Direito à Ignorância

A pedagogia é dominada pelo construtivismo de Piaget e suas inúmeras vertentes. Isto parece um palavrão para quem me lê mas seu eu concretizar vão reconhecer: o professor é um “mediador”, não é um “educador”; a escola é quase um mal que retira, ao ensinar, autonomia às crianças que já vinham com um “saber espontâneo”; o desenvolvimento dá-se por etapas que acompanham as idades e o seu desenvolvimento biológico e a escola acompanha essas etapas – se a criança não consegue mais a culpa é da biologia e das “etapas”, devemos ter paciência e esperar que ela lá chegue um dia (nunca chega porque só chega com educação intencional, daí a proibição de retenções, não sabe, mas passa); transmissão de conhecimento é palavra tabu, agora fala-se em dar “ferramentas” para “competências” e “valências”. O verbo ensinar é quase um insulto, um ataque ao saber “puro” inato da criança e das suas etapas.Tudo isto é um erro gigante que visa adaptar o ensino à massificação para um mercado de trabalho que divide trabalho manual de intelectual, gestores de executores, dirigentes de dirigidos, representantes de representados, quem domina e quem não domina o conhecimento. A linguagem é a da democracia – “escola para todos” -; a realidade é a da produção de elites e vasta camada de dirigidos.

O que é a escola? A escola é um lugar onde se ensina intencionalmente (sim, com intenção) o melhor do conhecimento produzido pela humanidade (sim, conhecimento formal, científico e não espontâneo); ensinar é uma actividade consciente e planeada (planeada, sim, leram bem), não se dá por estados mas por saltos qualitativos que devem sempre ter em conta não o que a criança sabe, para isso não precisa de escola, mas o que em determinada altura e por “imitação” dos adultos pode vir a saber. Imitação virou outro palavrão, junto com a memória. Imitação para Vigotsky não é imitar a aparência do conhecimento, mas os seus fundamentos. Imitação não é imitar o aparente. É imitar o melhor que sabe o adulto, que é responsável pela criança. É a sua direcção. É aprender, com ele, que tem a responsabilidade de ensinar à criança e jovem o melhor do conhecimento fundamental imitando-o – ele faz esta conta, eu faço-a com ele, eu leio com ele este livro, até o compreender sozinho, porque ele me ensina. E eu assim não me torno um autómato – pelo contrário, eu passo a conseguir fazer essa conta e ler, até que um dia consigo fazer por mim sozinho sem imitar, e dou saltos de aprendizagem (e não estados). Autómato é quem não aprende, e se sujeita por isso a quem aprende. Para quem quiser entrar no maravilhoso mundo da psicologia e do psiquismo humano e perceber o estado a que nos trouxe o “aprender a aprender” leiam os textos de Newton Duarte sobre Vigotsky, e em crítica de Piaget, estão em acesso livre na net. Para a escola que queremos leiam tudo o que o gigante professor Demerval Saviani escreveu (ele é pequenino de estatura na verdade, mas o melhor e mais brilhante teórico da educação). Ambos são marxistas, o professor Saviani veio do seminário jesuita para o marxismo e fundou a Pedagogia Histórico-Crítica, que a mim me trouxe luzes (iluminou o saber). A escola de Vigotsky é o mais longe que foi a pedagogia até hoje – e é claro dentro da área da psicologia estudado por todos, incluindo por quem discorda. É um marxista, fundador da psicologia soviética (com Luria, Leontiev etc), todos proibidos, perseguidos ou ostracizados por Estaline.

O corolário do saber espontâneo, onde o professor cuida mas não ensina nem exige, e sofre, é o da criança que aprende o que pode, é o dos professores que não se chateiam, a culpa é dos miúdos, deixaram de a forçar (com pedagogias de ensino e não de mediação) a aprender porque isso é uma “violência”. Passámos da reguada – política de um ensino ditatorial sem pedagogia – , à “liberdade ” de ser ignorante, livres para não saberem nada. É isso que espelham também os rankings. O eduquês de Nuno Crato ficou a meio de caminho – não conseguiu relacionar estas pedagogias com o capitalismo e ainda usou o eduquês e o prestígio que tinha entre professores para os massacrar mais, piorando tudo. Basicamente a crítica a Piaget veio com o liberalismo do trabalho precário e ainda mais mal pago, tudo verificado por exames e rankings, e a cereja no bolo é a avaliação de desempenho de Maria de Lurdes Rodrigues. Foi o fim de um edifício já em queda. O domínio destas pedagogias espelham outro tema – os pais destes miúdos não acreditam na mobilidade social. Pensam, sem pensar e assumir, “porque vou chateá-lo com o telemóvel, arranjar uma discussão, perguntar-lhe o que estudou, se ele não vai a lado algum mesmo?”

