A Delação e o Assédio

Li o relato de uma jornalista, porque o Público de forma inexplicável o anunciou, de um alegado caso de “assédio”, contra editor. E de uma acusação de violência doméstica contra um deputado do BE, que não conheço, e que já retirou a sua candidatura – já foi julgado na praça pública. A sociedade outorgou-lhes o princípio da presunção de inocência, e isso é basilar.

A justiça quando não funciona não pode ser substituída pela presunção da culpa, sem julgamento. Fruto da ignorância democrática, muitos pensam que o princípio da presunção de inocência quer dizer que são inocentes ou culpados. Não. O que este princípio diz é que a pessoa acusada é inocente, e nós temos obrigação ética de defender a sua inocência. E quem acusou é que tem o ónus da prova. Estes dois princípios são basilares da nossa sociedade e não foram inventados pela sociedade patriarcal para defender os homens da acusação de assédio sexual. São dois valores humanistas que afirmam é melhor ter um criminoso ilibado do que um inocente culpado.

Os tribunais não conseguem dar reposta aos casos de assédio sexual, e muito menos aos de assédio moral que é, segundo todos os estudos (sublinho todos), muito mais comum do que o sexual. O assédio moral tornou-se banal, a forma normal de gerir empresas e fábricas, já que não há nem greves nem concentração social. O preço da força de trabalho é regulado pelo assédio moral. E o assédio moral é cometido de homens e de mulheres contra homens e mulheres – é lerem os relatos dos estudos para ver a galeria de horrores que os trabalhadores dos dois sexos sofrem na mão des gestores e chefias dos dois sexos.Muito havia a debater -e há – sobre todos os casos relatados.

Destaco além destes – centrais (ónus da prova e presunção de inocência), um dos relatos que afirma que o alegado assediador é “casado”. É demonstrativo do puritanismo e ultra conservadorismo do Metoo – não por acaso a imprensa de direita tem sido palco de delação, bufaria e devassa da vida privada, valor supremo, a quem chamam “direitos das mulheres”.. O adultério não é crime e as mulheres fizeram o 25 de Abril e, antes, o Maio de 68 para, entre outros direitos, terem amantes sem ser assassinadas, atenuante que estava antes na lei. Não quer isto dizer que as mulheres devam ou não ter amantes, mas que nós não valoramos moralmente aquilo que são decisões do âmbito da privacidade de cada um. É irrelevantes para quem quer denunciar um caso de assédio. Importante para quem promove nas redes sociais – e sim, o Público nunca poderia ter dado palco a tal relato, o assassinato de carácter, que se tornou vulgar nas redes sociais. No desejo de procurar cliques o jornalismo cria mais problemas para si próprio, já que estes casos ajudam a desacreditar os casos de assédio sexual que existem e são gravíssimos, ajudam a desacreditar o jornalismo.

E, repito, os tribunais não conseguem na maior parte das vezes dar resposta. E então, a resposta é a justiça bíblica? Acabou a democracia?Finalmente, ouvi a comentadora conservadora Helena Ferro Gouveia explicar-nos que quando um homem diz “és bonita” é galanteio, quando diz “tens umas pernas bonitas” é assédio. O que diria Kollontai, Simone Beauvoir e Natália Correia deste novo índex das palavras abençoadas com água benta, que retiram qualquer capacidade à mulher de decidir livremente o que pode e não pode escutar de um homem? Ela explica-nos, como se tivéssemos 5 anos: as mulheres sofrem assédio e não sabem. Somos todos estúpidas, vítimas da nossa estupidez…Por fim, as relações assim serão o quê? Marcadas numa aplicação, com menu de palavras autorizadas, e contrato assinado? Sim, uma mulher consegue distinguir um galanteio, um piropo, uma sedução falhada, de assédio, não precisamos de Ferro Gouveia a ensinar-nos.

A violência contra as mulheres no mundo, sobretudo pobre, é brutal; o assédio sexual é bárbaro, tudo isto é demasiado sério para ficar nas mãos de uma vendeta que se auto denomina representante das mulheres. Não me representam.Trabalho com trabalhadores, em estudos com milhões de dados onde está também o assédio sexual e moral, e as questões de género – estudamos 12 sectores portugueses, só de docentes temos 2 milhões de dados – há muitas opiniões no meio científico sobre o que é ou não assédio, não há uma discussão fechada sobre isto; vivo num meio intelectual onde conheço dezenas de mulheres que não se revêm nestes métodos; e conheço várias correntes feministas, distintas umas das outras, que não se reconhecem nestas delações. Por isso os debates sobre o tema não têm sido debates. Mais uma vez falhamos em abrir o contraditório e perceber que em democracia o debate só existe quando existe contraditório, e que só assim há democracia.

