Síndrome de burnout: futuro do trabalho?

Artigo imprescindível dos sociólogos do trabalho João Areosa e Roberto della Santa no Público. Tenho a honra de com eles fazer parte do Observatório para as Condições de Vida e Trabalho.

“Sinto que não consigo continuar mais”, afirma um professor atormentado pela sua rauda conversão digital para o saber-fazer didático. “Eu não posso perpetuar estas más condições de trabalho”, declara um médico, ao terminar a difícil jornada hospitalar. O leitor que vive do próprio trabalho não terá dificuldades em reconhecer tal sensação aziaga de se chegar a um – nada metafórico – “fim da linha”, na vida laboral, nos mais diferentes sectores. Se já era assim, mesmo antes do ano desta epidemia global, digamos já que, depois de mais de 100 milhões de casos confirmados de Covid-19 e 365 dias de medidas securitárias, nada será como antes. Dois eventos metabólico-sociais de vulto tomaram de assalto o quotidiano de milhões: a nova crise económica internacional e uma nova pandemia global – ou, na verdade, sindemia – que afluíram catastroficamente ao redor do Planeta.No presente momento, dificilmente há alguém que não tenha ouvido falar em “Burnout”.

A expressão determinou o debate público europeu e preencheu as páginas dos jornais sem que, necessariamente, difundisse uma definição clara e/ou um consenso científico. Mas o que é a tal Síndrome de Burnout ou – já mais precisamente – o que o Burnout é? O sentido literal desta categoria anglo-saxónica é o de “arder”, “deixar-se queimar” e/ou “incendiar-se” – de dentro para fora, de ponta a ponta, de fio-a-pavio – e não resulta numa tradução consequente – ou sequer útil – numa primeira aproximação à língua portuguesa. No vocabulário corrente, fala-se em Burnout para designar algo que parou de funcionar devido à mais absoluta falta de energia. A figuração literária implica seres humanos que já ultrapassaram uma situação limítrofe no seu desempenho de nexo psicofísico. Tudo isto foi elevado à enésima potência com o espectro do lay-off, dos encerramentos e do desemprego, em meio à simultaneidade das crises que assolam o mundo do trabalho contemporâneo.

A Síndrome do Esgotamento Profissional (“Burnout”), por fim, compôs oficialmente a 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID11) – à Organização Mundial da Saúde (OMS) – em Maio de 2019 como uma questão social relacionada ao universo laboral. Apesar de ter sido pela primeira vez criada pelo novelista inglês Graham Greene (1960) e, então, desenvolvida – no contexto das ciências da saúde –, por um psicanalista alemão, Herbert Freudenberger, durante a década de 1970, foi a equipa liderada por Christina Maslach, no Departamento de Psicologia Social da Universidade de Berkeley (1981-2017), que dotou a tal termo com maior sistematicidade. Na sua aclamada sintomatologia triádica, o distúrbio consistiria na adjudicação dos fenómenos de: 1) exaustão emocional avassaladora, 2) sentimentos de “cinismo” (apatia) e distanciamento do próprio trabalho e, por fim, 3) sensação de ineficácia pessoal ou carência de realização socioprofissional face ao emprego.

Não é a primeira vez que um ente nosográfico algo difuso trata de instituir uma relação entre o adoecimento psíquico e físico ao ritmo e intensidade das relações laborais no curso da moderna civilização capitalista. Entre finais do século XIX e inícios do século XX, a neurastenia torna-se no diagnóstico mais comum de doença mental finissecular. Tal condição clínica – que George Beard descreve como a “neurose da vida moderna” – encontra repercussões consideráveis nas sociedades da época. O autor já arrolava o advento da nova doença com as mudanças económico-sociais resultantes da revolução industrial. Com a franca transformação das formas de trabalho, o progresso técnico e a extensão da racionalização científica, nos anos 1950, tem lugar o surgimento de novas enfermidades ocupacionais. Mas deram também azo à expressão de sintomas vagos, dentre os quais os de fadiga e cansaço nervoso. Seriam os antepassados legítimos da Síndrome de Burnout?

