Inglórios e Bastardos

Já não é a primeira vez que vejo pessoas aplaudiram a infecção ou morte por Covid de pessoas que estão contra o confinamento – alguns amigos que tenho em boa conta, no Brasil onde a política e a moral há muito se desencontraram é quase diário ver comentários de alegria por ter morrido um opositor com Covid – na ausência de intervenção política real sobra a celebração da morte no mundo virtual. Desta vez o famoso Dr Facebook Sci-Med, que aconselha, por exemplo, programas de verificação de notícias falsas, substituindo-se ao papel de investigação jornalística com contraditório que, com a precariedade nas redações, tornou-se raro. Como achamos aqui em casa o ensino online uma fraude, entre outras coisas, decidimos passar bons filmes em família seguidos de debate. Um deles é Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, realizador cujos filmes – muito bons – são sempre uma celebração pós-moderna da violência (é o que se chama um adversário difícil de derrotar). Aqui, neste filme, caçadores de nazis fazem as coisas mais horríveis aos nazis, que no filme cometem os assassinatos mais bárbaros. Os mais novos diziam-nos que os nazis mereciam – todo o filme está assim construído, essa é a conclusão manipuladora do filme – justiça é conseguires ser o pior dos torturadores contra o pior dos torturadores. Conseguimos, com sucesso, depois de um debate grande defender que se Hitler nos apontasse uma arma teríamos que o matar, ele ou nós, não havia alternativa. Mas, se fosse apanhado sem nos ameaçar a vida seria levado a julgamento (explicámos que os EUA executaram em directo Sadam Hussein porque são um Estado liderado por bárbaros em que o lucro se sobrepõe aos direitos). E que se o torturássemos, a Hitler, seríamos transformados não num belo justiceiro, mas num torturador. Desejar a infecção ou morte de alguém com Covid não diz nada da pessoa morreu – diz tudo daquilo em que se transformou a pessoa que está viva. Quando vem de um médico, que aconselha os media, diz tudo da decadência de valores em que vivemos – bastardos inglórios é um grande nome, o melhor do filme, não há glória para quem sucumbiu moralmente ao monstro que há dentro de si.

5 thoughts on “Inglórios e Bastardos

  1. Como se o cenário não fosse deplorável o suficiente, acresce que a notícia de que o organizador da manifestação está infectado é aparentemente falsa. Já decorre um processo de difamação contra o jornal que lançou essa notícia.

  2. boa noite Raquel Varela, excetuando a parte de ser contra aulas online, que podem não ser a melhor coisa mas podem ser a solução possível, concordo em grau, género e número com o seu artigo. É uma tristeza.

  3. e so dar uma olhada nos comentarios pelas redes sociais e quase todos desejam de alguma forma a infeçao do outro chegando ao ponto de sim senhora desejarem a morte o que so veio provar tambem mais uma vez que a epidemia fez as pessoas pelo menos algumas ficarem mais desumanas e a velha estrategia dos governos dividir pra reinar funciona sempre jutiça nao e epa pelo que percebi a senhora raquel nao sei se e crente mas deu uma bela liçao moral biblica sim justiça nao e olho por olho dente por dente pelo menos a ensinada no novo testamento as vezes as melhores liçoes veem de quem menos esperamos um bem haja raquel mas tenho de dizer tambem que o post de salazar ser um assassino gostei muito

  4. Cada um de nós tem dentro de si, um monstro capaz dos actos mais abomináveis.
    É a nossa cegueira (auto-infligida) e a negação da sua existência que faz com que ele se manifeste.
    Por enquanto é só online, mas não me espantaria que uma demonstração de virtude futura, passasse por espancar o “negacionista” que, qual SS, mata indiscriminadamente outros quando, sem máscara, ousa sentar o rabo num banco de jardim.

  5. E a 3ª hipótese quanto ao Hitler, debateram? Ele não me está a apontar uma arma. Eu não tenho hipótese de o apanhar para o levar a julgamento. Mas tenho hipótese de o matar. Mato ou deixo-o sossegadinho na vida dele porque isso iria fazer de mim uma assassina? (Claro que o Sadam Hussein não deveria ter sido assassinado pelos bárbaros, devia ter sido levado a julgamento… e já agora o Osama Bin Laden também, pois nem teve hipótese de argumentar, defendendo-se.)

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