Espanto

A curiosidade científica e o espanto são condições para construir-se um bom cientista. Não chegam, mas sem elas, vontade aprender e espantar-se, é impossível fazer ciência.

Deveriam os conselheiros do Governo na gestão da pandemia estar espantados – com o facto das escolas terem aberto há um mês, a vida ter retornado aos passeios marítimos e praias, mais de 70% dos portugueses não estar em tele-trabalho; a variante britânica ser totalmente dominante (tornou-se dominante à medida que os casos desciam!), e até uma manifestação de, segundo afirmam organizadores, 3 mil pessoas ostensivamente sem máscaras (não sou entusiasta deste tipo de desafio, porque marginaliza as pessoas nele envolvidas, mas ele aconteceu e não teve, é um facto, qualquer repercussão na saúde pública 15 dias depois). Nada aliás do que citei teve – os casos descem, desde que passou o pico do Inverno da “pobreza energética” e do desastre dos lares. O espanto estaria também na Suécia, com a Europa que confinou mais o lazer a ver-se a braços com picos incontroláveis e a Suécia há muito num planalto, com capacidade de tratar e acompanhar os doentes e manter toda a economia a funcionar, nunca um ginásio ou restaurante fechou portas, ainda que com correctas restrições. Em vez de cancelar o debate, comportando-se como crianças de 5 anos chamando preto, judeu e agora negacionista e assassínio de velhos a todos os que têm curiosidade, manda o espírito científico que nos questionemos, assumindo o tanto que não sabemos. Tendo a Suécia a mesma concentração populacional de Portugal, e evidentemente dando abraços e jantares em família, sem máscaras em lado algum, em vez do dogma porque não o espanto? O que correu lá melhor? O não confinamento do lazer terá criado imunidade de grupo nas crianças que em vez de portadoras da peste são portadoras da imunidade que protege os mais velhos? O sistema de saúde sueco logrou mais cedo tratar os doentes? Não sei, tenho curiosidade.

Algo que escapa a Carlos Antunes, que hoje já veio dizer que as crianças que voltaram às escolas são focos de infecção, ainda que em Portugal estão agora a morrer cerca de 300 pessoas por dia, 10 de Covid. 290 de outras causas e que as urgências de pedopsiquiatria assinalem a catástrofe que lhes está a chegar pelas urgências todos os dias em matéria de descompensação das crianças e jovens. O que importa, cito Carlos Antunes, é manter o medo, a frase exacta que proferiu foi há uns tempos “é preciso que o medo volte”. A estratégia do cientista, que é conselheiro do Governo, é a de apelar ao primata que há dentro de cada um de nós – o medo, essa arma da saúde pública famosa nas melhores universidades do mundo de epidemologia. Como as suas previsões falharam como mais nenhumas, sobra o medo para entrar nas previsões matemáticas. O director de saúde da Suécia foi ao Parlamento há 2 semanas, tinha sido questionado em tempos pela direita e pela extrema direita locais que se mostravam a favor de mais restrições (sim, na Suécia são os Bolsonaros que pediram algumas restrições, e os sociais democratas que as rejeitaram – já agora no Chipre também, é a direita que as quer impor e a esquerda que está na rua contra – o mundo é complexo, espantemo-nos). Hoje nenhum Partido as exige ao governo social democrata, e a direcção de saúde pública é respeitada. Aguentou o embate medieval, mostrou como se faz saúde pública lembrando que morta também está a vida de quem fica destruído material e mentalmente – disseram várias vezes que o efeito dos confinamentos ia criara problemas gigantes, e criaram. A frase do director no Parlamento foi esta, que cito ipsis versis – “muitos quiseram no mundo controlar um vírus fechando a sociedade, nós provámos que eles estavam errados”.

