A Índia em Odemira

Agora que Portugal descobriu Odemira talvez se perceba a fantasia que é defender confinamentos no Brasil ou na Índia (idem em Portugal, da Amadora a Odemira, pela sobrepopulação por m2 nas casas). Em Nova Deli há 20 milhões de pessoas, 4 milhões vivem na rua, e a outra grande maioria vive numa espécie de “casas” à razão de 20 a dormir juntos. Não há onde alojar os trabalhadores em Odemira, imaginem no Brasil ou na Índia. Também – deixando de lado a pala opaca do eurocentrismo – já devia ter ficado claro que, para esta camada de trabalhadores, a viver em condições de escravatura, o Covid deve ser a centésima causa de morte, e é por isso a centésima das suas preocupações, depois do frio, da fome, da tristeza e da humilhação, de que morrem todos os dias, e de dezenas de doenças muito mais graves originadas pela pobreza e a falta de vontade de viver uma vida que não é. Vejam a este propósito o filme o Tigre Branco – foi a primeira vez que vi um filme que mostrou o que vi na Índia, onde, há 4 anos, passei por várias pessoas em Nova Deli e fiquei tão mal, em silêncio, e o meu colega e historiador BP comentou comigo “acho que algumas destas pessoas que estavam no chão estarão mortas hoje ao fim do dia”. Era uma rua, no mercado velho, com milhares de pessoas que davam encontrões, entre si, e pisavam os milhares que estavam deitados pelo chão. Vi uma menina, quando ia a caminho do aeroporto e o táxi parou numa fila muito tempo, a levantar-se do chão onde dormia, fazer necessidades à minha frente, passar água em alguma parte do corpo, vestir o uniforme e seguir para a escola. Que dor, que mundo insuportável. Uma colega minha, que luta nas montanhas da Índia contra o feminicídio, indiana, premiada de uma ONG, disse-me quando esteve aqui em casa, depois dessa viagem que fiz, e lhe contei os meus sentimentos sobre a Índia, “estou na Alemanha (estava com o marido em viagem) e visitei os campos de concentração, e o que vejo ali no Museu não é muito diferente do que vejo hoje em algumas partes da Índia, as condições de vida, fome e sofrimento”. Como contar-lhe, a ela, que aqui se vêem notícias que falam da necessidade de um confinamento na Índia…É tudo arburdo, mas é um absurdo que só o eurocentrismo e a falta de noção das classes médias podem explicar.
Um pouco mais de empatia com as classes trabalhadoras, e um pedacinho menos de eurocentrismo, e compreenderíamos que só uma coisa podia ter salvo vidas (aqui e na Índia) – a requisição unilateral e sob comando único dos serviços e insumos de saúde no mundo. Mas isso seria ir contra os governos em vez de os apoiar nos confinamentos. Vejamos, não é que há um negócio que floresceu na área da saúde durante a pandemia, há vários – vários que ficaram, nessa área, milionários. Sim, entrámos e saíamos da pandemia sem um único negócio essencial à saúde pública ter sido requisitado, nacionalizado ou expropriado, enquanto milhões de pessoas foram expropriadas do seu emprego e por isso da sua vida, com os confinamentos. Os negócios não foram só em torno dos medicamentos, dos testes, das vacinas, nada disto é ou foi público neste período, em que a milhões se pediu para perder o emprego e “sacrificar-se pela saúde pública”. O negócio chegou a algo tão elementar como o oxigénio é produzido por 3 empresas à escala mundial, que se recusaram e recusam quase sempre a utilizar a capacidade instalada para desviar a produção de ar de utilização massiva nas indústrias e diversas fábricas – que nunca pararam – para hospitais. Portugal não precisa de dar oxigénio à Índia porque…a Índia é o maior produtor mundial de tal coisa! E também o é de vacinas. Só que na Índia não há casas, não há hospitais e o oxigénio para as fábricas nunca parou de ser produzido. Na índia perdem-se por ano dos pais 80 mil crianças. Em que mundo vivem parte dos europeus, das classes médias no sul global? Em que momento acharam que o COVID era o drama de pessoas que não têm nada? Segundo uma reportagem do Izquierda Diario argentino há 3 corporações que controlam 90% da produção de oxigénio no mundo – Air Liquide (francesa, opera em 80 países), Air Products (norte-americana, em mais de 50 países) e Linde (em mais de 100 países). Esta última juntou-se com a Praxair en 2018, una empresa dos EUA. No total facturaram U$S 61.500 milhões.
Bem vindos ao mundo real. Ou o mudamos realmente ou confiamos que os governos confinem as pessoas para elas não verem a realidade do mundo que não mudámos. Dando, assim, ao Estado poder para impor limites à liberdade e criando um clima, contagiante, de denúncia pública dos que carregam o vírus, a peste, por estarem vivos, enquanto lhes gritamos “Porque não te confinas tu, que vives na rua?”.

