Portugal – finisterra pode ser também o começo de algo

O leitor vai deliciar-se nestas páginas Da Raia Seca ao Pinhal, do Dr. Álvaro Cravalho, com uma profusão de artigos que olham a sociedade, economia, cultura e vivências do Interior, oferecendo ideias, soluções. E propostas concretas – algumas já concretizadas – de como se pode fazer, e se fez nalguns casos, do Interior uma parte viva do país – no campo da música, da imprensa regional, e muitos outros exemplos. Com testemunhos actuais e outros de uma época histórica que é o legado, ainda sentido, de um país que mudou profundamente na década de 60, e sobretudo nas décadas de 70 e 80, ao se modernizar plenamente, com todas as contradições do desenvolvimento histórico capitalista que colocou Portugal, embora na Europa, periférico. Periférica é a sua condição de fim de terra, de onde se avista o mar e só o mar, no fim. E periférica é a sua condição económica, sobretudo depois e durante o período da chamada globalização neoliberal. 

Nem todas as zonas do mundo têm geograficamente as mesmas potencialidades. Regiões muito pobres podem manter uma densidade populacional equilibrada, com algum tipo de rendimentos e produção, erguendo lugares que sejam uma casa acolhedora para os que aí vivem. Mas para isso são necessárias escolhas. Se florestamos, por exemplo, toda a terra de pinhais e eucaliptos, além das catástrofes humanas, e das crises ecológicas, estamos a fazer uma escolha que reforça a desertificação. Construímos, sobretudo desde 1990, vias que aceleram o que podia ser troca, mas se transformaram, em alguns lugares, numa via de apenas saída, em que as estradas servem como porta de saída até para a transformação e escoamento da produção. Porque no Interior escasseiam as indústrias locais, os serviços públicos e apoios logísticos. 

Portugal vive de longa data um cisma, que tendo barreiras naturais, tem outras que são, sobretudo, políticas – o cisma Litoral/Interior. A nação consolidou-se virada para o mar, no estuário dos rios, de norte a sul. Ganhou projeção mundial com a Expansão, sobretudo através de um desses estuários, do rio Tejo, em Lisboa – tão amplo que ganhou nome de mar, Mar da Palha. Esta condição extrema vê-se nas migrações externas e internas (aqui neste livro tão bem retratadas pelos autores), e como recorda o escritor dinamarquês Hans Christian Anderson, em viagem a Portugal no século XIX, Portugal tornou-se um país que exporta homens. Também Orlando Ribeiro o explicou assim, quando referiu-se ao país como produtor de homens. De um modo geral as melhores terras do país estão no litoral, e possibilitam a policultura e o emprego diversificado o longo de todo ano, em vez das monoculturas. Mas…como recorda George Steiner, no seu ensaio sobre a Europa – Ideia da Europa – , nenhuma extensão na Europa é intransponível, e todos estamos ligados, quase a pé, de aldeia em aldeia, ao contrário do que se vive nos continentes americanos, australiano e asiático, onde a humanização do espaço enfrentou-se sempre com limites naturais avassaladores, como grandes montanhas, desertos, e zonas inóspitas. A Europa, e Portugal, pequeno país também, tem esse dom natural de ter encontrado casa num território onde o homem tem a vida facilitada. Há alternativas que urge pensar. Este livro, coordenado pelo Dr. Álvaro Carvalho, distinto médico e cidadão empenhado, deixa-nos interrogações, sugestões e reflexões. Uma agricultura sustentável, diversificada, financiada, que nos ajude a garantir segurança alimentar; que olhe a centralidade da necessidade de criar emprego multifacetado, para os membros da família, e não a mono-cultura; emprego que não tenha caráter sazonal; serviços públicos de qualidade, cuidado das populações locais e apoio à cultura. É preciso, é urgente, políticas que escolham estar do lado das populações, para que elas estejam do lado do país.