Finalmente lamento o silêncio de tantos homens sobre este tema, que aterrorizados que a inquisição caia sobre eles, deixaram de opinar publicamente sobre o nova moral e os costumes puritanos, como se não tivessem “lugar de fala” – nem o assédio sexual real, nem as acusações na praça pública são um assunto de mulheres, mas de todos nós. O Metoo desacredita as mulheres, desacredita o assédio sexual, e contribui para a desconfiança generalizada na sociedade, que fica sujeita a um clima de terror. É mais um passo em frente na já longa desagregação social e democrática.

6 thoughts on “A Delação e o Assédio

  1. Mais uma vez, a Raquel tem inteira razão e claro que os homens devem ter uma palavra a dizer nestes conflitos em parte artificialmente empolados.
    Há anos presenciei uma cena particularmente elucidativa e esclarecedora. Na praia dos pescadores, estes e as suas mulheres entregavam-se ao trabalho moroso de desembaraçar as linhas de pesca após a faina.
    Então passa ali uma nórdica particularmente linda, vestindo um bikini ultra-reduzido e um pescador atira-lhe alto e bom som, para todos ouvirem: “Eu a esta varava-a de lado a lado”…
    A mulher dele que estava perto, ouviu e disparou de imediato: “Cala-te oh aldrabão! Tu alguma vez tinhas tesão para aquilo??!!”
    O homem corou muito, calou-se, baixou a cabeça e se ali houvesse um buraco, ele tinha-se lá enfiado todo.
    Moral da história: quando a mulher reage em força a um assédio e consegue virar o discurso do macho contra ele próprio, este cala-se e sai de cena, de rabinho entre as pernas.
    Mas há mais. Este macho queria fazer passar a ideia de que seria particularmente potente, coisa que a mulher desmentiu e desmontou prontamente.
    De facto, os homens e mulheres que pretendem demonstrar uma capacidade sexual mais pujante, como este, são precisamente os e as que a não têm. Quem realmente a tem, não precisa de o demonstrar publicamente. Pelo contrário, todas as mulheres que conheci e que tinham essa real capacidade, eram pessoas extremamente discretas, procurando passar despercebidas. Não precisavam demonstrar nada a ninguém nem a si próprias. As pessoas que têm tanta necessidade de demonstrar, é porque lhes falta qualquer coisa que tentam compensar dessa maneira.

  2. Como marxista que sou, ao longo dos anos tenho mantido sempre a minha posição, sobre tudo o que nos rodeia, tenho defendido a igualdade de direitos para as mulheres, enquanto considero que a opressão das mulheres (assim como a opressão racial, sexual, ou qualquer outra) não pode ser erradicada sem antes derrubar o sistema social capitalista que muitos de vós alimentam e mantém, a libertação da mulher está ligada à luta contra o capitalismo porque, em última análise, a opressão sexual serve aos interesses materiais da classe dominante….
    Espero ter dado uma ajuda ao debate (isto será sempre um debate ideológico), e já agora, aproveitem e leiam: Marx. “A Sagrada Família”….
    Por Fim:
    Defenderei sempre, o fim de todas as formas de violência contra as mulheres, o assédio sexual no trabalho e o fim da violência doméstica!

