ALORV e a mediocridade nacional

Na semana passada circulou na ALORV (Associação Lisbonense dos que Odeiam a Raquel Varela), com residência no facebook-Principe Real, um vídeo sobre mim, num programa de suposto humor da Rádio Renascença, que achou graça eu ter trocado o nome do pianista Sokolov, por Solokov. Tem 40 mil visualizações em 10 milhões, uma adesão de massas (agora terá mais), mas como há algumas coisas ali sérias (vigilância detalhada de 360 programas de TV!), achei por bem deixar-vos esta pequena nota.
Primeiro dizer que achar graça a trocar o nome do pianista ou a profissão tem algo de decadência nacional – tem a mesma graça de uma piada que eu fazia sempre aos meus filhos com 4/5 anos, era dizer “chichi e cocó”, às vezes aparecia no quarto deles de surpresa a dizer “chichi” – os tipos, de grandes bochechas e olhos enormes e doces, riam com gargalhadas de crianças felizes, contagiantes. A menos que sejam membros da ALORV, não vos causa estranheza num país com o Herman e o RAP alguém se divertir com tal piada? Certo – o humor é livre e é subjectivo. A critica à infantilidade dos conteúdos de entretenimento, porém, é muito objectiva – as coisas têm ou não qualidade objectiva, e em Portugal o declínio dos conteúdos é parte da degradação cultural. Tudo o que tem cultura – oh senhores ir à Gulbenkian! – é por sua vez alvo de despeito. Esses arrogantes que frequentam espaços culturais de qualidade e ainda dizem-no publicamente!
De degradação cultural falava eu no vídeo – que deixo aqui completo – demonstrando factualmente que mais de 80% dos portugueses não consegue ter acesso à cultura porque não tem dinheiro para tal. Uma família que vá ao teatro, cinema e concerto num mês para 4 gasta o salário mínimo. Isto tem arrastado a cultura portuguesa para baixo, e é um problema pré-pandemia porque com salários exíguos não há mercado interno e sem mercado interno não há escala para os artistas se desenvolverem. Como no passado, quem pode vai à Gulbenkian ou apanha um voo para Madrid – e isso, a degradação da cultura e dos salários dos artistas – é um problema real de Portugal, que devia ser combatido muito para além dos subsídios (necessários). Esse seria o debate a ter a partir do meu vídeo.
Mas o debate foi porém a Raquel Varela e o programa estratégico da ALORV – as alarvidades dos ALORV estão desenhadas no seu plano quinquenal. Os seus militantes não conseguem dormir em paz com o meu trabalho – atenção que este é um mal nacional, a mediocridade, a existência de poucos intelectuais públicos, os poucos lugares na Universidade, e no sector privado, pouco jornalismo independente, tudo isto cria a famosa inveja nacional – há uma parte importante das pessoas em Portugal cujo trabalho árduo é impedir ou lamentar o trabalho alheio. Cada vez que publico um livro, um estudo, na ALORV recalcam o ressentimento e publicam…mais um post no Facebook.
É aqui que vem a parte interessante e grave. Segue-se, a seguir à troca de nome no vídeo da Renascença, 5 cortes de programas meus desde 2013! onde se pretende demonstrar que eu faço tantos trabalhos que, ou não os faço, ou não os posso fazer bem, por serem demasiados para uma só pessoa (ignoram que trabalho muito, é certo, mas também em equipa e colectivos maravilhosos). O curioso (e grave) é o seguinte – desde 2013 participei em cerca de, calculo, 360 programas de TV. Há uma pessoa ou pessoas cuja vida é ver todos estes programas numa semana e conseguir cortar os 5m em que refiro o meu trabalho. A ALORV tem uma espécie de agente da STASI, um infeliz, cujo trabalho é viajar cada passo meu e ao fim de 7 anos conseguiu encontrar a minha falha cientifica imperdoável – troquei Sokolov por Solokov! “A camarada esteve mal, tem que ir à comissão de moral do Partido pedir perdão.”
Aproveito para dizer que o concerto foi maravilhoso, inesquecível.
Deixo à ALORV o meu cv completo (122 páginas para entretimento, defendidos em provas públicas) e o vídeo completo onde debato a questão do acesso à cultura pela população em Portugal. Deixo também uma sugestão – o livro Ressentimento da psicanalista Maria Rita Kehl. Deixo-o com boa vontade, porque ela explica como ele é auto destrutivo. Imaginem o que não teriam feito de criativo nas horas que passaram a (re)ver 360 programas de TV e como este trabalho de vigiar o “inimigo” à procura do inútil é do foro da patologia social.
Conto-vos finalmente outra história, esta divertida. Como tenho uma participação na esfera pública, e ligada à minha produção científica, semanal e há muitos anos isso exige-me algum grau de concentração e tensão, que equilibro com trabalho, viagens e uma vida familiar muito feliz, e acarinhando as amizades. É como ter sempre um jogo na mão de bolas a circular e não deixar cair nenhuma. Isso faz de mim um pouco stakanovista – trabalho muito e organizo tudo, excessivamente. Sei que os meus erros (não os lapsos, como o do vídeo) nunca seriam perdoados, apesar de ser perfeitamente normal (e saudável) errar. Na minha equipa erro é natural e sem ele não há ciência, errar e debater o erro é um sinal de força e seriedade. Mas na vida pública erro é prova de fragilidade – isso exige-me não só muito estudo de diversos assuntos (muito apoio de colegas em temas que não domino), como uma contenção e atenção muito dedicada quando falo em público. Também tem o outro lado, o reconhecimento público, todos os dias alguém me aborda na rua com palavras generosas, sobretudo repetindo uma frase que me deixa encantada “obrigada por ser a voz de quem trabalha”. Sei que é um exagero das pessoas, a influência das figuras públicas é muito menor do que se pensa, mas ser intelectual público tem, como tudo na vida, exigências e recompensas. Ora, para lidar com a tensão inventei uma nova forma de falar lá em casa, de vez em quando borrifo-me nas palavras e aponto para o comando da TV e digo, “passa-me o esquentador por favor”; ou olho para o creme e digo “tens que usar o azeite” – é um apetece-me dizer coisas sem pensar. Tal escape, que é uma brincadeira, passou a ser uma diversão para o meu marido e filhos, e eu faço-o inconscientemente, 3 ou 4 vezes por mês troco com alguma imaginação o nome às coisas e eles divertem-se imenso. A Renascença não sabe o que perde, dava mais 2 anos de programa da humorista residente para preencher a grelha e uns vídeos para verem enquanto eu estou na Gulbenkian a ver o electricista tocar violoncelo.
Haja saúde!