Mais do que a escavação arqueológica de qualquer noção interessa-nos, sobretudo, a sua história viva. Maslach, apesar das nossas críticas à conceção psicométrica e, mais que tudo, positivista – de sua produção científica –, revela farta honestidade intelectual ao recontar a sua progressiva aproximação ao termo do dito «queimar-se pelo trabalho»: “Se alguém disser que eu criei o termo Burnout (como resposta ao stress laboral intenso e prolongado), não é verdade! Ninguém o inventou – é que ele já existe há muito, muito tempo! – e surgiu natural, espontaneamente, no vocabulário das gentes trabalhadoras.” O ato de fala começa a circular como uma intenção comunicativa, articulado ao sentido de determinado enunciado, no último quartel do século XX. O que hoje nomeamos como ofensiva do neoliberalismo reconverteu os ambientes de trabalho de modo lancinante – em praticamente todo o globo – em locais tóxicos, competitivos e algo atrozes. Esta realidade atingiu, em cheio, Portugal. Mas não sem certo atraso relativo. Enquanto as políticas de austeridade difundiram-se pelo mundo, o país viveu o momento mais alto de realização da classe que vive do próprio trabalho: o inverno glacial de Pinochet no Chile coincidiu com a flor da primavera de Abril em Portugal. As greves, assembleias e manifestações estampavam a palavra de ordem: “Trabalhar para viver — Não viver para trabalhar.” O sorriso farto é a memória icónica de 74-75. Mas a cadência da história global, embora tarde, não falhou em se firmar cá.

A coerção socioeconómica sobre os trabalhadores subiu a um nível insuportável, tendo em conta o avanço das forças sociais de produção das últimas décadas. A organização do trabalho, através de novos métodos e técnicas de gestão laboral, está a recrudescer o individualismo dos trabalhadores e – ato contínuo – o seu isolamento social. A solidão reina. Muitos locais de trabalho são hoje pautados por ambientes frios, hostis e carentes de sentido. Isso fragiliza a saúde mental dos trabalhadores e potencia as raízes do adoecimento laboral. É cada vez mais difícil passar incólume aos constrangimentos da organização do trabalho. A concorrência feroz já se estendeu do chão das empresas para o interior dos próprios trabalhadores. As metas e os objetivos impostos pela organização do trabalho – diga-se, em muitos casos, inatingíveis – não consideram, via de regra, as dificuldades encontradas pelos trabalhadores diante do trabalho real. Ao se destruir os grupos operários e/ou coletivos de co-laboração, a solidez da cooperação, confiança e solidariedade entre trabalhadores desvanece no ar, fatores decisivos em qualquer sector – de operários metalúrgicos a médicos especialistas. Determinadas práticas de injustiça estão já banalizadas, dentro das organizações, e tais fatores potenciam-nos a alienação, o estranhamento, a ansiedade, a depressão e, em casos extremos, o suicídio relacionado ao trabalho. O trabalho contemporâneo transformou-se já em um autêntico palco de sofrimento. De há muito que os cravos da vida laboral se foram.Em 1870 fora exposto no Parlamento inglês – a ninguém menos que a Rainha Victoria – o Relatório às Condições das Classes Trabalhadoras dos Países Estrangeiros. Um informe oficial detalhado sobre as condições laborais com que o imperialismo dominante se depararia em cada país – da Península Ibérica ao Império Otomano, dos EUA à Grécia – à época. A secção sobre Portugal recomenda, efusivamente, os trabalhadores autóctones, pois que: “não bebem muito aos Domingos – e, por isso, trabalham bem às Segundas-feiras”. E porque «se contentam com pouco».