  3. Boa tarde Raquel, Tenho umas quantas dúvidas:
    1. Não sei bem a que caso se refere, publicado no Público;
    2 Não sei qual é a relação do Metoo com as mulheres de direita;
    3. Nem sei qual a relação das feministas da 3ª vaga com as mulheres de direita;
    4. Aliás, o conceito de “mulheres” de direita tem normalmente um abrangência enorme extravasando a dita direita, digamos, por conveniência “ideológica” das mulheres e homens de esquerda.
    Os conceitos de liberdade, igualdade, fraternidade ou equidade costumam ser, mais uma vez, por conveniência ideológica, associados à esquerda, pelas pessoas de esquerda mas, de facto, e como bem sabe, não têm nada a ver com esquerdas ou direitas.
    Habitualmente, tento o mais possível manter-me afastada da maior parte dos “ismos” sociais e político-ideológicos que, na generalidade, estão associados a um outro “ismo”, o fundamentalismo.
    Gosto de democracia, liberdade, igualdade de direitos e deveres, humanismo, humanitarismo, liberalismo, integridade e, de forma particular, de livres pensadores.
    Pelo que, naquilo que concordamos é na histeria à volta do assédio sexual, a qual banaliza o próprio assédio, desacredita as mulheres e que me envergonha, enquanto mulher, ou nas delações em que não se apresentam provas concretas, por vezes é difícil tê-las. mas quando se afirma tê-las é obrigatório apresentá-las quando se denigre o nome de alguém.
    Acerca de Assédio escrevi recentemente o seguinte:

    ASSÉDIO

    O movimento Me Too e as feministas da terceira onda deram uma nova relevância e até um novo significado a esta expressão.
    Se, por um lado, isso é bom, porque desperta a sociedade, da sua habitual letargia, para um problema grave que atormenta ou já atormentou variadíssimas mulheres, por outro, pode desvalorizar a gravidade do verdadeiro assédio, em virtude da tomada de posições radicais ou ao dar voz a quem apenas quer protagonismo, adotando a postura de vítima, quando, de facto, nunca o foi
    Existem vários tipos de Assédio mas qualquer deles é sempre, também, #psicológico e #moral.
    Neste caso, falamos concretamente de Assédio #Sexual.
    Seria bom que as autoproclamadas Feministas (da terceira onda) tivessem a noção de quão doloroso, grave, penalizador, traumático e até como pode condicionar a vida, da vítima de assédio, não só na altura em que este ocorre mas também num futuro próximo ou longínquo.
    Se, efetivamente, tivessem isso em conta não tornariam o Assédio em algo irrelevante, ridículo ou banal, nele incluindo coisas como piropos ou galanteios, olhares ou conversas sedutoras, um pouco atrevidas ou insinuantes, nem mesmo as obscenidades escarradas por “trolhas”, pois ninguém se sente em perigo, encurralada ou verdadeiramente humilhada, em qualquer uma dessas situações e embora algumas delas possam ser sentidas como desagradáveis, outras até podem fazer com que a visada se sinta divertida ou lisonjeada,
    Em qualquer dos casos, ninguém se sente em perigo, nem fica traumatizada com essas situações.
    Duvido que existam muitas mulheres, em Portugal ou no mundo, que se possam gabar de nunca terem sido assediadas. Infelizmente, o Assédio ocorre com extrema frequência e envolve sempre jogos psicológicos de manipulação e poder.
    O Assediador é sempre um manipulador e, ao contrario do violador, não pretende tomar ninguém pela força, mas, sim, subjugar, atormentar, confundir e exercer o seu, real ou suposto, poder sobre a vítima de assédio.
    É uma espécie de jogo em que o assediador se diverte a encurralar a sua “presa”, sentindo-se poderoso e inteligente, o que lhe dá grande prazer.
    É exatamente por esse motivo que é tão difícil provar o assédio, tão ou mais difícil do que desmantelar um boato.
    No geral, o manipulador / assediador não deixa provas, nem grande rasto e é quase sempre vingativo, se não conseguir obter o que deseja.
    Ao tentarmos expor um assediador, particularmente se o fizermos individualmente, corremos sempre riscos, diferentes tipos de riscos, em função das características da situação em causa.
    Assim:
    – É frequente que a vítima de assédio seja ridicularizada, principalmente em contextos profissionais ou similares, acusando-a de coisas como “ter a mania da perseguição”, “ser histérica ou não ter sentido de humor”, “querer vingar-se por o chefe ou patrão não lhe ter dado o que ela queria, embora ela fosse uma “oferecida”;
    – Em variados contextos, incluindo o profissional, é frequente haver uma inversão, transformando a vítima em assediadora, Todos, na verdade, já tivemos ocasião de ouvir, a propósito de algumas pessoas, coisas como “O que é que ela estava à espera? Andava ali a abanar o rabo ou a mostrar as mamas”, “Estava mesmo a pedi-las”, “tem a mania que é boa mas desta vez deu-se mal”.
    De notar que muitas destas coisas são ditas pelos homens mas talvez ainda com mais frequência por mulheres, principalmente se a visada for bonita ou vistosa, inteligente ou se tiver sucesso profissional ou outro;
    – Em meios mais restritos, familiares ou de amigos, as questões que se levantam são, de certa forma, bem mais graves, pois uma denúncia de assédio pode destruir uma família ou grupo, ficando sempre a vítima numa posição extremamente ingrata, porque, no fundo, muitas vezes, culpam-na pela situação, acusam-na de estar a ver coisas onde elas não existem, de não ter em consideração o sofrimento que está a causar numa família, num grupo ou em determinada pessoa.

