Liceu Camões – Palestra sobre o 25 de Abril

Dia 20 estarei no Liceu Camões. Deixo o texto que o prof Jorge Saraiva – Professor de Ciência Política da Escola Secundária de Camões – escreveu para o evento, numa síntese da minha investigação sobre a história da revolução, que agradeço desde já:


Quando se comemoram 47 anos sobre a data da Revolução, o 25 de Abril de 1974 continua a dividir opiniões e ser motivo de acesa polémica, não só sobre as causas que conduziram ao movimento dos capitães, mas também aos acontecimentos que lhe sucederam, no período de 19 meses que durou o processo revolucionário.


Existe uma corrente dominante na análise dos acontecimentos que se sucederam ao 25 de Abril que defende que houve uma tentativa de imposição de uma ditadura de sinal contrário, ou seja, que os princípios defendidos originalmente pelo movimento dos capitães, tinham sido subvertidos por forças de esquerda não democrática. Segundo esta visão dos acontecimentos, os diferentes passos do processo revolucionário, quer em termos políticos, quer em termos económicos e sociais, visavam a instalação de um regime revolucionário de partido único inspirado em modelos próximos dos regimes socialistas do leste da Europa. Nesse sentido, entre as diferentes reviravoltas que se sucederam após o 25 de Abril, o 25 de Novembro de 1975 terá sido a vitória dos que defendiam um modelo democrático de tipo ocidental contra os que eram apologistas de outros modelos de sociedade.


A Dr ª Raquel Varela através da sua investigação e da obra que publicou (nomeadamente os livros História do PCP na Revolução dos Cravos e História do Povo na Revolução Portuguesa) tem contrariado vigorosamente as teses dominantes sobre os acontecimentos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Como a autora escreve na introdução de História do Povo na Revolução Portuguesa, «nunca na história de Portugal os trabalhadores tiveram tanta consciência de o ser e tanto orgulho em sê-lo: «Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, a habitação», cantava-se. Muito depois do fim da revolução – que nem todos percebiam que tina acabado – ainda havia jornalistas portugueses e estrangeiros a ir às fábricas do País «à procura do socialismo», desse país da Europa Ocidental que tinha inscrito na Constituição a construção de uma sociedade sem classes.» (História do Povo na Revolução Portuguesa, pgs 15-16).Contrariando as teses oficiais que reduzem os acontecimentos desse período à luta entre os diversos partidos pelo controlo do aparelho de estado e aos golpes mais ou menos palacianos, a Dr ª Raquel Varela propõe uma visão desse período que coloque no centro da acção política os trabalhadores e as movimentações populares. São as lutas pelo salário e pelo emprego, por serviços de saúde e de educação acessíveis a todos, por uma habitação condigna e pelo direito à terra a quem verdadeiramente a trabalha. Estas movimentações populares, frequentemente espontâneas e impulsionadas pela generosidade daqueles que nelas se empenharam, anteviam uma sociedade livre da exploração e das desigualdades, ou seja, como dizia a canção de Sérgio Godinho, o desejo de construir «outra terra no mesmo lugar». A Escola Secundária de Camões tem comemorado anualmente o 25 de Abril, uma data que abriu espaço para que todos os sonhos fossem possíveis. Assim, é com muito interesse e orgulho que iremos receber a Dr ª Raquel Varela que dialogará com a nossa comunidade escolar sobre essa data e sobre a forma como os sonhos e utopias que nesse dia se inauguraram, foram ou não concretizados.