9 thoughts on “A Índia em Odemira

  1. Estudou em Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; texto de Lourdes Cerol Bandeira de 2 de maio às 21:55
    “Por favor não se deixem impressionar pelas notícias em relação à Índia!
    A Índia tem cerca de um bilião e quatrocentos milhões de habitantes! Só Bombaim tem mais habitantes que todo o nosso país 12.500.000 aproximadamente.
    Morrem por dia cerca de 28.000 pessoas! Mesmo assim têm uma taxa de mortalidade (mortes/1.000 habitantes) muito inferior à nossa! 7,3 para cerca de 11 em Portugal!!! Porém a mortalidade infantil é cerca de 34 bebés por cada 1.000 nascimentos!
    No que diz respeito à cov. têm no global 157 mortes/1.000.000 enquanto nós temos 1.669!!! Tem uma das mais baixas taxas de mortalidade Cov do mundo!
    Só o facto de mencionarem nos noticiários o Nº total diário de mortos Cov. sem o relacionar com a população é completamente idiota e destina-se a afligir o nosso povo, sobretudo os que têm pouca escolaridade.
    Normalmente eles precisam de ajuda sanitária e não é especialmente pela Cov. é porque é um país na sua generalidade muito pobre e a assistência médica é deficitária (cerca de 60 médicos para cada 100.000 pessoas).
    Mesmo assim a taxa de mortalidade ronda os 7,4 por 1.000 habitantes enquanto em Portugal ultrapassa os 10 e se aproxima dos 11”!
    Retirado https://www.facebook.com/lourdes.cerolbandeira

  2. “…e os homens então pôem-se a salvo nas suas casinhas, acomodam-se como num ninho e dominam o mundo inteiro à sua maneira! Pobre louco, que tudo respeitas tão pouco por tão insignificante seres!” – Johan Wolfgang von Goethe.