    A vítima de assédio, frequentemente, cala-se, exatamente por ter consciência de todos os problemas que terá que enfrentar, caso denuncie a situação.
    Desde perder o emprego ou a ascensão profissional prevista, até criar conflitos familiares, ser olhada de lado, criticada ou marginalizada, quer seja na família, no grupo de amigos, no trabalho ou em qualquer outra situação, passando pelas humilhações ou ridicularizações que lhe possam infligir quer o próprio assediador, quer o grupo ou comunidade em que ocorre a situação.
    Recentemente, a atriz Sofia Arruda, à semelhança de muitas outras atrizes e mulheres ligadas à televisão, revelou ter sido vítima de assédio, por alguém com poder que fez chantagem com ela, dizendo que ou ela se envolvia sexualmente com ele/ela?, ou não seria escolhida para desempenhar determinado papel.” Ela recusou e de facto não ficou com o trabalho.
    Contudo, esta situação gerou algumas critica, tomadas de posição e picardias, entre comunicadores e entre o público que comenta nas redes sociais, em virtude da atriz não ter identificado o Assediador.
    Se, por um lado, posso compreender, muito bem, os motivos pelos quais não identificou o assediador, já tenho alguma dificuldade em aceitar que tenha identificado o local em que isso aconteceu.
    Ao fazê-lo, está a pôr em xeque diversas pessoas que trabalham nessa área, pois, afinal, não são assim tantas e, neste momento, naquele meio e perante o público, todas estão sob suspeita.

    É de extraordinária importância sensibilizar e indignar a sociedade com este crime de Assédio que, desde há muito, prejudica, atormenta, faz viver no medo, conduz à perda do trabalho ou à sujeição das mulheres, a estes trastes, quando dessa perda resultem graves consequências na vida da vítima e/ou dos seus familiares, lhes rouba a alegria, a autoconfiança, o respeito por si próprias e até a dignidade.

    Mas é igualmente importante que não se lancem suspeitas sobre pessoas que nunca foram assediadoras.

    Tal como é fundamental que estas graves situações não sejam minimizadas ou ridicularizadas, por posturas extremistas, descabidas e, sim, histéricas, com outro tipo de acontecimentos sem qualquer gravidade ou expressão.


    Ainda mais recentemente, a Leonor Poeiras identificou o suposto assediador, dizendo ter provas, incluindo escritas, contra ele.
    No entanto, não partilhou as referidas provas, nem agora que o crime já prescreveu, nem, há cinco anos, usou essas provas para denunciar o assediador .a quem de direito.
    Provas claras e indesmentíveis de assédio. é aquilo que qualquer vítima de assédio, seja de que tipo for, mais desejaria ter para poder, aí sim, denunciar às entidades competentes essa assediador e caso a situação não fosse levada a sério pela justiça, partilhar então publicamente essas provas.
    Pelo que fico sempre de pé atrás quando além identifica um assediador, diz ter provas desse assédio mas não as mostra a ninguém, nem as usa para denunciar o assediador, em tempo útil. Cheira a esturro ou a vingança.

    • Em toda esta polémica sobre o assédio falta um aspecto relevante. Ninguém fala no assédio fingido ou pseudo-assédio. Falo dos casos, e não são assim tão poucos, sobretudo mulheres que inventam assédio que nunca existiu só para prejudicar ou para se vingar de alguém. Como se compreende, é muito difícil ao acusado provar que tal coisa é apenas fruto da imaginação de certa mente doentia. Isso cria situações verdadeiramente complicadas e, em certos casos, inultrapassáveis, podendo destruir a vida social e profissional dos visados.
      Estranho que ninguém comente este lado negro do assédio.
      Porque será?????

      • joseoliveira, essa situação penso que se encontra referida no meu comentário, de forma clara.

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