4 thoughts on “Liceu Camões – Palestra sobre o 25 de Abril

  1. Comunicado em 25 de Abril de 1974

    AO POVO PORTUGUÊS
    DECLARAÇÃO SOBRE A SITUAÇÃO POLÍTICA ACTUAL

    Há escassa meia dúzia de horas, um golpe de estado conduzido por um sector da oficialagem do exército colonial-fascista foi desencadeada contra o governo da camarilha marcelista. No momento em que escrevemos, a luta entre as duas cliques da classe dominante prossegue em todo o país, tendo por objectivo imediato o controlo exclusivo dos centros vitais do aparelho de Estado burguês e o domínio dos pontos nervosos principais das forças armadas que o sustentam. Está longe de ter chegado ao seu termo, com o êxito garantido de uma ou outra das facções, a violenta disputa que estalou no seio do poder reaccionário e despótico que nos oprime, que nos explora e que nos humilha. Qualquer que seja, porém, o resultado concreto dessa luta reaccionária intestina, relativamente a cada um dos contentores, não podem nem o povo em geral, nem a classe operária em particular alimentar, tanto a respeito desta luta quanto ao seu resultado, qualquer espécie de ilusões.
    São os chacais que se disputam, os abutres que conspiram, as hienas que entre si lutam! E a propósito de que coisa costumam lutar as hienas, conspirar os abutres ou disputar-se os chacais! A propósito de uma única coisa: a propósito da presa, a propósito da vítima, e do “direito” de a esquartejar à vontade e de à vontade a empalmar. E a vítima, no caso, não é outra senão o povo português e os povos irmãos das colónias. Tal é o real significado dos acontecimentos que se estão a desenrolar desde o começo da madrugada. Por consequência, nem a classe operária nem o povo, têm algo a esperar, seja da camarilha marcelista seja da camarilha spinolista, senão a intensificação da criminosa guerra colonial-imperialista, o aumento da exploração, o agravamento da repressão, nem podem esperar delas outro progresso que não seja o “progresso” da fome, da doença e da miséria. Pelo que concerne aos autênticos interesses do proletariado e do povo a clique do lacaio Marcelo Caetano e a clique do lacaio Spínola, são cada uma delas pior do que a outra.
    As justas aspirações das amplas massas trabalhadoras de Portugal ao Pão, à Paz, à Terra, à Liberdade, à Democracia e à Independência Nacional não podem ser outorgadas por nenhuma camada, por nenhuma facção, por nenhuma clique da classe dominante, precisamente porque aquilo que a caracteriza como classe é viver da exploração de quem trabalha. Acaso poderá alguma vez acontecer que os parasitas concedam e reconheçam às suas vítimas o direito a deixarem de ser sugadas? Não! O único direito que os parasitas reconhecem é o direito de sugarem e a única liberdade que concedem é a liberdade de cavalgarem às costas dos sugados. As legítimas aspirações do Povo, só o Povo as pode outorgar a si mesmo. E só as pode obter através da Revolução Democrática Popular: uma revolução popular armada, desencadeada e prosseguida pelo Povo, sob a firme e consequente direcção da classe se operária e do seu partido revolucionária, um partido comunista marxista-leninista.
    Nada disto terá que ver com qualquer golpe de estado, por mais pintado que ele seja e por maior que seja a demagogia com que todos os golpes de estado buscam apressadamente enfeitar-se no momento em que são parturejados. Como o próprio nome o indica, todo e qualquer golpe de estado – desde o que revestem as formas mais pacíficas aos que assumem as características mais sanguinárias – não são senão ajustamentos no interior do próprio Poder opressor que em nada alteram a essência desse Poder, mas que visam explorar e escravizar mais eficazmente e mais amplamente as classes oprimidas. Ora, as tarefas da classe dos proletários e de todo o povo, face ao Estado fascista, não são as de proceder a ajustamentos na sua estrutura, mas as de destruí-lo até à última raiz, sem deixar pedra sobre pedra, e construir sobre as suas ruínas um Estado de Democracia Popular, em que exista a mais ampla liberdade e democracia para o povo e a mais implacável ditadura sobre os exploradores.