Raquel Varela, Posfácio ao livro do médico Álvaro Carvalho, Da Raia Seca ao Pinhal, Editora Âncora

Junho de 2020

1 thought on “Portugal – finisterra pode ser também o começo de algo

  1. Maravilhoso! Uma partilha muito feliz.
    Efetivamente, em Portugal temos a vida facilitada, e é fácil gostar do país, por conta do moderado clima, do sol dourado e duradouro, dos ares mais leves e respiráveis, das generosas terras e gentes, das belas paisagens, de Norte a Sul do país – desde a costa litoral rendida ao manto azul Atlântico, com as suas praias prazerosas e soalheiras, as históricas cidades de onde tantos portugueses aventureiros e necessitados partiram para a descoberta e para a sobrevivência, e para onde tantos estrangeiros vieram na mira dos negócios e de riqueza, onde se pode apreciar obras de grande estilo e nobreza arquitetónica e artística testemunhos intemporais da História de outros tempos – até ao interior de fronteiras e serranias, onde antigas tradições e curiosos costumes resistiram ao desgaste do tempo, contando-nos histórias passadas de heróis e aventureiros, de reis e rainhas, de nobres e cavaleiros, de crenças e lendas, de aventuras e desventuras, e de como durante meio século da era moderna o povo foi oprimido, escravizado, empobrecido e quase esquecido nesta finisterra.
    Mas é no interior desse Portugal onde reside a maior riqueza do seu património e legado natural, humano e histórico – as imensas e verdes florestas (infelizmente cada vez menos, e mais maltratadas pelos fogos e pela ganância selvagem de uns quantos), as altaneiras e históricas serras, os montes e vales, planícies e planaltos, as frescas e ligeiras correntes de rios e ribeiros, as pessoas de brandos modos, solidárias e acolhedoras dos forasteiros e estrangeiros, um povo sábio sobre as artes ancestrais, que pisava a terra e agarrava a enxada para colher o que semeava, guardador de rebanhos, criador da rica, variada e deliciosa gastronomia e doçaria tradicional, alquimista dos abundantes e muito apreciados “néctares dos deuses”, acolhedor de diferentes culturas e povos, numa fusão tão duradoura quanto diversificada e muito marcada pelas origens e influências genéticas e culturais ibérica, céltica, romana, germânica, islâmica mourisca, judaica e judaico-cristã, mediterrânica, africana, e europeia.
    E é em tudo isso que reside (residia?) a nossa riqueza e identidade – desde a alma lusitana do guerreiro e líder Viriato, que lutou pela união dos povos ibéricos, pela defesa da pátria, pela independência e liberdade face aos invasores romanos, os bravos cruzados e marinheiros, os audazes descobridores e conquistadores, os poetas e escritores da língua de Camões, as gentes pobres, sacrificadas e oprimidas, mas resilientes, solidárias, corajosas e aventureiras, até ao povo emigrante e aberto para o mundo onde também deixou, e continua a deixar, uma boa parte da sua alma.
    Na cauda da Europa e de frente para o Novo Mundo, Portugal e os Portugueses, apesar de tudo, parecem ter esquecido uma parte muito própria e significativa da sua origem, da sua identidade, da sua História, em suma, da sua alma. Parece que muito pouco dessa alma continua visível e a resistir. Parece que, aos poucos, a sua alma e o que resta das suas riquezas estão a ser vendidas e hipotecadas ao “diabo”. O seu futuro está vendido e hipotecado.
    Do povo que durante mais tempo resistiu contra antigos invasores, como os romanos, colonizadores e ditadores, passou a resistir muito pouco ou nada aos modernos invasores e conquistadores. Agora, é um povo rendido mais á fatalidade de um destino, não o seu, mas um destino ditado por outros, um povo que confia, que vive das ajudas de outros, que importa mais do que produz, que exporta os seus filhos mais capazes e preparados porque não é capaz de lhes dar um futuro, que não cuida e protege as suas riquezas da cobiça alheia, que vive o sonho de ser igual a qualquer europeu, que tem esperança e fé na sorte e nos poderes da tecnologia, com pouca memória da sua História e sem vontade de se levantar e decidir por continuar a fazer a sua própria História. Um povo e um país em dívida para com o passado e com o futuro endividado.

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