Cuidar dos Adolescentes

Os critérios de regresso à escola dizem respeito à produção de valor e não à protecção dos mais frágeis. Para um adolescente, como aliás está explícito no Relatório da Unicef sobre a pandemia, a doença mental por confinamento é muito mais grave do que nas crianças pequenas. Há duas fases na vida que são essenciais na formação da nossa identidade, infância até aos 3 anos, e adolescência. Um bebé sem afecto e com boa comida e calor pode morrer, por falta de afecto, nos adolescentes a marca da dessocialização, de não se encontrar a si com os outros, nos outros, é o suicídio. Confinar um adolescente é um sintoma da barbárie social em que vivemos. Muitos já vivam antes da pandemia confinados em casa com ecrãs, mas tinham pelo menos a escola onde havia um vislumbre, cada vez menor, de socialização (menor porque até nos intervalos ficam sozinhos com o telemóvel).

Os pais não conseguem trabalhar com crianças pequenas em casa, nem elas aprender a ler, e todos, em qualquer idade vão sofrer horrores se ficaram confinados. Mas os adolescentes, a rigor para o Governo a partir dos 12 anos de idade, podem ser largados dias e noites em frente a ecrãs para os pais irem trabalhar.Saliento que a doença mental chega por duas vias, e que infelizmente não posso explicar com detalhes pela complexidade. Chega pelo confinamento e ausência de relações sociais (o que é unanimemente aceite) e – o que é mais difícil de explicar – pela utilização das redes sociais.

Vou deixar a explicação simples sobre o grave que é deixar um adolescente exposto a redes sociais o dia todo (e um adulto, mas nos adolescentes estamos em fase de formação da identidade – para parte da psicanálise tão importante quanto os 3 primeiros anos de vida, como referi): as redes sociais são a mecanização das relações humanas, o nosso corpo e mente interpretam como uma alienação que conduz ao sofrimento, a pessoa está lá mas não a tocamos, cheiramos, isso deprime-nos, pode dar-nos vontade de lá estar mas ao mesmo tempo vai degradando o nosso bem estar porque sentimos, e bem, que estamos a ter uma relação falsa – entramos assim em grande sofrimento. Porque as usamos? Porque são compulsivas, é o segredo do seu vicio, o que significa que têm um efeito semelhante à cocaína, um tempo de compulsão, prazer imediato, que aumenta a dopamina, seguido, como na cocaína, de uma quebra depressiva. E, não permitem construir a subjectividade – isto é ainda mais complexo de explicar, a psicanalista Rita Kehl explica-o nos seus livros. Tem ainda outros efeitos graves – perda de visão, hiperactividade, falta de concentração, de memória, e sobretudo de criação – a criação é uma actividade que exige asbstração – se estivessem sozinhos a ler, desenhar ou tocar música não tinham sintomas depressivos por isso, pelo contrário, a sua construção subjectiva, porque a sua auto estima, aumentava. Ou seja, para o bem estar deles devem estar desconfiados e usar redes sociais ou outros ecrãs ao longo da vida menos de duas por dia.

Confinar pessoas saudáveis é inaceitável, mas confinar adolescentes e em tempos de acesso livre a redes sociais, onde estão o dia inteiro, é um crime. Para saber mais sobre isto consultem a revista cientifica Pediatrics norte-americana e coloquem as palavras chave exposição a ecrãs, depressão e adolescência. Também na Lancet com as mesmas palavras chegam a vários estudos onde se refere que nunca deviam estar expostos a mais de 2 horas dia de ecrã – hoje estão 10 a 14 horas, e metade delas por imposição do Ministérios da Educação.

6 thoughts on “Cuidar dos Adolescentes

  1. Excelente! Sempre pertinente e atual.
    O drama aumenta quando pensamos em todos os outros à volta, os que não estão viciados nos ecrãs e nas vidas dos outros, o quanto sofrem com a ausência e a falta de interação de quem mais gostam. A “plebe” pulula como pulgas estonteantes à volta das redes virtuais à procura do aconchego e da felicidade, sem se aperceber da alienação e da crescente alucinação a que está sujeita por acreditar cegamente na ilusão de que se não o fizerem não se sentirão vivos e integrados. Contudo, tal como acontece com as pulgas e outros invasores parasitas, serão os seus próprios hospedeiros, ou quem os protege, a surpreendê-los com a asfixia e a morte por intoxicação e envenenamento. O feitiço e o veneno vão produzindo efeitos devastadores a vários níveis e ao longo de muito tempo.
    Infelizmente, com o decorrer do tempo, e face às limitações e constrangimentos da idade e da vida, também esses serão os futuros solitários e deprimidos, porque os mais novos estarão ocupados a viver outra vida, noutro mundo.

  2. Ainda bem que escreve sobre este tema – por favor continue a trazer-nos mais informação sobre este assunto – ligação redes sociais-saude mental e a partilhar nas redes. Eu já acompanho este debate há anos, na verade desde 2009 quando era completamente contra facebook pela cultura narcísica que para mim estava chapada, um amigo antropólogo dizia-me na altura que estava a exagerar pois nós adaptamo-nos sempre à mudança tecnológica e conseguimos superar esses desafios. A partir da minhasmuitas leituras e acompanhamento de vários debates é realmente assustador perceber as consequências e o impacto desta tecnologia na saúde mental. Crianças não deviam ter acesso a qualquer ecran até 5 anos, impacto da utilização das redes gravíssimo sobretudo nas raparigas adolescentes (há estudos sobre isso – níveis de depressão ansiedade extraordinários, em crescimento na ultima década, bullying etc) e precisamente essa relação entre o consumo de redes e os sintomas de adição; a forma como os produtos são desenvolvidos precisamente para monetizar, a alterção dad dinâmicas de grupo (conceitos de amizade amor partilha) a interrupção da ausência ou seja a ausência da ausência (todos estão presentes, sempre), transferência da violência entre pares para as redes, polarização, sempre a tendência para a individualização do sujeito a separação fisica, a comunicação por mesnagem escrita que ultrapassou até a mensagem de voz…tantos temas numa àrea fundamental a ser discutida cada vez mais à luz do pensamento filosófico, da psicologia, da história/ sociologia…ainda bem que trouxe este debate. Estas redes têm de ser pensadas de forma consistente e séria, pois estamos a produzir uma sociedade doente. Está a anos luz do impacto da invenção da TV (tb alienante) ou do telemóvel per se, do “mundo da blogosfera etc.- precisamente pelas particularidades da tecnologia. Com tempo partilharei tb mais fontes ou espaços onde encontrar informação sobre o tema.

  3. Uma vez mais digo, um texto que assino por baixo…
    É uma das poucas mulheres da área académica , e não só, que se preocupa com os filhos dos operários e de mais trabalhadores… Os outros (as) preocupassem com os seus interesses pequeno-burgueses…
    Como diria um amigo meu; “aqui em Portugal os gajos não entendem nada”!!!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s