E aqui entra outro tema – o da sociedade. Estudar com que objectivos? Aí sim, é preciso debater a economia do país. Mas Piaget tem sido um anjo para professores (e pais) exaustos que não ensinam, nem exigem nada aos alunos e filhos – a culpa é da criança e do seu desenvolvimento atrasado. E assim, entregamo-los ao mundo. Ignorantes mas atrevidos, porque se não sabem é porque, como cantava a Gabriela, são naturalmente assim. Os posts que vou colocando aqui são de divulgação e por isso simplificam as teorias pedagógicas (às vezes faço caricaturas, ou uso metáforas para as explicar)- quem queira deve fazer um esforço para aprofundar estes temas nas leituras originais que deixei acima. Merecem o vosso tempo porque ali percebemos como sabemos tanto para resolver os problemas. Falta-nos, dizia o Almada, mudar as coisas. – “Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”.

14 thoughts on “Direito à Ignorância

  1. Piaget é um cancro na área da pedagogia, psicologia e “ciências da educação”. Infelizmente não havia contestação a esta aberração, porque dava um ar de “ciência”, pelo menos no currículo do ISPA

  2. Pelos anos 60, expandiu-se a partir dos EUA um novo paradigma de abordagem científica que ficou conhecido por Estruturalismo. Pretendiam os seus defensores (alguns dos principais vieram a abandonar o barco, em boa hora – Chomsky foi um deles) que o fulcro das actividades científicas deveria focar-se apenas naqueles aspectos passíveis de serem mensurados, reduzidos a números, experimentáveis em laboratório, esquematizáveis, resumidos em gráficos, e por aí fora. As outras dimensões da realidade, essas não valia a pena perder-se tempo com elas. Entusiasmados com o sucesso das primeiras abordagens, eis que os seus defensores cada vez mais numerosos decidem expandir a nova via às ciências ditas humanas e em boa verdade a quase todas as actividades. Daí que a sua aplicação à linguística, à literatura e sobretudo ao ensino não tardou.
    Quando Hitler invadiu a Rússia também teve inicialmente grande sucesso.
    No entanto, quanto mais insistiam, mais a metodologia mostrava as suas importantes limitações, a ponto de começarem as reacções contestatárias, tendo-se caído no pólo oposto, o chamado Funcionalismo, depois seguido do Construtivismo, da Pedagogia por Objectivos, etc.
    Isto para dizer que o ensino em Portugal, falho de investigação séria e consistente, sempre sofreu das ondas “inovadoras” que vinham de fora e que iam sendo adoptadas oficialmente numa sucessão de fundamentalismos, cada um mais fanático que os outros. A própria obsessão socratina pela avaliação nunca passou de um pretexto para submeter uma classe profissional que lhe fazia frente. Nem o animal feroz nem nenhum outro ministro alguma vez quiseram de facto avaliar a sério seja o que for e continuam a não querer. Apenas pretendem estatísticas que fiquem bem na foto do situacionismo. E como nos exigem números, é claro que eles acabam fatalmente por aparecer, mesmo sob as formas mais ínvias e mistificadoras…tipo ranking…