Já em 1880, La Revue Socialiste publicaria um reporte em tudo distinto. Um senhor barbado, que viria a ser globalmente reconhecido, apresentara um conjunto de cem questões sobre as condições de vida e trabalho das mulheres e homens trabalhadores em França, posto que as autoridades públicas – considerava-se – e as entidades oficiais, faziam inquéritos sobre tudo (agricultura, finança, comércio), sem se interessarem nunca por saber como viviam os que trabalhavam. Seu nome era Karl Heinrich Marx.Durante os últimos anos, a equipa do Observatório para as Condições de Trabalho e Vida realizou inúmeras investigações-ações-participantes, de ampla extensão e vasta profundidade, como autênticos inquéritos ao mundo do trabalho no país. Com larga tradição intelectual, desde o fim do Século XIX – “enquête ouvrière” – até os dias atuais (da Johnson-Forest de CLR James nos EUA ao operaísmo autonomista dos Quaderni Rossi de Itália), tais estudos aliam a produção de conhecimento, o contato vivo com os trabalhadores e uma revalorização do que as estatísticas oficiam ocultam, constituindo uma ferramenta poderosa de interpretação e transformação social. Com composição interdisciplinar e multiprofissional – com o trabalho de médicos, psicanalistas, psicólogos, sociólogos, historiadores, antropólogos, geógrafos, assistentes sociais, matemáticos estatísticos, engenheiros de produção, professores e investigadores – e membros oriundos de pelo menos três países diferentes, desenvolvemos aí um novo modelo de investigação sócio-histórica global do trabalho baseado, este, em três eixos: a) um programa de pesquisa social teórico-crítico, b) um método empírico reflexivo, com base em “estudos de caso ampliados”, e, c) uma história pública e orgânica ao mundo do trabalho: estudamos já aos Professores, Estivadores, Autoeuropa, Aeronautas, Jornalistas e Pessoal de Saúde. O raio-x não é nada auspicioso: país semiperiférico, trabalho barato e declínio nacional.A situação da classe trabalhadora portuguesa – tal como a descobrimos no terreno –, já muito antes de haver os novos despedimentos coletivos (e reestruturações produtivas) no PORTO DE LISBOA, na GALP, na TAP e na GROUNDFORCE, era, já, terrífica. O índice de exaustão emocional de 65 mil professores do ensino básico e secundário estavam elevadíssimos e, depois da pandemia, houve uma avalancha de reformas antecipadas em todo o sector. O desgaste rápido dos tripulantes de cabina encontrou-os para além dos próprios limites e hoje o plano de cortes e contingenciamentos, em plena crise da aeronáutica comercial, atingiu-os em cheio. O distúrbio cardiovascular na força social de trabalho da AUTOEUROPA é alarmante, para dizer pouco. O sofrimento ético entre o pessoal do trabalho na saúde é um espectro fatal, que deteriora seu nexo psicofísico e a orientação vital para o trabalho essencial. Não se trata, tão-só, dos piores salários da Europa Ocidental – neste aspeto, Portugal é um tipo de “Norte do Sul” ou “Sul do Norte”, em termos globais –, mas de algo muito maior. Por fim, o que o «Maslasch Burnout Inventory» não apreende é que, muito mais do que fatores de adoecimento individual, o chamado «Esgotamento Profissional» (OMS, 2019) envolve uma questão pública – isto é, um problema social – de organização do trabalho vivo. E isto é brutal.

Em tão austera situação, não é tolerada qualquer ilusão relativa ao tão jactado «futuro do trabalho». O nada admirável “novo mundo do trabalho” divide-se entre os que fazem do lar a nova empresa (escola, escritório, consultório etc.) e os que, destituídos de quaisquer vestígios de proteção, sequer conseguem gerar rendimento – para si ou para os seus. Até o termo «mundo do trabalho» – i.e., a observação das várias esferas da vida trespassadas pelo “horizonte” laboral – talvez tenha já se exaurido de todo. Quando o trabalho – ou a falta dele – extravasa, e passa a ser um tipo de agenciador de todos os aspetos da vida – em uma era de epidemia e de crise total –, milhões são absorvidos pelo vórtex do “home office”, com a reconversão da “ex-casa” em célula produtiva. As jornadas em muito extrapolam os tempos regulares de trabalho e as demais tarefas preenchem os já tão poucos “espaços” restantes. Paralelamente, há quem sequer logre manter-se numa faina, seja por ter sido demitido – devido à recessão – ou porque a sujeição a turnos brutais acarreta doenças. Para não falar da bestial epidemia de saúde mental que nos aguarda na próxima esquina. Alguns aficionados falam em supostos planos de resiliência social, reconversão verde, transição digital, automação ou revolução do 4.0 como um ardil para se ocultar o pior. Para que haja um real futuro do trabalho – com dignidade, esperança e bem-estar – é urgente revalorizar, i.e., para interpretá-lo e transformá-lo, o liame laboral com futuro. Urge democratizar e desmercantilizar o trabalho como um todo.

https://www.publico.pt/2021/04/25/opiniao/noticia/sindrome-burnout-futuro-trabalho-1959774

Advertisement

5 thoughts on “Síndrome de burnout: futuro do trabalho?

  1. Está fora de questão desmercantilizar o trabalho, pois tal é uma característica intrínseca do sistema capitalista que nos governa. Mais grave ainda, os próprios trabalhadores, em muitos casos já deixaram de como tal ser considerados. As empresas de mais explosivo crescimento, plataformas digitais, impõem a nova escravização laboral, sem direitos e sem condições, sem contratos e sem leis, numa guerra de todos contra todos, para baixar os custos. É a corrida infernal para o fundo em que os trabalhadores ainda são obrigados a pagar do seu bolso todos os instrumentos de trabalho, coisa que as antigas economias esclavagistas sequer faziam.