Não sei o que aconteceu na Suécia. Dizer que tem baixa densidade populacional é ignorar que 70% do território é habitado por renas, e que quase toda a população está nas 3 cidades do sul. Dizer que as pessoas não convivem é ignorar os restaurantes cheios há 1 ano, e uma juventude que manteve todos os rituais de encontros, imaginem, espanto, sem indicações pelo Estado de como e com quem devem ter relações sexuais – o que o Estado inglês fez com precisão. A resposta está, quanto a mim, na imunidade de grupo, na saúde destas populações – sim, parem de comparar Portugal com o Brasil onde 45 milhões de pessoas dependem do Estado para não morrer de fome, é uma população doente, sem habitação ou distância física possível. Na Suécia muito provavelmente a capacidade de resposta dos serviços de saúde e de saúde pública venceu. Mata no Brasil a pobreza e a ausência de saúde, a pandemia é a tempestade perfeita num país onde há muito se morre de forma precoce de causas evitáveis.

A outra resposta é triste, mas é um dado. A de que o vírus circulou atingindo os mais frágeis rapidamente. O vírus correu os lares, os mais frágeis, na Suécia e em todo o mundo, e foi implacável com os mais velhos, porque nem a social democrata Suécia conseguiu impedir, muito menos o fizeram outros países (Portugal foi trágico neste campo), que os lares sejam espaços onde a propagação das doenças é imparável. Os lares são a antítese de um lar – juntam na solidão do fim da vida pessoas idosas e doentes. A sociedade terá que espantar-se e concluir que lares não são, em momento algum, uma opção segura e correcta para tratar dos nossos quando envelhecem, com ou sem pandemia. Voltarei ao tema. Este tema dos lares – e o desprezo pelas crianças e jovens – são o grande tema de saúde pública desta pandemia. A incapacidade de cuidar dos sectores mais frágeis da sociedade, colocando-os em grande sofrimento, velhos e crianças e jovens, diz muito do fundo do poço a que chegámos.Seja como for espanto-me. E tenho como sempre imensa curiosidade. Os meses que virão serão de mais questões, mas também de mais respostas.

8 thoughts on “Espanto

  1. Análise perfeita mais uma vez, a sua voz é uma das poucas a oferecer racionalidade, tranquilidade e sabedoria ao debate. É para mim uma necessidade lê-la e escutá-la no meio deste caos de histeria e censura.

    Falta agora perceber os “efeitos” da Páscoa nos números… É que já foram anunciados 150 000 testes só para as escolas, no decorrer desta semana. Desconfio que ainda nos vão aprisionar mais uma vez pelo mau comportamento pascoal, reflectido no aumento brutal da testagem que já deve estar em prática. Não sei quantos falsos positivos e assintomáticos cabem em 150 000 testes, mas calculo que os especialistas matemáticos estejam ansiosos pelos resultados para que o medo regresse – caso contrário, mais uma vez as suas previsões estapafúrdias não se concretizarão e estes não querem certamente ser apelidados de incompetentes ou negacionistas.

  2. A Raquel fala e bem do “espanto” que podemos resumir ao “medo da realidade” por parte de quem, não gostando dos factos, inventa outros mais convenientes à narrativa que quer fazer passar. O caso dos EUA é paradigmático, pois mostra a que ponto as tendências das elites instaladas conseguem chegar. Isto tem a ver com a generalizada censura promovida e exigida por crescentes camadas do establishment. É esse claramente um dos mais importantes legados do C-19. Começaram pela censura massiva a todos os tratamentos da doença e a todas as medidas promotoras da imunização natural, assunto que se tornou tabu absoluto. Ninguém ousa falar ou discutir esse tema porquê? Então temos uma doença grave e ninguém debate os tratamentos nem a prevenção?
    Dir-se-á que a aposta total seria nas vacinas. OK. Se houver muitas vacinas, para quê tratamentos? Mas mesmo aspectos essenciais das vacinas tb passaram a tabu. Por exemplo, ninguém questiona o longo historial das grandes farmoquímicas em termos de fraudes, corrupção, suborno, obstrução à justiça, vendas ilegais, etc, crimes pelos quais todas já foram condenadas várias vezes em diversos países. Acontece até que a Pfizer detém o invejável recorde da maior multa já aplicada a empresas deste tipo, só $ 2,3 B. E é nessas empresas que nos pedem que confiemos, naturalmente.
    A própria composição das vacinas à base de agente genético (tenologia nunca antes usada em humanos) sequer é discutida, como se fosse uma vacina igual a outras. Porque será? Martelam todos os dias que elas são seguras, apesar de não terem sido feitos testes nem estudos de médio prazo sobre a sua segurança. Deve ser por isso que as mortes e doenças graves nos inoculados também viraram tabu. Mesmo a eficácia dos testes de diagnóstico nunca é debatida.
    Assim, é neste contexto dos vários negacionismos oficiais que diversos membros do Congresso americano vêm exigindo às plataformas digitais que intensifiquem a censura sobre as origens do C-19, sobre os efeitos das vacinas e dos testes e até pasme-se, o encerramento de contas das pessoas com que não concordam.
    Espantemo-nos, já que a escalada da censura parece imparável e para melhor aplicar a sua agenda, criaram o Center for Countering Digital Hate e o Anti-Vax Watch, organizações que têm lugar cativo nos media mainstream, como o Finantial Times e outros e cujo financiamento se afigura “obscuro”.
    Afinal, porque é que as elites precisam tanto de esmagar e ocultar as opiniões discordantes da narrativa oficial, tentando transformar os cépticos em inimigo público? Não lhes seria suficiente a apresentação dos factos objectivos?
    Porque será???