  3. Drª Raquel, li os seus últimos posts sobre a Educação, a Escola pública e privada, os rankings, os professores, os alunos, … e a Escola pública que queremos. Tal como a senhora, eu também defendo a Escola pública – frequentei sempre escolas públicas e trabalho numa escola pública. E é a realidade da Escola pública que eu bem conheço e cujo retrato nos seus posts eu também reconheço. Devo, aliás, realçar aqui o seu interesse e a sua coragem em levantar questões muito sérias e pertinentes e trazer para a luz um assunto que a sociedade portuguesa, e os políticos e deputados em particular, pouco refletem e debatem – e há muito que o assunto carece de atenção – e quando o fazem, pontualmente, nomeadamente através dos media, nunca é um debate aprofundado, aturado, consistente e continuado no tempo. Costumam convidar painéis com ilustres personalidades com ou sem responsabilidades diretas na Educação, que trabalham nos gabinetes ministeriais e nas secretarias de estado e direções regionais, mas nunca assisti a um debate – e um desses eu jamais perderia – só com professores, aqueles que estão no terreno diariamente, a maior parte deles durante muitos anos. Porque será?
    Se é verdade que os rankings e os exames nacionais não mentem, não é menos verdade que não aferem nem avaliam tantos outros aspetos e tantas outras questões que a maior parte das pessoas – pais, alunos, professores, políticos, governantes, media – não quer ou não tem coragem de denunciar e de debater, preferindo “enfiar a cabeça na areia” e arranjar bodes expiatórios para aliviarem a sua consciência ou falta dela, bem como a falta de coragem e de empenhamento na construção de uma melhor Escola pública. A verdade incomodaria muita gente e deixaria muitas elites preocupadas, não com a Educação em si, mas com os eventuais efeitos perturbadores das “ondas” que um debate empenhado e sério na sociedade civil poderia causar – para alguns pensar é perigoso, e perturbador da ordem estabelecida, poderia até correr-se o risco de uma revolução de mentalidades, de uma mudança de paradigma das correntes pedagógicas, e isso não é aconselhável, porque todo o esforço, tempo e dinheiro tem de ser gasto na salvação da economia! Independentemente de ser pública ou privada, a Educação não é uma empresa que dá lucro! A Educação é uma empresa há muito falida!
    Algures no passado, as classes dirigentes da nação tiveram uma paixão pela Educação, pensaram em ideias e projetos atrás de ideias e projetos, copiaram modelos educativos europeus numa lógica puramente experimental sem adequação à realidade da sociedade e das escolas portuguesas, para serem abandonadas algum tempo depois, sem que tenha havido qualquer avaliação dos seus efeitos e das suas mais-valias, experimentaram novas práticas inovadoras mas pouco sistemáticas, produziram leis atrás de leis, alterando-as conforme os ventos políticos, e sobretudo criaram esperanças e espectativas sobre o futuro de uma Educação para todos, inclusiva, democrática, inovadora, promotora da igualdade de oportunidades sociais e culturais para todos e que servisse de elevador para a ascensão social e económica das pessoas que, pela sua perpetuada condição sociofamiliar, não conseguem chegar a posições mais elevadas na sociedade.
    Na minha opinião, faltam três coisas importantes para que a Educação em Portugal seja um projeto pedagógico, cultural, social e económico credível, consistente e a longo prazo: a primeira coisa tem a ver com a perspetiva muito inculcada na mentalidade das pessoas de que a Educação é mais um problema do que a solução para muitos problemas, e por isso falta a visão da Educação como sendo a base ou o alicerce necessário para a construção de uma sociedade e de uma economia mais forte e equilibrada, com pessoas, cidadãos e profissionais mais cultos, informados, empenhados, qualificados e felizes – pessoas e profissionais valorizados e pagos para poderem ter uma qualidade de vida digna e merecida, serão sempre recursos humanos mais motivados, empenhados e mais produtivos; a segunda coisa tem a ver com a sucessivas campanhas de desautorização e desvalorização do papel dos professores e educadores, reduzindo-os a meros peões no cumprimento de ordens e diretrizes superiores, desvalorizando o seu conhecimento, a sua experiência e a sua capacidade intelectual, reflexiva e crítica, bem como o seu contributo de ideias e sugestões no âmbito da filosofia e politica educativa – são os que melhor conhecem o terreno e a realidade das escolas, das famílias, dos alunos e das condições de trabalho. Contudo, e muito convenientemente, foram sendo paulatinamente transformados em entertainers, “guardadores e aturadores” de crianças e adolescentes, funcionários burocratas e tecnocratas, produtores de incontáveis papeis (atas, relatórios, grelhas, fichas, testes, planos, ….), público de inúmeras reuniões, muitas vezes tarde e a más horas, como “paus para toda a colher”, servos fieis e dedicados na escola e em casa, sem direito a queixas e protestos, ou seja, tudo menos serem pessoas, pais e professores; a terceira coisa tem naturalmente a ver com o precário investimento financeiro, material e humano nas instituições que suportam o sistema Educativo – infantários, escolas, universidades, núcleos e associações culturais, desportivas e atividades de tempos livres.
