Os Rankings não mentem

Tem sido muito partilhado o testemunho de uma professora descrevendo alunos miseráveis e desafiando no fim, “coloquem-no lá no colégio para ver se fazem melhor?”.O esforço dos professores não é questionado por ninguém sensato. Trabalham em média 44 horas por semana, quase 40 anos, ou mais. E em más condições em média. Correm 100 km por dia. A questão é para onde correm? E que escola defendem? Responder a isso é responder que país defendem e que condições de trabalho defendem para si próprios.

Partilhar histórias de alunos filhos de trabalhadores empobrecidos e mesmo miseráveis (eufemismo “carenciados”) não nos explica o que é a escola pública nem quem são os professores. Primeiro, porque felizmente não são a esmagadora maioria dos que andam na escola, nem o principal desafio dos professores. Não devia existir uma única criança com fome mas são menos de 5% do universo da população escolar (5% que envergonham qualquer país, sem dúvida). Ora Portugal construiu a escola pública e universal com as lutas dos professores na revolução quando só em Lisboa havia centenas de milhar de pessoas a viver em barracas, crianças com fome, epidemias de cólera, com muito mais problemas de saúde e de aprendizagem do que hoje, e a escola mudou-lhes a vida, para sempre. A escola não esteve lá para eles, os filhos de quem trabalha, só para lhes dar de comer, mas para lhes dar uma formação.

A escola que os professores receberem, e transformaram com a revolução depois do 25 de Abril e na década seguinte, não tinha alguns alunos “carenciados” – tinha centenas de milhar e no entanto a escola mudou-lhe a vida, dando-lhes ferramentas para terem um trabalho. Conheço professores, escritores, médicos que vinham de classes trabalhadoras muito pobres e a diferença foi a escola pública.Hoje não é – apesar de terem publicado aqui uma gorda de um estudo que diz que os alunos do privado chumbam mais na Universidade do que o público – todos os estudos nacionais, sem excepção, o que dizem é que a escola deixou de ser um lugar de emancipação e passou a ser de reprodução social. Filho de operário não vai ser médico na escola pública.

O estudo cuja gorda tem sido partilhada refere-se exclusivamente a um universo restrito de medicina e o que diz é que nos últimos anos de medicina chumbam mais os da pública, no início os da privada. Por outro lado, não distingue colégios de topo, de outros do ensino privado. E tem um viés, que é parte do universo – nas privadas estão alguns (quantos?) alunos que querem ir para medicina por pressão familiar e menos por vocação, e isso acaba por ter impacto na carreira escolar. Finalmente os colégios do ranking têm bolsas com alunos “carenciados” que fazem percursos brilhantes. A questão não está – volto a dizer – nos alunos que entram na escola mas no que a escola tem para lhes oferecer. Ou têm dúvidas do que responder à pergunta do início? Sim, podem colocar um aluno pobre e miserável num colégio de topo e o que acontece é que ele vai aprender e vai aprender muito bem. E ser feliz na escola.

A caricatura que fazem aqui dos colégios de topo é um disparate, como se fossem autómatos a fazer testes para os exames. Não, há aulas de manhã ou à tarde o resto são artes, desporto, cultura. A diferença está na formação dos professores, nas condições de trabalho dos docentes, e na organização da escola. É neste trio que se resolvem todos os problemas.

Temos que debater porque a escola pública deixou de ser um lugar de emancipação, para alunos e professores. Isto se queremos defender a escola pública. É difícil fazer esse debate se chocamos de frente com um muro em negação a dizer-nos que não senhora, a escola pública está óptima. Parte deste muro , desta negação, que os professores replicam segue a orientação das ciências da educação dominantes (que fizeram da escola um espaço assistencialista, cheios de “tolerância” e “cidadania” e sem qualquer horizonte de emancipação e liberdade); parte tem a ver com as teorias dominantes governamentais que querem uma escola voltada para o mercado de trabalho (e eu diria que os professores e pais também acreditam nisto – voltarei ao tema também) e, finalmente, parte da negação vem dos próprios sindicatos que ao não conseguiram inverter este rumo (a derrota master foi em 2008-2010) criaram uma fábula de uma escola pública excelente, de docentes esforçados, que lidam com situações complexas todos os dias. O que é verdade, mas isso não faz uma escola.

Os rankings não mentem. Mostram uma realidade, parcial mas real. Os rankings dizem uma terrível verdade – a escola pública reproduz as desigualdades sociais existentes, logo não cumpre a sua função de escola. Cumpre outras: evitar delinquência, servir o mercado de trabalho, ocupar crianças enquanto os pais trabalham, dar de comer, no limite, mas não cumpre a função primordial que é ensinar e transformar. E a minha tese é que um professor não pode ser feliz se não cumpre a função de educar e transformar. O “brilho nos olhos” não chega quando conseguimos um lugar no ensino profissional para um filho de um operário ir estudar, mas quando temos uma criança que não está a aprender um raciocínio complexo e nós conseguimos ensinar esse raciocínio. Esse “clique” é apaixonante e é o que faz um bom professor. Quando eles aprendem, e por isso ficam melhores, mais livres, mais emancipados.

