O Assédio do Lucro

Estudo casos de assédio no trabalho, que em inquéritos específicos chegam aos milhares. Da professora que fez greve e lhe são sempre dados os piores horários, olhares de lado na sala de professores, ostracismo; do jornalista que contestou os cortes salariais da Troika e, sabendo a gestora de recursos humanos que ele tinha outro trabalho à noite legal e essencial e tinha uma filha pequena, o colocaram no horário das 6 da manhã e lhe passaram a dar trabalhos humilhantes, sem interesse algum; do operário que ficou paulatinamente sem parte do salário, colocado sem turnos extra e deixou de conseguir pagar a casa, que perdeu – a responsável da chefia era uma mulher; do operário que se queimou gravemente e a gestora o chamou e lhe disse “não me apareça cá mais com outra destas”, “o que fez de errado?”, “Isto vai dar pontos negativos na avaliação…”.
No Observatório para as Condições de Vida e Trabalho estudamos milhares de trabalhadores. O assédio moral está disseminado nos locais de trabalho – durante anos a “luta de classes” dava-se por greves e confrontos; ou por pacto social (negociação colectiva), agora, sem greves e sem pactos, com a gestão por qualidade, avaliação de desempenho, e afunilamento das carreiras a selva chegou aos locais de trabalho. Se no assédio sexual, a vítima é a mulher, no assédio moral não há qualquer distinção, e isto que vos digo são estudos científicos – quando elas chegam ao lugar de Poder, as práticas são as mesmas. Quero ainda referir, e será rapidamente, que são os manuais de gestão de recursos humanos que ensinam – leram bem, ensinam – estas práticas, conhecer a vida dos trabalhadores e perceber como os podem acossar, fazer chantagem, nos manuais surge como flexibilidade de gestão de recursos. Em França chegou a haver um curso de gestores em que eles tinham que matar um gato fofinho para provar que eram bons a gerir despedimentos e cortes de salários. Nos nossos inquéritos o assédio sexual está entre 1 a 2%, o assédio moral entre 10 a 60%. Isso não desvaloriza em nada o assédio sexual – devia ser 0%. Mas demonstra que muito para além do sexo, e das denúncias públicas que fazem a agenda informativa, há uma questão produtiva central, que não origina debates na sociedade, que é o assédio moral no trabalho. Está em todo o lado.
Perguntam-me o que fazer? Acabar com o Poder para haver democracia nos locais de trabalho. O hábito faz o monge. As chefias que não assediam saem frequentemente dos lugares (tb conheço, casos de chefias que se recusaram a praticar assédio e foram ela mesmo penalizadas, isto na função pública), é preciso democratizar os locais de trabalho, ouvir quem trabalhar, eleger chefias e direcções, confiar nos trabalhadores dando-lhes boas condições laborais, acabar com os mecanismo de competição férrea como a avaliação individual de desempenho. É preciso lutarem, juntos, homens e mulheres, contra um poder descontrolado que gere as empresas no período neoliberal, e que é mais exercido por homens, mas quando é exercido por mulheres demonstra a mesma desumanidade – o lucro acima das vidas.
Sem isso podem lá colocar uma mulher ou homem que o destino vai ser o mesmo, com as mulheres nas chefias deixa de haver o que resta de assédio sexual, e isso é um progresso evidente, mas não passa a haver mais igualdade, porque a desigualdade essencial hoje na sociedade não é entre homens e mulheres, mas entre quem manda e quem obedece nos locais de trabalho.

6 thoughts on “O Assédio do Lucro

  1. Passa mesmo por aí, pela promoção de um debate sério e interessado sobre a verdadeira pandemia que é o assédio moral nos locais de trabalho. Passa também pela mudança de mentalidades de um povo escravo do trabalho e de uma obediência cega a dogmas de liderança. São incontáveis as vezes que ainda hoje ouço dizer sobre determinada pessoa “ela tinha jeito para chefe”. Quando pergunto porquê percebo que a justificação é um ridículo “tem jeito para se impor, para mandar, as pessoas têm-lhe respeito (confundido muitas vezes com medo)”. Trocam-se defeitos por qualidades, incompetência por competência, autoritarismo por liderança, agressividade por assertividade e assim continuamos rumo à evolução sei lá de quê… Mais uma vez parabéns pelo seu trabalho e por dar voz a tanta gente, aos que têm consciência do quanto são marionetas das mais diversas formas de poder e também aos que, infelizmente, nem essa consciência têm.