    A Drª Raquel já escreveu sobre quase tudo o que há a saber e a questionar sobre o assunto, e muito bem, mas eu ainda tenho muitas dúvidas e questões: os índices de medida do sucesso nas escolas e os famosos rankings mostram apenas resultados finais ou também avaliam o tipo de instrumentos e os processos de avaliação utilizados para chegarem a esses resultados? Se estes fossem avaliados, o país teria de enfrentar a dura realidade da passagem obrigatória de todos os alunos, num “empurra com a barriga” – não importa que não tenham aprendido bem, que não tenham adquirido conhecimentos elementares – note-se, elementares -, que não tenham desenvolvido as capacidades de pensar, analisar, associar, argumentar, calcular, abstrair, raciocinar, memorizar, do sentido critico e as competências mínimas – note-se, mínimas – necessárias para a vida. E perguntam: como é que se passam alunos nessas condições? Os professores têm de usar de muita fantasia e criatividade para produzir os resultados que agradam aos superiores interesses das chefias, numa clara demonstração de que o mais importante em Educação é a fantasia dos números e não a qualidade da formação e preparação dos alunos para a vida e para o mercado de trabalho. A sério? Então pais e alunos andam a ser enganados pelo sistema? Se os pais pagam a Educação a “peso de ouro” e se os filhos/alunos são a prioridade, não deveriam os pais questionar as políticas educativas e os políticos sobre isso e defenderem mais os professores e a Escola pública?
    “Os professores são vítimas, mas também são responsáveis. Por não defenderem outras políticas.”; “Podemos continuar a debater as franjas mais pobres ou podemos perguntar que escola é esta que nos dão. Não deviam ser os professores os primeiros a fazer esta pergunta?”
    Na minha opinião, e de acordo com a minha experiência como aluna durante 17 anos e como professora há 30 anos, não acredito que os professores estejam confortáveis e serenos com a sua situação e com a Educação. O problema é que pouco ou nada se sabe sobre o que os professores pensam ou acham, porque simplesmente não são ouvidos e não são levados muito a sério. Podem até dar-lhes alguma atenção de vez em quando, mas não os ouvem!
    Não nasci em “berço de ouro”, nasci em tempos difíceis, adorei andar na escola pública, adorei e respeitei os meus professores, adorei aprender e a saber aprender, ganhei ferramentas para a vida, e por isso escolhi ser professora. Naquela época, o processo de ensino-aprendizagem era difícil e exigente, mas os professores eram mais felizes e o papel das escolas era valorizado e respeitado. Aprendi que a Educação não é uma missão fácil, que é um processo longo, aturado e muito cansativo do ponto de vista psicológico e emocional, que tem riscos e prejuízos, amarguras e desilusões, mas que também nos faz felizes quando o fazemos por gosto. Aprendi que só é possível haver mais sucesso e alegrias com o empenho de todos os agentes nela envolvidos – pais, família, professores, educadores de infância, psicólogos, assistentes sociais, entre outros. Todos somos vítimas e também responsáveis, todos temos falhas e também sucessos, todos trabalhamos para o bem e o melhor – é verdade que alguns serão mais capazes do que outros, alguns estarão mais motivados do que outros e alguns estarão mais cansados do que outros – mas como somos muitos, acredite que há muitos de nós que lutam todos os dias, em todas as aulas, em todas as reuniões, em todas as ações de formação, em todas as atas das reuniões há “manifestos” de uns quantos mais atentos, preocupados e corajosos o suficiente para questionar, protestar, sugerir, expressar as suas ideias e ainda arriscar “chatices” e arrancar olhares menos simpáticos e empáticos de alguns colegas e das chefias. Fala-se tanto de assédio moral noutros contextos, e muitos não saberão que também há assédio moral nas escolas, que há humilhação e “perseguição” aos professores. Tenho vivenciado algumas experiências e testemunhado outras, umas que acabam em choro e lágrimas, outras que chegam ao burnout e à loucura, e em silêncio, lá vamos cerrando os dentes e enxaguando as lágrimas pelos corredores até às salas, e até casa. Mas ainda assim há quem não se cale e enfrente a “besta”, e persista e insista. Para quê? Para ganhar o quê? Quem nos vai ouvir? Será que alguém importante nos ouviu? Nestes casos incómodos, na melhor das respostas podemos ter “Se não gostas, vai-te embora porque não faltam professores na lista de espera.” ou “Podíamos estar numa situação pior, por isso o melhor é não fazer muitas ondas, porque ainda nos vão pagando.” ou ainda “Não sei do que te queixas, se não estás bem é porque não serves para a profissão.” e “Estás aqui para fazeres como o chefe/a tutela manda, não para discutir as ordens.” Depois, ainda há outras estratégias perversas de desmoralização do professor, como por exemplo, atribuir as “piores” turmas e com alunos problemáticos, turmas com muitos alunos, cargos de Diretor de Turma sempre aos mesmos com a simpática justificação de que tens perfil para o cargo, horários “escangalhados” e sem dia livre (há escolas onde há dia livre, mas nem todos os professores têm “direito” a isso, e no caso de terem, não acontece todos os anos e nunca é à segunda ou à sexta-feira) – ou têm todos ou não tem ninguém. Na pior das situações, o diretor pode avaliar o professor muito abaixo daquilo que foi o seu desempenho, ou chamar o professor ao gabinete para “esclarecer” alguma coisa menos bem compreendida ou ainda para justificar níveis negativos, numa atitude intimidatória e de abuso de poder. Talvez algum dia estes problemas venham a ser alvo de investigação e estudo, e talvez possamos compreender melhor a realidade, melhorando-a.
    Se os diretores, os governantes e muitos políticos fazem campanhas sensacionais e fantasiosas de que a Escola pública está bem e recomenda-se, não se pode dizer que todos os professores acreditam e replicam esse quadro idílico. Isto faz-me lembrar os aplausos e os elogios que os governantes fizeram aos enfermeiros por terem sido os heróis no combate à pandemia, mas os problemas e as lutas dos enfermeiros pelo reconhecimento do seu valor e dos seus direitos ainda continuam….