Os exemplos que são partilhados são sobre escolas TEIP. É o viés do pobrezinho e feliz herdado do salazarismo. “Porque se queixam enfermeiros de ganhar 1000 euros se outros ganham 600?”. Andamos sempre a comparar-nos com o pior, nunca com o melhor. As TEIP são uma minoria. O cenário real da maioria não é TEIP e não é bom. Porque não partilhar o exemplo de uma escola pública de um bairro nobre de Lisboa onde as duas turmas de 10ª ano de humanidades têm média negativa às disciplinas fundamentais e nas turmas de ciências, onde foram cirurgicamente colocados os melhores professores, 70% tem explicações privadas? Porque não colocar o exemplo dos filhos de operários, enfermeiros, a quem foi dito no 7º ano que “talvez ele estivesse melhor num ensino profissional, lá para o 9º ano”? Assim, condenanos com 13 anos, já desistiram deles. E estes são os bem alimentados. Não têm fome, têm ignorância e desconhecimento, e por isso são menos livres, e a responsabilidade é nossa. A escola pública pode dar de comer aos filhos dos 5 a 10% que passam fome, e ainda bem que o faz. Mas não ensina em média com qualidade (sim, há excepções!) os filhos dos outros 90% que alimentam muito bem os filhos e pagam impostos como condenados. Estes filhos – de operários, funcionários públicos, motoristas, enfermeiros, e mesmo de professores – não vão entrar na faculdade ou não vão entrar no curso que desejariam. E pior, os resultados médios dos exames anónimos revelam que não aprenderam o mínimo.

Podemos continuar a debater as franjas mais pobres ou podemos perguntar que escola é esta que nos dão. Não deviam ser os professores os primeiros a fazer esta pergunta?

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2 thoughts on “Os Rankings não mentem

  1. Os rankings não mentem, pois não; mas com a verdade me enganas.

    O facto de existirem escolas boas e escolas más (públicas ou privadas, para o caso é indiferente) não implica que a classificação num ranking, baseada num único parâmetro, seja pertinente para descrever uma realidade complexa em que estão em jogo justamente -duh- muitos parâmetros. Para exemplificar, divulgado o ranking continuamos sem conhecer a organização horária e as actividades extra-curriculares (e que actividades são essas concretamente) das escola ‘x’ ou ‘y’; quais dentre elas têm as aulas de manhã, e desporto e artes à tarde (é tudo de excelência, claro, mas onde estão os detalhes? se se faz teatro, gostava de saber se é o de revista ou se é baseado nas obras de Brecht, António José da Silva e Shakespeare). Gostava de saber qual é a revista científica de topo – mesma nesta época de “publish or perish” – onde se aceitam para publicação investigações/análises de um sistema complexo reduzidas a um quadro Excel com um parâmetro único.

    Se isto fosse para levar a sério, o foco era apontado escola a escola e, ao mesmo tempo, aos constrangimentos sistémicos. As informações relevantes para o funcionamento das escolas seriam tornadas públicas nos ‘websites’ das escolas. Se isto fosse para levar a sério, havia um debate público centrado nas necessidades de investimento – nomeadamente no que diz respeito ao número de docentes – para que a ideia de ter aulas de manhã e actividades de excelência à tarde pudesse ser generalizado a todo o país – quero dizer, levado até ao país dos de baixo. Escolas de topo exigem muito dinheiro. Estaremos dispostos a pôr todos os anos muitos milhares de euro por cada criança? (os que forem necessários para levar as actividades extra-curriculares à tarde, as bibliotecas e os laboratórios bem guarnecidos a todas as escolas públicas do país), para cada criança? Eu estou, mas estais vós?

  2. Queria dar um exemplo para esclarecer o meu juízo. Consideremos, pois, a título de exemplo o Liceu Camões em Lisboa. Ao consultar a sua página na rede, fico a saber que tem uma vida cultural bastante rica. Através das suas publicações no youtube é-me possível, a quase 2000 Km de distância, assistir palestras variadas, conhecer alguns professores e as suas filosofias de ensino, assistir à apresentações de trabalhos por parte de alunos, e ainda sou agradavelmente surpreendido ao saber que animam um ciclo sério de cinema … É isto que é útil para que um candidato a aluno e a sua família possam decidir se este liceu lhe interessa ou não. Se voltasse a viver nessa zona de Lisboa, o Camões era um dos liceus onde eu ponderaria inscrever o meu filho. Não preciso de ir consultar a sua posição no ranking; e se, apesar de tudo, procurasse algum conforto nesse sentido, o que eu gostaria de saber era se os bons alunos que querem seguir Física conseguem entrar no Técnico ou se os querem seguir Medicina conseguem entrar na Faculdade de Medicina. As notas médias e a posição no ranking são totalmente irrelevantes para isso. Os rankings são um instrumento de propaganda política, uma maneira (“nudging”) de levar as pessoas a aceitar uma concepção paupérrima da educação segundo a qual o valor intrínseco dos saberes, das artes, das ciências são irrelevantes, e a cultura integral do indivíduo (como dizia o outro) é uma miragem.

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