    Uma tal coisa tão magnífica e tão essencial para as massas, poderá porventura obtê-la o povo com a “colaboração” do exército colonial-fascista, com o “auxílio” dos carrascos das polícias, com a “ajuda” dos assassinos da G.N.R., com a direcção da oficialagem colonialista e com o patrocínio do assassino de Amílcar Cabral? Evidentemente que não! Todas estas forças armadas que estão a conduzir o golpe desta manhã, tal com aquelas que se lhe estão a opor, todas essas forças armadas que ensaiaram a tentativa abortada de 16 de Março, nas Caldas, do mesmo modo que aquelas que apoiaram o putch esboçado pelo nazi Kaúlza de Arriaga, em Dezembro último – todas elas são o pilar fundamental, a alma do Estado reaccionário da burguesia: elas não poderão nunca dar coisa alguma ao Povo e, pelo contrário, existem precisamente para esmagá-lo e saqueá-lo. Essa é a singela razão porque o Povo nada quer com elas; a razão porque o Povo tem de armar-se, tem de constituir o exército popular revolucionário, o exército dos operários e camponeses para aniquilar completa, total e resolutamente as forças armadas reaccionárias, seja quem for o sátrapa que as comande.
    Naturalmente que os golpes de estado não sucedem todos os dias, ainda que esta seja a terceira tentativa em pouco mais de três meses. Tanto o acontecimento em si, como a frequência das suas tentativas de realização e as características de cada uma delas são prova inequívoca e reveladora da caótica situação política, económica e militar em que estrebucha a classe dominante e do grau de agudização a que chegaram os antagonismos sociais, a luta de classes no nosso país. O governo da camarilha marcelista já não pode governar; mas tão pouco o poderá fazer o governo da camarilha spinolista ou qualquer outra camarilha que a burguesia catapulte para o Poder. O governo que as condições objectivas da sociedade portuguesa exigem, não é um governo da burguesia, mas um governo popular; não é um governo saído da contra-revolução com a finalidade única de barrar o caminho à Revolução, mas um governo emergente da Revolução com a finalidade de prosseguir o programa político do Povo e esmagar a contra-revolução.
    O PÃO para os operários, mediante a socialização dos meios e instrumentos de produção açambarcados pelos capitalistas; a PAZ para todo o Povo, através da separação e completa independência para os povos irmãos das colónias com o regresso imediato dos soldados; a TERRA para os camponeses, com a confiscação dos latifundiários, grandes agrários e demais parasitas vivendo do suor e do sangue das massas dos nossos campos; a LIBERDADE para o povo; a DEMOCRACIA para os trabalhadores e a ditadura para os exploradores; a INDEPENDÊNCIA NACIONAL, com a expulsão dos imperialistas estrangeiros – tal é a bandeira vermelha que o povo opõe à bandeira branca da burguesia e a todas as suas cliques governamentais. Foi essa a bandeira revolucionária que as massas populares opuseram à quase defunta camarilha marcelista e é a bandeira vermelha que devem opôr à não totalmente nascida camarilha spinolista.
    A situação da Revolução no nosso país é excelente. A fase que atravessamos é uma fase de ascensão impetuosa do movimento operário e do movimento popular revolucionários. As lutas da classe operária, dos camponeses, dos soldados e marinheiros, dos estudantes e intelectuais progressistas crescem em firmeza, em amplitude, em combatividade e organização, e a direcção do proletariado, consequência do progresso político, ideológico e organizativo do nosso Movimento, começa a imprimir-se à generalidade das lutas que se travam de norte a sul de Portugal. Por outro lado, a justa luta armada de libertação nacional dos povos heróicos de Angola, de Moçambique e da República da Guiné-Cabo Verde obtém vitórias magníficas em todos os campos e o exército colonial-fascista colecciona derrotas demolidoras. A burguesia portuguesa sabe que a sua tumba se lhe cava inapelavelmente. Daí, a luta exacerbada entre as diversas camadas da classe dominante em busca da hegemonia. Daí, os programas e as tácticas próprias de cada uma dessas camadas, para obter aquilo que qualquer delas sempre apelidará de “salvação nacional”.