    • A Paula tem inteira razão no panorama que elabora sobre o ensino em Portugal, fruto evidente da sua longa experiência em lidar com os problemas concretos e não propriamente com a teoria. E por falar nisto lembro-me sempre do velho aforismo: “uma coisa é a teoria, só que na prática…a teoria é outra”. É bem aqui o caso.
      Apenas acrescentaria um detalhe à sua lista das faltas, embora a Paula tenha bem exemplificado. A sua argumentação bem fundada leva-nos inevitavelmente a enfrentarmos a questão mais crucial de todas: o que é realmente “educação” e que educação é que defendemos para os nossos jovens?????
      Certo dia, durante uma acção de formação na FLL ministrada por um famoso catedrático, vejo um humilde trabalhador, jardineiro provavelmente, encostado à janela a escutar embevecido a intervenção erudita do lente, facto que muito me admirou. Eis senão quando e para enorme espanto de todos, o homenzinho atreveu-se a interromper o intrincado discurso, perguntando se podia colocar uma questão. Todos ficámos boquiabertos, pregados ao chão, sem palavras. Tomando esse silêncio hesitante como concordância, aquele trabalhador humilde, perante a assembleia de especialistas, fez a pergunta mais fundamental que alguém pode colocar aos ensinantes: “O que é que se deve ensinar e o que é que se deve aprender ?”
      Foi uma lição que nunca mais esqueci.

