Os Homens Quebrados

O melhor manual de corrupção que li foi o romance O Homem Quebrado de Tahar Ben Jelloun. Um dos mais importantes escritores de língua francesa, e também psiquiatra, oficio que coloca na construção das suas personagens complexas. Ontem tive aqui em casa uma bela discussão filosófica com a juventude sobre este livro. Sucintamente, temos a personagem principal, um homem, de personalidade insípida e submissa, incorruptível, mas por pressão da mulher, que despreza o seu salário baixo, da filha asmática que está sem medicamentos e do chefe e da estrutura corrupta acaba por se tornar ele próprio um corrupto. O romance é a sua transformação, de impoluto a vigarista, no fim não se salvando porque ao se transformar em corrupto morre como ser humano. O seu ultimo sentido de vida era pelo menos ser sério e, ao aceitar as regras do jogo, transforma-se ele num personagem ainda com menos amor a si próprio.
Este é um tema de que o marxismo mais mainstream tem fugido mas a psicanálise (e o próprio Marx) explora. A sociedade capitalista não cria capitalistas insípidos sem personalidade, ela cria um enorme sofrimento nos próprios capitalistas porque ao viverem em competição uns com os outros e para sobreviver a essa competição terem que cortar salários aos seus trabalhadores ou fazer infinitas falcatruas que gestam a miséria humana, eles mesmos entram em sofrimento, expresso na loucura dos gestores, no consumo de drogas “caras”, na degeneração moral, ou no cinismo doentio dos CEOs. No capitalismo ninguém se salva, em suma. É certo que já existia corrupção antes do capitalismo. Assim que há desigualdade ela nasce, mas depois da II Guerra com a elevação das dívidas públicas para ocultar falências privadas, e o crescimento do papel do Estado na economia, corrupção e capitalismo passaram a ser sinónimos. Nos EUA, pragmáticos, resolveram o assunto chamando à corrupção lobby e legalizando todos os esquemas como fruto da “liberdade individual e de mercado”. Uma farmacêutica dá milhões a um candidato e isso chama-se lobby.
Mas a corrupção não é eterna, é ainda uma escolha política e social. Pode-se escolher lutar contra ela, identificando as causas reais. Nem todos somos corruptos, aliás a grande maioria das pessoas do mundo, é um facto, recebe menos do que trabalha e não teria benefícios pessoais para si do dinheiro dos outros. O debate filosófico aqui em casa era se devemos defender a personagem que se suja para comprar medicamentos ou não. Penso que no fim chegámos a uma conclusão comum, e muitas divergências – não há salvação possível. Quando se coloca a mão na lama, a mente suja-se e, entre falta de medicamentos para a asma e uma vida conspurcada pelo roubo não há propriamente uma escolha de vida, ambas são uma escolha de morte.
O juiz Ivo Rosa escreveu 6000 páginas para dizer que Sócrates é corrupto, há indícios para usar o termo jurídico, mas prescreveu. Sócrates admitiu a circulação de dinheiro em quantias gigantes em malas “dadas por um amigo” e tudo ficou na base da amizade. Nas escutas tratava as malas de dinheiro por “aquela coisa que eu gosto muito”! Há quem brande por mais leis e afastamento do juiz, outros por menos leis (menos garantias no processo penal). Creio que a questão de fundo é outra – há uma estrutura legal de funcionamento do Estado e a sua relação com o privado que favorece a corrupção, mesmo quando não se chama corrupção e é legal. Confesso que enquanto o dinheiro público não for de controlo público podemos mudar as leis mas ninguém se salva. Todos os envolvidos – os que tentaram com escassos meios provar o crime, o mentiroso compulsivo que tentou livrar-se do crime (e que p Público hoje dá voz, na buscar declinante de ter partilhas em vez de jornalismo), o juiz que tentou aplicar a lei para salvaguardar os bens e a lei – são homens quebrados. Uns quebrados porque queriam fazer justiça e não conseguiram, outros porque não queriam fazer justiça e conseguiram.