    Unidas quanto ao essencial (e que é o interesse comum na exploração da classe operária e do povo), as diversas facções da burguesia no Poder têm também contradições entre si – e, por vezes, contradições que assumem um carácter extremamente agudo, chegando às vias de facto, como acaba de acontecer esta manhã – quanto à forma de perpetuar e intensificar a exploração e de combater a revolução do povo português e dos povos irmãos das colónias. À outra, a burguesia portuguesa não passa de um peão de brega do imperialismo, ao qual vendeu e vende a retalho a nossa pátria, transformando-a numa neo-colónia ao serviço do estrangeiro. Acontece que a dominação imperialista no nosso país reveste-se duma característica capital: não é só um imperialismo (um só país imperialista), mas vários imperialismos e vários grupos de interesses imperialistas que nos exploram e oprimem.
    Trava-se entre eles uma muito aguda luta pelo domínio e controlo exclusivos desta parcela do banquete. Cada um dos grandes grupos de interesses imperialistas estrangeiros associa aos seus planos de domínio do país uma fracção da burguesia local, na qualidade de sócia menor; assegura-se duma clientela própria ao nível do aparelho de Estado, organiza a sua clique entre a oficialagem das forças armadas e infiltra-se em todos os pontos chaves adequados à estratégia do saque. Quando a tempestade revolucionária começa a rondar e a nau do capital ameaça ir a pique, cada um destes grandes e complexos feixes de interesses se constitui em “junta de salvação nacional” – ou, por melhor dizer, em junta de socorros a náufragos – e o golpe de estado pode sobrevir. O golpe, porém, jamais logrará salvar o barco do naufrágio; pelo contrário: se o Povo, que é quem faz a história, puder ver que, por detrás do golpe, não é a força do Poder, mas a sua fraqueza intrínseca aquilo que se esconde, então o naufrágio precipitar-se-á mais rapidamente ainda.
    E sem dúvida que o povo pode e está já a vê-la. Aproveitar a situação política actual para intensificar e aprofundar todas as lutas revolucionárias, conferindo-lhe um carácter de amplas massas; multiplicar os meetings, as discussões e os comícios políticos; abandonar as residências, onde a nova clique governativa pretende que o povo se encarcere a si próprio, e ocupar as ruas; comunicar um renovado impulso ao movimento grevista, seguindo o correcto exemplo dos operários da MAGUE (Alverca) que ousaram desencadear a greve com ocupação da fábrica logo aos primeiros vagidos da nova camarilha; abandonar os quartéis e boicotar as prevenções, confraternizando com o povo; desertar em massa e com armas, pondo-as ao serviço dos operários e camponeses; organizar manifestações de rua; preparar activamente uma grande jornada vermelha para o 1º de Maio; erguer bem alto as reivindicações políticas do proletariado e do povo – tais são as nossas tarefas concretas e imediatas.
    Tal como o governo da camarilha marcelista, é ainda o imperialismo, o colonialismo, o capitalismo, a repressão e a reacção o que a nova camarilha serve, se acaso se consolidar no Poder. Que partidos políticos apoiarão o novo cônsul da contra-revolução? À cabeça, os “liberais” da SEDES (o sector mais importante dela) e a totalidade do “EXPRESSO”, seu órgão oficioso. Mais do que de apoio, a mira da SEDES será constituir-se no partido governamental, do que de resto, já tem alguma experiência adquirida durante o consulado de Caetano… Está certo! Apoiá-lo-ão ainda os sociais-democratas da carpideira Mário Soares (PSP) e todos os seus “simpatizantes” na “República” e outros órgãos. É o que se deduz do seu programa e o que sempre haveria de deduzir da afectada hesitação de falsa virgem com que comenta o livro do assassino Spínola na imprensa francesa. Está certo! Apoiá-lo-á o P”C”P, porque conhecidos militantes seus andaram a pretender vender em duas fábricas, a operários (!?) o “Portugal e o Futuro” do colonialista Spínola; porque esse é o programa do partido do biltre Barreirinhas Cunhal e porque mais isto: porque o partido revisionista é uma rameira que se entrega a quem melhor lhe paga. Está certo! Apoiá-lo-á a C.”D.”E. (perdoe-se-nos o lapso de ter separado a C.”D”.E do P.”C”P!), porque, seguindo as instruções do “Avante”, defendeu o chamado “Movimento das Forças Armadas” quando ele ainda não existia, isto é, quando ainda se chamava “movimento de oficiais”… Está certo!