  4. Sem nada de novo. Um magnífico post sobre o estado atual da “coisa”.
    E por falar de Newton Duarte,
    “Uma pedagogia que valorize a liberdade dos indivíduos não será aquela que tenha por objetivo formar nos alunos a capacidade de adaptação à realidade local da qual eles fazem parte, mas sim aquela que forme nos alunos a consciência da necessidade de apropriação da riqueza espiritual universal e multifacetada.”

  5. parabens aos estudantes de bem que protestaram em frente ao congresso facista do ventura e do chega contra a celebraçao do 28 de maio inicio da ditadura militar ainda ha estudantes que aprendem bem a liçao de historia pelo menos e nao repetir os erros da historia quero dar nesse blog os parabens ao presidente da aac joao assunçao e de todos os outros que participaram na manifestaçao as pessoas nao se devem esquecer das donas marias eufenias assassinadas a sangue frio por salazar e dos humbertos delgados desse pais

  6. tambem dou os parabens a senhora raquel que fala intelectualmente muito bem e melhor ainda contra o facismo e a normalizaçao barra banalizaçao do facismo alias ta na constituiçao que partidos como o chega nem deviam existir mas pronto fecham os olhos a contituiçao quando lhe da jeito a historia ma de tortura assassinatos e mas condiçoes de progreesso de vida nao se devem repetir infelizmente se a internet nao se tivesse tornado numa oligarquia das celebridades se estudassem melhor a historia do passado infame facista de portugal e machista e catolico contra os direitos das mulheres e das classes sociais mais desprotegidas tudo encoberto pela facismo

  7. e tudo com a conveniencia da falsidade da igreja ou quem nao se lembra do cardeal cerejeira grande amigo de salazar ou do cardeal recheleieu grande amigo do rei frances

  8. Professora Doutora Raquel Varela, acabei de ler as suas publicações no Facebook e venho acrescentar algo de importante (lá há muito ruído, sendo aqui o ambiente mais calmo e havendo mais espaço).
    Venho dizer-lhe uma coisa simples que é fruto da minha experiência como professor de matemática. É que, quando leio o que se escreve sobre educação, sinto sempre que estão a “atirar” ao lado do que é fundamental.
    Dos meus anos de professor, o que eu concluí é que os alunos aprendem entusiasticamente as matérias mais exigentes se, nas aulas, ocorrerem pelo menos estas três condições:
    O professor mostra na aula, pelo seu comportamento e pelas atividades que planeou para aqueles alunos, que sente que a matéria que ensina é absolutamente apaixonante (e até é, o professor só precisa diariamente de tempo para o descobrir, e redescobrir, ano após ano – tempo esse que lhe foi completamente roubado desde o governo Sócrates).
    O aluno gosta da matéria ensinada porque lhe diz qualquer coisa e porque (muito importante!) o desafia pessoalmente para algo que ele prevê não só que o vai divertir, mas também fazê-lo sentir-se melhor, quer dizer, mais autónomo, mais competente e mais conectado com a matéria que está a aprender. Mais uma vez, para conseguir isto, o professor precisa de tempo (que já não tem).
    O aluno sente que o professor gosta dele genuinamente, acredita nele e admira-o, seja nos seus esforços, seja nas suas dúvidas e perguntas, seja na sua evolução, seja nas suas realizações (todos estes aspetos são importantes).
    Satisfeitas estas três condições, os alunos, todos os alunos, adoram as aulas por mais exigentes que sejam, todos estudam (já agora, sem o professor precisar de mandar trabalhos para casa) e, felizmente, a maioria adquire o gosto de o fazer.
    Por outras palavras, o que eu quero dizer, no fundo, é que nestas discussões sobre educação se centra habitualmente a atenção na parte cognitiva da aprendizagem, esquecendo aquela que é a verdadeiramente determinante, aquela que decide de tudo, que é a afetiva.
    A terminar, o meu reconhecimento e um obrigado sincero pela sua luta persistente por uma melhor educação pública, cujo estado tanta mágoa me causa (principalmente por causa dos miúdos cujo presente é triste e cujo futuro está a ser destruído, não tendo nenhuma culpa nisso).