11 thoughts on “ALORV e a mediocridade nacional

  1. Realmente, ela há gentinha que não tem nada que fazer, a não ser chatear quem de facto trabalha. É a tal inveja dos que não suportam ver os outros bem.
    Porque será????

  2. Não se agaste carissima Dra. o seu trabalho e contributo social tem sido de valor inestimável, há sempre quem no mais distante e recatado
    canto do bastidor da vida, tudo observe e pese. Bem Haja

  3. A sério que existe uma tal “Associação”?! Será que existe o conceito de “dislexia cultural”? Se não existe, acabei de inventar, pois não me ocorre nada melhor para começar…

    Drª Raquel, esse tipo de atitudes mesquinhas só servem para admirar e realçar ainda mais o seu trabalho e a importância dele, a sua perseverança, a sua inteligência, o seu humor, a sua serenidade e a sua elegância. Para além disso, a forma como respondeu a tal provocação patética e patológica merece o nosso respeito e admiração. Qualquer semelhança entre uma pessoa e uma cidadã como a senhora e qualquer uma dessas pessoas da ALORV é por pura estupidez!
    Já diz o povo “És preso por ter cão e por não o teres!” e “Quem não tem cão, caça com gato!”. Como “ter o cão” dá trabalho e exige inteligência, coragem e autodeterminação, “não ter o cão” é a única, a mais fácil e confortável atitude para os pobres de espírito, os que não têm massa crítica, os esvaziados de conteúdo – “Tanta parra e pouca uva!” -, os que não têm opinião e para os que têm inveja dos que a têm. Tudo isso só me faz acreditar que deve haver um grande vazio e uma grande frustração nas vidas dessas pessoas, como se vivessem num deserto de conhecimento e numa eterna dança do limbo, sem nunca conseguirem passar por baixo da vara horizontal. A aridez de ideias, a falta de conhecimento, a falta de coragem e de comprometimento com as causas humanas e sociais fazem dessas pessoas elementos inúteis, que não acrescentam qualquer mais valia à vida de ninguém. Por isso, o único esforço que fazem para mostrar aquilo que não são e o que não têm, é arranjar matéria fútil e não-matéria. Aquilo a que se dispõem a fazer não é nem censura nem humor! Tanta montanha de tempo e de energia perdidas para nem sequer parirem um rato! Para o limbo com a tal ALORV!

    NOTA: “(…) achar graça a trocar o nome do pianista ou a profissão tem algo de decadência nacional – tem a mesma graça de uma piada que eu fazia sempre aos meus filhos com 4/5 anos, era dizer “chichi e cocó”, às vezes aparecia no quarto deles de surpresa a dizer “chichi” (…)”. Adorei ter usado como comparação esta brincadeira com os seus filhos para ilustrar a mediocridade, o declínio e a decadência da visão de muitas pessoas e “elites” deste país.

    • Raquel – vou tratar-te por tu pk “entras” pela mjnha casa dentro semanalmente, “sigo-te” no Facebook, aqui e temos a NOVA na nossa história, és uma Senhora brilhante, inteligente e, perdoa-me o “abuso”, uma estampa de Mulher. Não percas tempo a lutar com porcos. Vais ficar suja e eles divertem-se na pocilga onde vivem. Espero k tenhas consciência de k o k escreveste para eles foi mais, muito mais, k aquilo k eles conseguem assimilar por ano. Acredito k, neste momento, ainda estão a rebolar a rir com o “chichi cócó”. E ficaram por ali! Continua assim pk quem te respeita e gosta de ti quer-te assim mesmo, original, brilhante e esclarecedora.

  4. Nao faça caso eco exercito do Costa a ataca´-la de forma bacoca ,pois nao pode com a sua inteligência e independência!

  5. Vi o programa e achei piada a este incidente, a reação do Joaquim Vieira foi deliciosa, a correção em surdina e o espanto são um testemunho apreciável de verdade. Recordo-me de associar estes seus lapsos a cansaço, que é efetivamente o inimigo da perfeição. A forma cuidadosa e criteriosa como se apresenta no espaço publico é a todos os títulos admirável, o seu comprometimento com o “outro” é evidente, a sua postura é de uma enorme distinção. É habitualmente perfeita mas não é justa essa diminuição. As pessoas não são coisas nem importa só a superfície.

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