  2. É esse o retrato objectivo do capitalismo selvagem a explorar ao mais baixo nível todas as hipóteses de extrair ainda mais valor, de esmifrar sempre mais e de virar as pessoas todas umas contra as outras. Ou acabamos com ele ou ela acaba connosco.

  3. O Feminismo exige uma quota da barbárie. É perigosa a ideia de que as mulheres com a sua maravilhosa sensibilidade vão salvar o mundo. É perigosa a ideia de que as mulheres são especiais. É perigosa a ideia de que as mulheres têm o direito aos erros dos homens. Os homens, esses…coitados, transportam a culpa de ser dominantes quando na verdade sempre foram dominados. É digno ser mártir, é também corajoso, mas não há nada que justifique a vida de alguém.

    • Sr. Anónimo, a Dr.ª Raquel não julgou nem condenou nenhum dos géneros – feminino e masculino. Ela não escreveu sobre o feminismo ou sobre feministas, nem tão pouco sobre o masculino e a masculinidade, e o matriarcado vs patriarcado. A Dr.ª Raquel realçou, e bem, que o assédio não é exclusivo de homens ou de mulheres. Tanto homens como mulheres são responsáveis e vitimas de assédio, sobretudo do assédio moral, sendo que neste também cabe o assédio sexual, embora este seja praticado maioritariamente pelos homens contra as mulheres. Depois, não se trata de dividir homens e mulheres e colocá-los uns contra os outros, pelo contrário, ambos devem unir-se e lutar pelos mesmo direitos, e cito “(…) É preciso lutarem, juntos, homens e mulheres, contra um poder descontrolado que gere as empresas no período neoliberal, e que é mais exercido por homens, mas quando é exercido por mulheres demonstra a mesma desumanidade – o lucro acima das vidas. (…)”.
      De resto, mesmo que a Dr.ª Raquel o quisesse fazer, não seria pelo motivo que a fez escrever este texto, “Assédio do Lucro”, pela simples razão que a luta pelo lucro também não é exclusiva de homens ou de mulheres.
      Tratando-se de um assunto tão complexo e abrangente quanto determinante para a mudança de paradigmas e de mentalidades, com repercussões muito importantes e sérias na sociedade, no trabalho, na política, etc., a partir do século XIX, o Feminismo – conjunto de movimentos políticos, sociais, ideológicos, filosóficos e culturais, envolvendo vários movimentos, várias teorias e filosofias, que foram evoluindo ao longo do séculos XIX e XX, passando por várias “ondas” e assumindo várias formas e características, na Europa, nos EUA e em muitos outros países do mundo – não poderia ser tratado apenas neste espaço, nem tão pouco resumido como se pudesse ser reduzido a umas simples frases de “lugares comuns”. Já agora, o Feminismo não foi uma guerra nem se aproximou de uma qualquer ameaça perigosa, muito pelo contrário. A filósofa francesa, Simone de Beauvoir, costuma ser uma das excelentes referências sobre o Feminismo, na sua publicação de Le Deuxième Sexe (O Segundo Sexo), em 1949. Ser homem ou mulher não é uma questão do sexo com que se nasce; ser homem ou mulher é um processo que se faz, que se constrói, sem sexismos – “não se nasce uma mulher, torna-se uma” (Jean-Paul Sartre, Existencialismo).

      • Tem toda a razão a Raquel não escreveu sobre o feminismo. Está explicito no que escrevi que tanto os homens como as mulheres estão juntos no que diz respeito à incapacidade de lidarem com as suas idiossincrasias. Não faço ideia o que a fez pensar que não considero as determinantes sociais como elementos caracterizadores de género. E não concordo consigo, os assuntos densos, complexos e sérios não são para ser tratados pelas elites, como advoga.

  4. Acrescento que todos ou quase todos os movimentos feministas partem do princípio errado de que a história faz-se apenas com mulheres, nunca com homens e menos ainda de mulheres e homens em colaboração, cooperação e entreajuda. Porque será???

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