  3. O artigo da Raquel deve merecer da nossa parte o seu total apoio e atenção… Esta passagem no seu texto (mais abaixo), é muito importante para todos aqueles que passam horas e horas a defender os nossos mais queridos, mas nunca fizeram nada por eles!!!(…) “A sociedade terá que espantar-se e concluir que lares não são, em momento algum, uma opção segura e correcta para tratar dos nossos quando envelhecem, com ou sem pandemia. Voltarei ao tema”!!!

  4. Porque será que os governantes não ouvem a Raquel e outros verdadeiros especialistas??
    Aqui vai um deles
    https://jermwarfare.com/blog/prof-denis-rancourt

    Denis Rancourt is a former tenured full professor of physics at the University Of Ottawa in Canada.
    He is a researcher for the Ontario Civil Liberties Association and a social theorist, and has published more than 100 articles in scientific journals.
    Denis joined me last night for an absolutely brilliant conversation about all things COVID and the collateral propaganda perpetuated by the government and its PR wing, the mainstream media.

  5. Drª Raquel, mais uma vez, certeira na sua análise ponderada e bem fundamentada.

    Com espanto me deito e com espanto me levanto! “É preciso que o medo volte”???!!! Para quê? Para nos assombrar como um fantasma do passado? Para continuar a aterrorizar as crianças com a velha história do “bicho papão” para as obrigar a comer? Como bem diz a Drª Raquel, e passo a citar, ” (…) e que as urgências de pedopsiquiatria assinalem a catástrofe que lhes está a chegar pelas urgências todos os dias em matéria de descompensação das crianças e jovens.” E não só, também dos adultos! Mas o que ainda mais me espanta é saber que agora as crianças são o “bicho papão” desta pandemia! Temos de ter medo das crianças que voltaram para as escolas… Que preocupação tão perversa!
    Por acaso é de medo que os Portugueses precisam para aliviar as suas dores e resolver os problemas dos verdadeiros “vírus” que duram há décadas? É o medo que vai contribuir para um bom sistema de assistência aos doentes e de tratamento das doenças (tal com acontece com o corpo humano, os efeitos de qualquer vírus/pandemia serão seguramente menos impactantes e graves se os sistemas de saúde tiverem uma imunidade mais forte), para mais emprego e salários condignos, para melhores condições de habitação e de vida de milhares de Portugueses? É o medo que vai ajudar a sermos autodeterminados, autossuficientes e felizes? É o medo que vai derrubar o vírus de vez? Pois é, mais uma vez os Portugueses é que têm a culpa, andam a portar-se mal porque deviam ter muito medo. Parece até que se as pessoas tivessem tido muito medo, o vírus nem teria aparecido!
    Não precisamos de mais “bichos papões”! Francamente, incitar as pessoas ao medo quando o que devia ser feito era informá-las sobre a verdade dos factos e ajudá-las a compreender aquilo que desconhecem, sobretudo porque iriam contribuir para fazer parte da solução e não do problema. Fala-se tanto e cada vez mais em fazer e produzir Ciência e em como a Ciência deve ajudar a Política a tomar decisões. Contudo, antes disso, precisamos de pessoas informadas, curiosas, investigativas e sem medo de questionar, descobrir e conhecer a verdade (sobre isto haveria muito para questionar sobre a filosofia da educação do atual sistema educativo). Isso sim, seria honesto, justo e até pedagógico. Isso sim, seria um indicador de sociedade evoluída e de um país em evolução, do qual todos nos poderíamos orgulhar mais. Mas não, quanto mais ignorante e cheio de medo o povo se mantiver, mais livre estará a quem isso dá jeito para manobrar a máquina da ordem estabelecida a seu belo prazer. Quem tem medo, consente. Quem consente, vive calado. É disso que eu tenho verdadeiramente medo. Um país calado sobre o que verdadeiramente se está a passar à conta da pandemia e do medo dela, e não me venham com a conversa que há países que estão piores do que nós. Infelizmente, isso não me espanta. O que me espantaria seria se não tivéssemos medo de comparar Portugal com outros países que estão sempre muito á frente, que pensam em estratégias mais eficientes e tomam decisões mais adequadas do que as nossas.
    Se há sentimento do qual tenho medo é justamente o de ter medo. O medo não deixa ver, cega. O medo não deixa ouvir a voz, cala-a. O medo não deixa pensar, corta a raiz ao pensamento. O medo não deixa avançar, paralisa. O medo não une, divide. O medo não é a solução, é o problema. O medo não é simplesmente uma arma, é uma arma politicamente estratégica. Os Portugueses não devem ter medo. Os Portugueses devem ter mais coragem. Coragem para pensar e agir.