    • Professor, obrigada pelo seu comentário. Estou totalmente de acordo consigo, mas queria esclarecer algo para não confundir a minha opinião, e penso que a sua também, com as interpretações pós-modernas e as pedagogias activas. O senso comum insiste em afirmar que o que falta na sala de aula é brincadeira e eu acho que falta muita brincadeira aos miúdos mas é fora da sala de aula. E que eles só levam a sério as aulas se elas não forem a brincar. Temos que dar aulas sérias se queremos os nossos alunos felizes. E temos que os deixar estar fora das aulas, livres, para brincar, ócio, namorar o que quiserem. Agora “brinca-se” na aula e depois levam com mais 6 horas de sala de estudo para aprender o que não aprenderam na aula a brincar e isso torna-se um massacre em que não têm espaços de trabalho, estudo e livres, tudo se confunde numa amálgama em que estão sempre com uma tarefa à frente. Uma criança sabe quando está a ser “enganada” e um jovem e um adulto também. Esta ideia de que as aulas são a brincar, poucos exigentes, pouco sérias, pela rama, sem os fundamentos do conhecimento, para supostamente descer ao nível médio ou baixo afastou os alunos da escola. A escola só é apaixonante se permitir conquistar o conhecimento. O que lhes devemos dizer é “vamos subir uma montanha”, às vezes vamos cansar-nos, beber água e parar, sentir-nos frustrados até – não é a maioria das vezes, mas acontece. O que fazemos hoje é dizer-lhes que eles podem ficar onde querem, como querem, sem desafios, sem montanhas, sem sonhos, nada é difícil. E por isso nada é real -eles não gostam da escola porque estão ali cada vez mais a passar o tempo em vez de ter instrumentos de emancipação cientifica e cultural – isto tudo claro embrulhado em “mais cidadania”. Como se faz um cidadão ignorante? Estagnam, por isso referi a zona de desenvolvimento próximo de Vigotsky. A Escola não é para ensinar o que o aluno já sabe, insistiu Vigotsky. O essencial da educação não é o afecto de per si, é o afecto pelo conhecimento, que gera afecto entre uma relação (professor-aluno) e através dessa relação com toda a humanidade (nós transmitimos aos alunos o conhecimento produzido pela humanidade, hoje e através dos tempos, isso é apaixonante).
      Uma boa aula tem esse dois ingredientes – grande saber científico, exigência, domínio dos conteúdos pelo professor e gosto pelo alunos, só assim eles gostarão de aprender e sobem a montanha juntos. Não se gosta do que não se conhece, não se luta por ir a lado nenhum – a desnatação do saber cientifico na escola pública levou a que alunos e professores desistissem dessa escola. Se a escola não é para eu aprender e não me dá isso de volta porque estou lá fechado o dia inteiro? Se não é para ensinar o que estou lá a fazer? O debate dos afectos só pode ser feito neste contexto, creio. Hoje temos 78% dos professores em exaustão emocional, mais de 50% em burnout (termo que designa alienação, desrealização, de facto). Não pode haver “brilho nos olhos” nem gosto pelos alunos se não há condições de trabalho, onde à cabeça estão os salários, claro, e carreiras. Mas não só, está também a questão curricular (como ensinar a gostar de um conhecimento que é superficial? que não explica a realidade? a “flexibilidade curricular” esse desastre para adaptar educação ao mercado de trabalho). O queixume recorrente dos professores contra os alunos ( e dos médicos contra os doentes) reflecte o burnout – estão desarmados e sem entusiasmo para lidar com a sua matéria prima – os alunos. A ideia de transformar a sala de aula num jogo, por oposição e uma (caricatura) do ensino tradicional, que seria muito aborrecido, ignora que não se pode separar conteúdo de forma – só conseguimos ensinar bem o que sabemos bem, e só conseguimos que gostem de aprender o que é difícil, exigente e real. Na verdade o slogan da escola pública contra o “Aprender a Aprender” devia ser “Aprender a Sério”. Os currículos nem sempre são, sempre, extensos, ou os programas desajustados – mas são cada vez mais superficiais, as ditas “aprendizagens essenciais”, são aparentes, fogem de ensinar os fundamentos do conhecimento, e isso desmoraliza os professores que são de facto colocados como animadores culturais em vez de docentes, que é o que são. Voltarei ao tema, mais uma vez obrigada pelas palavras. O meu respeito pelos professores do ensino público (e privado), é gigante, é uma profissão encantadora, essencial – por isso acho que temos que assumir, com dor, que as coisas estão muito mal, que não há “brilho nos olhos” que a escola pública (e grande parte da privada) deixou de ser um lugar feliz para alunos e professores, e temos que pensar e fazer escolhas.

      • Professor, posso partilhar o seu testemunho na minha página do Facebook?

      • Bom dia, Professora Doutora Raquel Varela.
        Começo por responder à sua última pergunta: pode perfeitamente partilhar o que achar mais útil do meu comentário (e deste também).