  3. Sim, nas questões mais sérias e dramáticas da vida também é importante adotarmos uma perspetiva mais distanciada e estranhada das coisas justamente para podermos analisá-las com mais objetividade e espirito critico, e menos emotividade ou empatia.
    A propósito do aproveitamento da miséria alheia em tempos de fome, de guerra, de pandemia, de perseguição religiosa, de desemprego, e de tantos outros infortúnios e males em que vivem tantos milhões de pessoas no mundo, lembro-me sempre da peça de teatro épico que estudei na universidade, no âmbito do estudo da Língua, Literatura e Cultura Alemã. Trata-se de Mutter Courage und ihre Kinder (Mãe Coragem e os seus três filhos), escrita em 1939 pelo poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (com o contributo da sua amante, Margarete Steffin). Embora a história não se situe na sua época (de acordo com os princípios Brechtianos do drama político), mas antes na época da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), Brecht escreveu esta peça (uma de nove) na tentativa de alertar a população mundial para impedirem o avanço do Nazismo e do Fascismo na Europa. A peça é um instrumento que procura incentivar o espirito critico, gerar dúvidas, reflexões e a objetividade das pessoas para as guerras e as suas consequências, assim como alertar para os vícios e a falta de virtudes de muitos grupos sociais, incluindo a Igreja, que via a guerra como uma especial, porque era santa, em defesa da Fé, o que certamente agradava a Deus!
    Em poucas palavras, “Mutter Courage/Mãe Coragem” é o apelido dado a uma mulher (Anna Fierling) que segue o exército sueco com uma carroça, com três filhos e que decide viver da guerra para fazer florescer o seu negócio. Indiferente ao sofrimento que a rodeia, faz negócios com os soldados (não importa a que exército pertencem), rouba e engana, e ainda foi capaz de deixar que recrutassem o seu filho mais velho para a guerra, onde acaba por morrer, assim como os outros dois filhos mais novos. Ela perde os filhos na mesma guerra com a qual lucrou. A Mãe Coragem, “hiena no campo de batalha”, não aprendeu nada com a guerra. Com esta peça, Brecht tentou mostrar os horrores da guerra e a ideia de que as pessoas não mudam para melhor em tempos mais difíceis, e que a virtude não é conseguida, pelo contrário, há sempre muitos oportunistas que lucram com a miséria e a morte de outros.
    Se transportarmos a história e a mensagem da peça de teatro de Brecht para a nossa realidade, se pensarmos como Brecht queria que o seu público pensasse, veremos que há muitas semelhanças – nas guerras como nas pandemias é sempre muito mais o que se perde do que o que se ganha, onde há vitimas, peões e marionetas, ingénuos e honestos (soldados, camponeses, povo em geral), e depois há os comandantes, os generais, os especuladores, os oportunistas, os que sobem na vida a qualquer custo e lucram com a doença, a pobreza e a infelicidade dos outros. Contudo, a História tem-nos ensinado que o Homem pode estar condicionado pelas situações e ser vítima delas, mas também é capaz de ser o motor da sua própria ação e transformação, bem como da sociedade e do país em que vive e trabalha.

    Deixo aqui uma sugestão da maravilhosa adaptação portuguesa da peça a que também assisti em 1986: https://www.teatroaberto.com/espetaculos/a_mae_coragem_e_os_seus_filhos/

  4. querem ver que agora sao os emigrantes os culpados pelo covid ja nao sao os chineses que farsa de mundo hahahhahahahahahahahahahahahahahah so mesmo rir pra nao chorar ou como dizia o apresentador da sic a tragedia o drama o horror alias os chineses e que foram espertos criaram o virus e depois ficaram ainda mais ricos com as exportaçoes de mascaras e material quase todo made in china haahahhahaahhahahahahhahahah que farsa de mundo todo o mundo da politica é falso mas pra eles tambem esta a cova a espera deles os egocentricos que se acham imortais numa coisa marios soares tinha razao a pobreza e razao de muitos problemas mas eles nao querem dar dinheiro aos pobres ainda ontem falei com um farmaceutico que me disse pa todos terem uma vida mais ou menos digna todas as reformas quer a pessoa pudesse ou nao trabalhar devia de ser no minimo 500 euros fosse qual fosse a causa da reforma mas os politicos todos falsos preferem brincar aos falsos problemas tipo problemas de gente rica ora vamos la fingir que tamos a caça dos poderosos e ricos tipo um gajo que ficou rico devido a heranças epa ou vamos fingir que tamos todos preocupados com a corrupçao pa depois o povo estupido eleger tipo um gajo condenado por corrupçao

  5. Boa Noite, como habitante da Amadora fiquei curioso com a referência à mesma. Existe alguma estatística que indique que existe sobrelotação das casas no município? É o município mais densamente povoado (e esquecido nos investimentos do PRR, a estação fundamental do Hospital Amadora-Sintra), mas não tenho indicação que tenha sobrelotações. Obrigado, Diogo Antunes

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