  6. o jorge coelho morreu de que? sim o meu humor é negro e continuara enquanto continuar a ditadura do medo cinicos odeio jornalistas e politicos problema reaçao soluçao o diretor do hospital de inglaterra morreu com 57 anos com cancer de pulmao querem falar de doenças cinicos de merda entao falemos e a raquel me desculpe o humor negro a pfizer que foi processada pelas maes dos esquizofrenicos foi multada em bilioes de dorlares por os esquizofrenicos terem desenvolvido diabetes cronica e outras efeitos secundarios devastadores a ciencia quer é dinheiro como todo o mundo os cientistas nao sao melhores nem piores que ninguem

  7. Quais os passos necessários a dar, para que uma sociedade de homens livres, ignorantes e entretidos nos seus devaneios consumistas, se submetam, abandonem os seus direitos e liberdades, duramente conquistados por outros que não conheceram nem a quem por tal agradeceram, exigindo que também todos os outros o façam, sob pena de os considerarem “inferiores”?
    Primeiro passo… Instituir o MEDO.
    Segundo passo… a DEPENDÊNCIA, abrangente, a uma vida julgada normalizada.
    Terceiro passo… o CONTROLO, permanente, a um futuro pensado previsível.
    No final do sombrio caminho, seremos peões, quebrados emocionalmente, despojados espiritualmente, transformados em servos úteis a usar conforme nossos “reis” e “senhores” julgarem de sua conveniência.
    Feita a manipulação das massas, se necessário, quando necessário, como anteriormente na nossa história tantas vezes o foi, milhões serão ordenados para as fábricas e campos de batalha, para as guerras comerciais e reais contra os “maus” – olhai-os lá que espreitam a oriente – pois por cá se encontram os “bons”, sempre entre nós, aqui no adorado ocidente. Obediência é devida pois patriótica, nossos “reis” assim o ditam, lutar e morrer pela nação, um dever, um orgulho. Ás famílias que perderem os seus, desamparadas ou destroçadas, a esmola será garantida e à mesa dos “reis” garantida estará a fartura e a opulência do “saque”.
    Quando lá, no futuro, recordarem o passado (nosso presente), escrevam, sem que nunca vos falte a convicção, que a humanidade escolheu o seu futuro, pelo MEDO de não o ter.
    George Orwell – “Se quiserem uma imagem do futuro, imaginem uma bota a pisar a cara de um ser humano, para sempre”.
    Nuvens negras se adensam sobre todos nós, pois os velhos inimigos da humanidade nos prendem com o seu dominante abraço. Olhai ao centro e vereis o seu mortífero olhar.
    E no entanto, bastará olhar para outro lugar e reencontrar a LIBERDADE.
    É sabido, raça que só olha para dentro, nunca obterá a visão que a elevaria aos céus.

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