas do país, onde tem sido feito um enorme trabalho crítico, reflexivo, e aberto à comunidade com ciclos de conferências, cinema, debates, a todo o público, o Liceu Camões… Insisto na minha ideia de que pode haver excelência para todos, e que essa é a função da escola pública. Excelência para todos.Há 78% de professores em exaustão emocional, 84% que se querem reformar e mais de 80% das crianças e jovens dizem não gostar da escola, sendo que escola devia ser sinónimo de felicidade de aprender e ensinar, aquele lugar maravilhoso onde queremos rapidamente regressar depois das férias grandes. Ontem estive num debate – casa cheia, lotação máxima mesmo – com professores no Minho, debatemos abertamente e por 3 longas horas todos os problemas que levam a esta falta de gosto pelo ensino, onde se perdeu a visão transformadora da escola? e onde começou a adaptação? Tudo isto dá um livro, prometo fazer uma síntese sobre este tema cimeiro em livro um dia, como fazer da escola pública um lugar de sonho, esse é o desafio, a utopia concretizada, mas aqui, espaço curto, e no debate, assinalei 4 pontos que são essenciais mudar se queremos outra escola pública: é preciso acabar com a avaliação de desempenho dos docentes que gera sofrimento ético; repor as carreiras; pensar o currículo em que o professor não é um operário executor, mas uma profissão criativa e intelectual; regressar à gestão democrática para criar trabalho cooperativo. O comentário de Paulo Guinote publicado pelo prof. Jaime, a propósito de um artigo no Público sobre o cansaço docente, sendo que o Jaime é um dos grandes professores deste país, que simboliza uma escola com que sonhamos, devia deixar em alerta qualquer Governo. Os professores como estão não podem dar ao país uma escola de excelência para todos, é preciso recentrar a escola no docente e pensar que docentes queremos? para que país queremos? Estou convencida que se respondermos a estas duas questões vamos responder à que mais nos interessa, que crianças e jovens queremos formar, que bem estar e ferramentas de emancipação lhe queremos legar. “Apesar destas explicações, não me embaraço muito em confessar que me sinto cansado e que, como eu, muita gente ao domingo à tarde sofre de um redobrado sentimento de lassidão ou mesmo desânimo. Porque sabemos que por muitos milhões que andem para aí a anunciar para a Educação e a recuperação das aprendizagens, a nós só irão pedir mais com o mesmo, na melhor das hipóteses.”

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5 thoughts on “Que escola e que país queremos?

  1. Professora, gostei muito de ler esta sua publicação. Quero dizer-lhe que estou absolutamente de acordo com os quatro pontos que, com total lucidez e conhecimento de causa, aqui delineou para se conseguir “outra escola pública”.
    Como ilustração, partilho aqui os quatro eventos marcantes que me levaram a deixar a profissão de professor na escola pública, há 13 anos:
    – Quando fui impedido pela legislação (em que o governo Sócrates retirou toda a autoridade aos professores) de proteger os alunos mais vulneráveis e de tentar ajudar um aluno muito problemático a salvar-se a si mesmo (como já tinha feito com tantos outros, a maior parte das vezes com sucesso, infelizmente houve duas vezes que não) – o aluno em questão, mais tarde, nesse mesmo ano, acabou expulso da escola por agredir uma professora, mas a legislação foi cumprida à risca!
    – Quando, para minha eterna vergonha (e por simplesmente não ter tempo para fazer melhor), ouvi por acaso um pai a dizer que eu já não era nada de especial que ele tinha ouvido dizer que eu era e a perguntar à funcionária o porquê, e esta dizer que não sabia.
    – Quando os professores baixaram os braços na luta contra a avaliação competitiva (note-se que, não só, mas também muito por culpa do PCP e dos Sindicatos que tudo fizeram para enganar, desmobilizar e cansar os professores, fingindo que não), apesar de eu me ter recusado a entregar os documentos que permitiriam essa avaliação (aliás, ficando em consequência com um processo disciplinar a ir cair-me em cima).
    – Finalmente, quando me apercebi que o mundo desumano que os políticos tinham criado para professores e alunos estava a fazer-me ficar completamente esgotado, desmoralizado e embrutecido, uma combinação mortífera quando se trabalha em educação (mortífera para os alunos, entenda-se).
    Obrigado mais uma vez por fazer também sua esta luta tão difícil!

  2. “… 4 pontos que são essenciais mudar se queremos outra escola pública: é preciso acabar com a avaliação de desempenho dos docentes que gera sofrimento ético; repor as carreiras; pensar o currículo em que o professor não é um operário executor, mas uma profissão criativa e intelectual; regressar à gestão democrática para criar trabalho cooperativo”.

    Isto não é cassete. Isto é aquilo que precisa mudar o mais rapidamente possível. Para bem da Educação e para bem do país. Não vai ser fácil e não será por culpa da medíocre Tutela e afins. O agente patogénico entrou no sistema (Diretor), alimenta-se do próprio hospedeiro (ADD e outros meios de controlo) e reproduz-se em massa (nepotismo).

    A solução só pode vir dos professores.

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