    Retirado partes do texto do comunicado…

    • Li com muita atenção as partes retiradas do supracitado comunicado. Reconheço partes dessa História tão bem como as reconheço hoje. Elas não deixaram de acontecer, antes repetem-se com outras roupagens. Resumidamente, refiro-me à exploração do proletariado pela burguesia matreira sempre em ascensão, que sorrateiramente instigava as revoltas do povo enquanto os explorava e lhes dava falsas esperanças, montando-se nele aproveitando a boleia para obter os louros e os lucros, não para dar melhores condições de trabalho e de vida às suas montadas. Reconheço igualmente o novo imperialismo – os Vistos Gold, os VIPs estrangeiros, as multinacionais e outros poderes que tais – que “retalham a nossa pátria” de Norte a Sul e de Este a Oeste, comprando-a ao desbarato e despojando o seu povo das suas terras, do seu trabalho, das suas riquezas, da sua identidade e dos (poucos) sonhos que ainda lhes restam. Tudo isto com a aprovação das elites capitalistas e dos poderes reacionários, por sinal, cada vez mais corruptos, vendidos e hipócritas, claro! Ironias do destino: de um país colonizador, passamos a um país colonizado; de um país explorador do Novo Mundo, passamos a um país explorado; de um país de marinheiros, estivadores, agricultores, pastores, criadores de gado, pescadores, artesãos, artistas, criadores e produtores de calçado e de têxteis, ceramistas, metalúrgicos, poetas, sonhadores, e por aí fora num rol de atividades e talentos sem fim, passamos a importadores da produção dos estrangeiros e consumidores ávidos do pronto a levar, a gostar de pagar para nada se produzir, a apreciadores e compradores dos talentos dos outros, a eternos endividados, submissos e escravos da Europa e, pior do que tudo isso, a deixar passivamente tudo isso acontecer debaixo das nossas barbas de brandos costumes.
      Refiro-me ainda particularmente aos, e passo a citar, ” (…) chacais que se disputam, os abutres que conspiram, as hienas que entre si lutam! E a propósito de que coisa costumam lutar as hienas, conspirar os abutres ou disputar-se os chacais? A propósito de uma única coisa: a propósito da presa, a propósito da vítima, e do “direito” de a esquartejar à vontade e de à vontade a empalmar. E a vítima, no caso, não é outra senão o povo português (…). Tal é o real significado dos acontecimentos que se estão a desenrolar desde o começo da madrugada. Por consequência, nem a classe operária nem o povo, têm algo a esperar, (…) ”

      Curiosamente, esta última parte fez-me lembrar um dado curioso: na Natureza, entre as hienas, não são os machos que detêm o direito de se banquetearem com as presas, pelo contrário, apesar de rondarem as mesmas, rastejando submissos às fêmeas, tentando abocanhar um pedacinho que seja, uma migalha solta, eis que são vigiados ferozmente de soslaio e violentamente escorraçados pelas fêmeas até que estas estejam saciadas e só restem peles e ossos. Muitos machos chegam a vaguear semanas a fio, famintos e enfraquecidos, até terem a sorte de encontrar alguma carcaça com carne deixada por outros carnívoros já satisfeitos. Outros ainda chegam a morrer de fome.

