O Apartheid dos dois Estados na Palestina

Miguel Sousa Tavares ontem lembrou que Israel ocupa territórios ilegalmente, até contra as resoluções da ONU; que a guerra actual começou quando judeus queriam forçar palestinianos a sair das suas casas, que era o mesmo que mouros da Mauritania virem para Portugal agora, nos expulsarem, porque estiveram cá há centenas de anos; que não se comparam os Rockets do Hamas com o poder militar israelita; e que o que Israel está a fazer, parece “que enlouqueceu”, em algumas zonas se compara a “uma solução final”, de extermínio e limpeza dos seus inimigos.

Confesso que voltei atrás para ouvir novamente. Não gosto em geral do tom dos seus comentários, e a única vez que polemizou comigo a propósito do Estado de emergência foi de uma atroz arrogância – não queria debater. É preciso porém reconhecer que o seu comentário ontem foi corajoso e preciso. Os quatro pontos que escreveu são exactos. Falta dizer algo – quando o historiador Israelita Ilan Pape escreveu A Limpeza Étnica da Palestina – Pappé é dos mais sérios e notáveis historiadores que li, é director do Centro de Estudos Palestinianos da Universidade de Exter – e, junto com, por exemplo, Edward Said, afirmaram que era impossível a solução de dois Estados. Grande parte do mundo afirmava então e apoiou a solução dizendo quer era a possível. Empurrando e aumentando, como se vê hoje, o problema.

O que aconteceu desde então? Israel destruiu a possibilidade da existência de um Estado Palestiniano, com ocupações, expulsões e guerras; os judeus de esquerda e/ou democratas que puderem fugiram do território para Nova Iorque e afins; para Israel, dispostos a ser colonos que expulsam outros, foram casa vez mais judeus empobrecidos da ex URSS, que aderiram de malas e bagagens à extrema-direita que está hoje no poder com esse apoio – o seu método, expulsão e perseguição tornou-se a única forma de sobrevivência; o Hamas ganhou apoio porque a OLP apoiou a solução dois Estados – e, sim, não se comparam Rockets com mísseis, mas ter o Hamas, um Partido Religião, como direcção não é a melhor sorte dos palestinianos. E de facto hoje existe só um Estado onde estão todos a conviver mas uns com direitos, outros sem direitos, ou seja, um apartheid. Nunca fui especialista em história do Médio Oriente, li Pappé, Said, e outros, há décadas que escreveram que o que se está a passar ia passar-se – não é possível insistir em soluções que não o são. A única solução para aquele território é um único Estado laico, bi nacional, com direitos iguais para todos os povos. E isso só vai ser feito quando os EUA deixarem de financiar a solução actual. Ou quando os movimentos sociais norte-americanos, talvez na forma revolucionária, o consigam impor.

Sobre os colonos israelitas que “fazem o que fazem para sobreviver”, os portugueses deviam reflectir melhor, porque também convivem mal com o seu passado “retornado”, cheios de equívocos e mitos. A descolonização não correu mal a Portugal, o que correu mal foi a colonização. Não se pode invadir a casa de outrem e ser parte da solução. Sair de um lugar bem onde se entrou mal. Pappé foi professor muitos anos em Israel, saiu para Inglaterra, como milhares, milhares deles manifestam-se hoje no mundo contra a ocupação da Palestina e a abjecta utilização por parte de Israel do Holocausto como desculpa para a limpeza étnica em curso. Não podemos ser quem somos num lugar onde não nos deixam ser. Não há colonizações boas. Só um Estado único com direitos iguais para judeus e palestinianos poderá trazer a paz ao território. A manter-se esta solução a limpeza étnica vai prosseguir, o apartheid manter-se e o mundo assistir horrorizado à barbárie.

A página do historiador Ilan Pappé está em acesso livre no Facebook https://www.facebook.com/ilan.pappe

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