  2. entao e facil manda-se tudo pra casa mas nao façam filhos porque isso nao da pra brincadeiras constroem-se um exercito de robots ou entao como ta namoda viver da natureza planta-se um milhao de arvores nesse caso de laranjeiras e come se laranjas po resto da vida mas nao ao jantar porque mata mais que o virus

  3. Nunca é demais estarmos mais e melhor informados sobre as coisas, sobretudo quando delas pode depender a nossa qualidade de vida e a felicidade. Para além disso, muitas vezes não compreendemos o que se está a passar connosco, com a nossa “cabeça”, com as nossas relações pessoais, familiares e profissionais, vivendo num estado profundo e constante de tristeza, incluindo estados de choro compulsivo, como se não tivéssemos força própria e auto controle, o que certamente alguma vez na vida já todos sentimos, ou testemunhamos algum caso, e com altos custos na nossa saúde mental e física, na vida pessoal e familiar, mas que raramente imaginamos o verdadeiro alcance do problema e das suas consequências, também a nível global.

    Contudo, ainda há muitas pessoas que “enfiam a cabeça na areia” e outras que acham que é tudo uma frescura, uma moda ou um capricho de alguns que querem arranjar desculpas para justificar a falta de realização pessoal no trabalho, a profunda angústia e tristeza que sentem no local de trabalho, e fora dele, a fobia, o medo, o pânico, o esgotamento, o desalento, a depressão, a falta de energia para o trabalho e, paradoxalmente, isso acontece muitas vezes com pessoas que gostam muito ou amam a sua profissão. Como se as doenças mentais – psicológicas e psiquiátricas – não fossem doenças como as outras, e pior do que isso, como se elas também não tivessem repercussões ao nível da saúde física de outros órgãos do nosso corpo, tal como o cérebro humano. As dores de cabeça ou de estômago que não passam, a falta de força muscular, entre outros sintomas, são muitas vezes consequências psicossomáticas de uma condição de enorme descompensação psicológica que se arrasta no tempo, mesmo desde problemas vivenciados na infância, mas que foi agravada e potenciada pelos constrangimentos e dificuldades da vida adulta, sobretudo no contexto do mundo do trabalho. Aqui fazes parte de uma massa anónima, uma espécie de robô comandado à distancia, a mesma que te mantém distante de ti mesma e dos outros.

    E depois, como se não bastasse, os problemas do trabalho continuam em casa, como se fossem “fantasmas” em nossa perseguição, incluindo o próprio trabalho que se entranha em nós como um vírus e nos obriga a trabalhar em casa, porque o trabalho tem de ser preparado e adiantado para o dia ou a semana seguinte, porque a pressão dos superiores é grande, porque se inventam leis e despachos importantes, que por sua vez se desdobram em processos, tarefas e burocracias infindáveis e quase sempre inúteis, que causam mais entropia no sistema do que ajudam a fazer funcionar a engrenagem, como se a casa fosse também ela o mesmo local de trabalho que passamos a hostilizar porque nos torna infelizes e revoltados. E ninguém te pode ajudar, muito menos tu mesma. Estamos todos aos trambolhões dentro da mesma engrenagem diabólica, ensurdecedora e surda, que te suga as energias até ao tutano, num sistema que não é complacente, compreensivo e humano, pelo contrário, é antes uma gigantesca e assustadora máquina de produção em massa que se preocupa apenas com resultados de sucesso, fria e calculista, e para a qual és apenas mais um número ou um instrumento para o alcançar. É a quantidade que conta e não a qualidade. Para quem manda, o mais importante é o produto final e não o processo e as pessoas que fazem parte dele. Isto faz-me lembrar a comédia muda “Modern Times”, de Charlie Chaplin, interpretado pelo próprio no papel icónico de Little Tramp. Um sistema capitalista, que capitaliza soberbamente com o máximo de trabalho que te exige e que, ao mesmo tempo, te obriga a gastar ao máximo a limitada compensação que recebes pelo teu ilimitado trabalho, consumindo-te e fazendo-te consumir exageradamente para produzires mais e dares a ganhar mais ainda… Um ciclo vicioso e maquiavélico em que o trabalhador trabalha, paga para trabalhar, gasta o pouco que lhe sobra na ilusão da sua felicidade e acaba com um nervous breakdown (esgotamento). É caso para dizer, onde é que já vi este filme?!

    No final do dia, desejando sair desse filme, mas já sem tempo e sem energia suficiente para veres ao menos o pôr do sol, olhas à volta e, num rasgo de lucidez (ou sinal de loucura), percebes que tu e a tua família ficaram para trás. Ela precisa de nós longe dos problemas do trabalho, e nós precisamos dela para compensarmos minimamente o desequilíbrio em que vivemos, e proporcionar-lhe o direito a viver como uma família e a usufruir a merecida felicidade. Dizem que a esperança é a última a morrer, mas eu não quero morrer com ela.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s