      Tudo isto remete-me para uma outra ideia que me acompanha há muitos anos: deixando de lado os exageros das relações de não comensalismo das hienas, e trazendo para a mesa uma perspetiva democrática nas relações sociais e de poder, ainda sonho com uma sociedade portuguesa muito menos machista (latina) e mais progressista no sentido tolerante, respeitador e valorizador da natureza mais humanista das mulheres, do seu potencial cognitivo e intelectual, das suas capacidades de liderança conciliadora e assertiva, pacificadoras da raiva, da ambição, do egoísmo e da violência típicas registadas na matriz genética masculina. Elas só precisam de ter as mesmas oportunidades que os homens.
      Tudo pode ser discutível, mas após milhares de anos de evolução genética, biológica, social, cultural e cientifica, o natural e aceitável seria que a Humanidade já não vivesse e coabitasse com base em relações negativas de competição, parasitismo e predação. A lei instituída para muitos de que é o mais forte que vence contra o mais fraco, que é a superioridade e o domínio de uma espécie sobre a outra que dita a sua sobrevivência e o direito a dominar a vencida, e que o derradeiro objetivo na vida deve ser sempre o de atingir uma posição de superioridade de poder, riqueza e domínio parece-me uma ideia tão decalcada e antiga quanto mesquinha, cruel e vingativa, tão característica de mentes pequeninas, egoístas e desprezíveis. A Humanidade não deve ser uma competição ou uma corrida desenfreada e desigual pela sobrevivência. A Humanidade não deve ser a cópia dos instintos mais primitivos e animalescos como é natural no mundo animal, na Natureza, pelo contrário, a Humanidade deve retirar desse mesmo mundo as lições positivas e adotá-las como exemplo no mundo dos humanos.
      Não sendo eu filósofa, antropóloga ou cientista, acredito que a ideia darwinista da evolução das espécies contém em si mesma a solução para os problemas decorrentes dessa evolução: sendo a dinâmica da evolução biológica e social imparável, nunca se chegará a um estado definitivo de perfeição, mas ela pode ser tão real e tão ao alcance de todos quanto mais a encararmos como uma busca incessante de oportunidades e uma conquista de um estado de superação das diferenças, das desigualdades, das assimetrias e das injustiças, conseguindo um maior equilíbrio entre todas as forças, cada vez mais e melhor. Independentemente da seleção pela genética, pelo meio social e pelo ambiente natural, a estratégia da evolução parece estar nas mesmas oportunidades dadas a todos como meio de superação dos constantes desafios e desequilíbrios inerentes. Todos sabemos que um macaco conseguirá partir um coco se lhe dermos uma pedra e que uma cegonha terá a oportunidade de fazer o seu ninho em lugares onde vivem os humanos se lhe proporcionarmos uma estrutura de base que ela saberá aproveitar.
      No atual estado das coisas, a Humanidade precisa desesperadamente e urgentemente de algo mais humano e menos primitivo, canibalesco e medieval. A Humanidade só sobreviverá como tal com base em relações ecológicas intraespecíficas e interespecíficas do tipo harmônico e não desarmônico: interajuda, cooperação, mutualismo e comensalismo. Do que a Humanidade precisa é de criar oportunidades para todos e não de oportunismos e oportunistas.

  2. Drª Raquel Varela, obrigada pelo seu contributo. Sim, precisamos de muitas conferências, palestras e conversas sobre o 25 de Abril – o antes, o durante e o depois – nas nossas escolas, e não só nas Escolas Secundárias. As nossas crianças, os adolescentes e jovens precisam muito de conhecer e compreender Portugal e a sua História na perspetiva de quem viveu, estudou e compreendeu o 25 de Abril, bem como os efeitos que teve no Portugal pós-25 de Abril. Mas mais do que isso, precisam também de saber valorizar e respeitar todos os que contribuíram para o fim da ditadura Salazarista e para a construção da Democracia em Portugal, porque sem esses os nossos filhos, netos e bisnetos não teriam tido as oportunidades que os seus pais, avós e bisavós não tiveram. Precisam igualmente de saber tirar as lições necessárias da História para assumirem os futuros destinos do país de forma mais informada, refletida e crítica. Entretanto, pelo caminho, pode ser que ganhem mais gosto pelo conhecimento e sintam curiosidade em descobrir por eles próprios possíveis estratégias e soluções para os problemas que estão a enfrentar agora ou que irão enfrentar no futuro, para que sejam parte da solução e não do problema, para que lutem por uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais livre e mais humana.

  3. Bravo! A sua palestra foi cristalina e luminosa. Aquilo que conta sobre a revolução portuguesa é muito importante e é pena que esteja tão bem escondido. Gostei muito.

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