3 thoughts on “Os Homens Quebrados

  1. Lá dizia Eça de Queirós, “Políticos e fraldas…”.
    Mas este povo o ignorou e assim a fralda foi ficando, ficando e ficou.
    Gente humana, com H, por cá, fica longe da política, porque será?
    Quando lhes dá a coragem de por lá passar, logo rápido se põem a andar.
    Porque será? Haverá por lá algum estranho cheiro no ar?

  2. Drª Raquel, é triste, mas é verdade, e como tal vem sempre ao de cima, como o azeite. O azeite não “quebra”, mesmo quando sujeito a altas temperaturas, mantendo as suas virtudes e benefícios. Como em tudo na vida, há sempre boas exceções, pelo que é bom lembrar que há poucos elementos que não se misturam mesmo e que não se deixam “quebrar”, por muito que alguns tentem – há pessoas que são como o azeite, verdadeiramente incorruptiveis e que nunca chegam a ser os “donos disto tudo”. Isso tem custos, e maiores do que quando se é corruptível, mas apesar de todos os custos, podemos escolher salvar o caráter ainda que fiquemos mais pobres ou não enriquecemos. É apenas uma opção.
    A propósito do tema, lembro-me de ter lido uma frase do falecido empresário português, António Champalimaud, que afirmava que todas as pessoas têm um preço. Fiquei a pensar nisso, não porque não soubesse disso, mas porque gostaria de saber se também ele foi corrupto e corrompido. Um homem de negócios, dono de um império empresarial em Portugal, Brasil, Angola e Moçambique, considerado como o mais rico do país e na lista dos multimilionários da Forbes, sabia bem do que falava. Por necessidade ou por outro motivo qualquer, quem se deixa comprar e vender, de uma forma ou de outra acabará necessariamente corrupto e corruptor. A corrupção é como um vicio, mas legal, passa a ser algo socialmente e economicamente aceite por ser necessário, uma questão de integração no grupo, de defesa e controle de interesses e poderes comuns. “A união faz a força” parece aplicar-se nisto também.
    A corrupção só é mais comparável ao álcool e ao tabaco por ser viciante ao proporcionar prazer, ser mais tolerada socialmente, e ainda ser legal. Por isso é que ela compensa e atrai muitos gostos e preferências. Quanto ás pessoas e ás leis, as provas são por demais evidentes – também elas podem ser “quebradas”. Ao que parece, basta que o saibas fazer e te rodeies das pessoas certas. Ser ou não ser corrupto depende dos amigos que tens, mas uma vez corrupto, fica o “bichinho”, o vicio e a dependência, sobretudo porque para o corrupto sobreviver na lama tem de consumir algumas porcarias, as mesmas que um dia o levará à ruína e até à morte.
    Cada vez mais me convenço que a maior diferença entre a vida e a morte reside na forma como tu e a tua vida são julgados, quer pelo “sistema de justiça” da sociedade quer pela própria Justiça. A necessidade de julgar e condenar – um conceito muito judaico-cristão – parece estar inscrita na nossa matriz genética e cultural, mas os seus critérios variam conforme a condição social e económica do réu. Em vida, perante os crimes cometidos, a justiça/Justiça que julga e condena o pobre não é a mesma para o rico, não usa a mesma medida para o rico como para o pobre. O pobre é tratado como culpado, sem direito a prescrição, e vai ser “enterrado” em vida. O rico é tratado como se tivesse morrido – os julgamentos e condenações dos mortos quebram e são mais benevolentes e democráticos, quase sempre para os elogiar e homenagear, como se para se salvarem precisem de morrer. A besta foi sempre bestial, é perdoada e com a “ficha limpa”. Pelo menos, uma vez morta não poderá corromper nem ser corrompida, nem por amizade, e nem fará mais mal a ninguém!

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