        Muito obrigado pela atenção da sua resposta. Não tenho a certeza se percebi completamente o seu comentário, mas creio que estamos de acordo no essencial em tudo (e, sim, sou um grande admirador e paladino das ideias de Vigostsky). Exceto, talvez, nos dois aspetos seguintes (e desculpe-me se a entendi mal):

        1 – É difícil plasmar em palavras curtas toda uma experiência de anos e de aulas. Por isso eu talvez tenha dado a entender que defendia a aula como um jogo. Não de todo, embora ache que o jogo (este entendido no sentido lato do termo, não de jogos concretos; não, pelo menos no 3º ciclo e secundário de Matemática, que é a minha experiência; penso que será diferente nos 1º e 2º ciclos) é uma das múltiplas componentes de uma aula bem-sucedida, disso não tenho dúvidas nenhumas. Esclareço que falo de bem-sucedida a incluir o sucesso nos exames nacionais (avaliação independente, portanto, do professor em questão).
        Dou um exemplo. Ao iniciar a matéria de Simetria no 3º ciclo, eu punha o seguinte desafio, para ser resolvido individualmente e em pequenos grupos: “Que palavras se podem construir de modo a terem uma simetria vertical?” Um exemplo de resposta é “ovo”, que não só tem um eixo de simetria vertical a meio da palavra, como ela é simétrica de si própria. Ao fazer isto, os alunos ficavam a perceber muitíssimo melhor o conceito de simetria, cuja formalização eu fazia na sequência desta atividade (que não consumia mais do que uns 15 minutos de aula). Escolhi este exemplo porque, na minha vida de professor, sempre foi a atividade mais espetacular de todas: não havia aluno nenhum, mas mesmo nenhum, que não se interessasse e que não se envolvesse (repare, Matemática e Português, os terrores de muitos alunos).

        2 – Com António Damásio pude confirmar uma ideia que já tinha sido desenvolvida anteriormente por outros pensadores: é que a emoção vem primeiro e a consciência vem depois. Quase sempre e, principalmente, nas crianças. Porquê? Porque o seu cérebro está em formação até cerca dos 25 anos. Essa formação começa com as estruturas mais primitivas, ou seja, as que estão mais ligadas às emoções. Principalmente, as que são responsáveis pelas relações sociais porque estas são fundamentais para a sobrevivência da criança nos seus primeiros tempos de vida. Portanto, tudo começa no relacionamento social. O resto vem depois, sobre essas emoções chamemos-lhes sociais.
        Assim, eu acredito que o princípio de uma educação (que inclui a transmissão exigente e rigorosa de conhecimentos) está de facto na relação social afetiva com o professor. Mais uma vez, afeto entendido de uma forma lata, isto é, não de apenas simpatizar com o professor só porque “ele é um tipo fixe”. Embora, também mais uma vez, esta faceta seja uma das componentes importantes, porque é uma das bases para uma relação de confiança mútua, permitindo que o aluno esteja mais aberto e pronto a aceitar e a envolver-se em todas as propostas (conhecimentos e o resto de que falei no comentário que fiz anteriormente) que o professor trouxer para a aula.

        Peço desculpa mais uma vez se esta resposta ao seu comentário é supérflua por ser isto também, no essencial, o que a Professora queria dizer. De qualquer maneira, obrigado por esta oportunidade de refletir sobre estes assuntos. Sempre tendo em vista (e isto para mim é o mais importante) o que é melhor para as crianças, para o seu presente e para o seu futuro, a um nível quer individual, quer social.

  9. Ponho-lhe uma questão muito simples: como se aprende? Para além da aprendizagem por imitação, comum a todos os animais, porque será que uns aprendem espontaneamente, por si, coisas que outros pares da mesma idade não aprendem na mesma altura ou tão bem? E porque será que uns aprendem, ou aprendem mais facilmente, em conjunto com o grupo de pares? Deve-se à falta de “transmissão de conhecimento”? À resolução de conflitos cognitivos por si próprio ou em grupo? E, já agora, gostava que explicasse o que é isso de “transmissão de conhecimento”? Afinal o conhecimento é um constructo individual ou colectivo? Não estará confundindo conhecimento com informação, a forma como o conhecimento individual poderá ser apresentado, exposto, a outros, e mais facilmente pelo professor?
    Desvalorizar assim Piaget, que teve o seu tempo, como o seu Marx, é um tanto mesquinho.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s