Um coelho na cartola

Vivemos num país onde alguém que cace um coelho tem o carro apreendido. O juiz Ivo Rosa – sublinho que o problema não é individual, é uma questão sistémica, de regime e estrutura da justiça – ordenou o fim do arresto dos bens de mais de 20 milhões de euros, que podem ser já vendidos a outrem, e portanto até ao fim do julgamento deixar de ser devolvidos aos milhões de portugueses lesados. Não são quaisquer dois pesos e duas medidas. É um peso esmagador para quem é pobre, remediado, médio, e uma insustentável leveza para quem é muito rico. A simplicidade com que se expropriam milhões de pessoas que ficam expropriadas do emprego, da saúde, da educação de qualidade e o respeito processual pela propriedade bancária e especulativa é notável.

4 thoughts on “Um coelho na cartola

  1. Portanto, a Raquel acha que o Estado devia dizer assim: “ok, em relação a estes bens não há qualquer prova ou indício de que as pessoas tenham cometido algum crime, e portanto nem vão a julgamento. Mas, uma vez que são ricos, os ditos bens continuam retidos, não se vá dar o caso de virem a ser condenados por outros crimes e temos já aqui uma garantia do putativo pagamento”. Ou, no seu exemplo: o juiz de instrução decide que afinal não há qualquer prova ou indício de que o homem andasse a caçar coelhos e não o pronuncia por esse crime, mas, em contrapartida, há indícios de que fez umas falcatruas no IRS; de modo que decide que o carro dos coelhos continua apreendido, até se decidir a questão do IRS (com o qual o carro nada tem a ver). É isto? (pode juntar à comparação que, no caso dos coelhos, o MP também pretende recorrer). Pois, também acho que não pode haver dois pesos e duas medidas, para os ricos e para os pobres, chama-se estado de direito.

  2. Tornar justo o que é desigual é o desafio da sociedade justicialista. A assimetria de poder é o traço indelével do lugar onde vivemos, é a corrupção aceitável. A utopia dos tolos não é ingenuidade é desfaçatez.

  3. O lobo e o cordeiro

    Ainda há pouco tempo manifestei aqui o quanto me deito e levanto espantada todos os dias. Se as histórias a que assistimos hoje fossem apenas fábulas encantadas como as de La Fontaine, eu estaria espantada com tanto encanto e sabedoria como quando as lia em criança, ainda que continuasse a achar que há nelas sempre algo de muito cruel e injusto. No entanto, é com triste espanto que constato que a sabedoria contida na moral dessas histórias não é fantasia, mas a realidade atual e muito verdadeira. E assim, haverá sempre uma história em que alguém, como um ex-Primeiro Ministro, é o lobo que comeu o cordeiro. Moral da história: nenhuma justiça ou razão vale aos pobres dos cordeiros quando a razão do mais forte ou poderoso é a que prevalece.
    Depois de tantos e cada vez piores escândalos de uma boa parte da sociedade política e económica deste país, ao longo de tantos anos desde o 25 de Abril, e que têm manchado de vergonha a nossa História, ultrajando a memória dos verdadeiros heróis do país, ainda não consegui deixar de me espantar com os atos e atitudes de pessoas que deveriam dar um bom exemplo de cidadania e de honestidade, sobretudo pelos altos cargos que ocupam no governo e na liderança da nação. Desde a espantosa interminável comunicação da decisão instrutória do juiz Ivo Rosa sobre a desavergonhada operação Marquês (, que não consigo dormir de boca fechada. Quem querem enganar? Tanto paleio p’ra boi dormir! Eu que não sou gado, não adormeci, e fiquei incrédula, revoltada, indignada, e envergonhada, sem ser culpada de nada. Pelo contrário, eu e todos os trabalhadores e contribuintes somos mais uma vez os cordeiros vitimas de uns quantos lobos, quais sanguessugas sugadoras do nosso sangue e suor. Mas pior do que um lobo ou uma sanguessuga, é mesmo um PM ou ex-PM de um país que usou e abusou despudoradamente do seu poder e influência para proveito próprio, dos seus amigos e da sua família. Não governando em prol do bem comum, antes governou-se roubando o país, provando mais uma vez ser uma pessoa sem escrúpulos, sem caráter, sem vergonha, altivo, arrogante, vaidoso, gabarola e exibicionista, e ainda por cima vitimizando-se e reclamando inocência! De cordeiro não tem nada, embora só ele próprio acredite nisso. Depois, como se não bastasse, cantou vitória!!! Será que o ex-PM não se enxerga ou afinal não passa de um tolo e bobo da corte?
    Resta-me a esperança de o Ministério Público ter a coragem e a resiliência necessárias para conseguir conter a tempo, antes que prescreva, os males da caixa de Pandora lançados na nossa Democracia, e com isso conseguir restituir à mesma pelo menos alguma da força e da dignidade que vai perdendo com estes episódios lamentáveis protagonizados por pessoas indignas dos cargos que ocupam.

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