Groundforce

A TAP é um buraco? É, gigante. Aguentamos? Não sei. A TAP foi durante anos uma das empresas onde o PS e o PSD acumulavam quadros, favores, e se reforçavam em posições do aparelho de Estado – uma “agência de emprego” do centro, ou, como lhe chama o filósofo Tariq Ali, do extremo centro. Ao mesmo tempo a TAP é uma companhia que prestou em muitos anos um serviço excepcional, seguro, confiável, num país de finisterra, insular e com migração, serviço assegurado com o trabalho de décadas de milhares de trabalhadores que, apesar das administrações, conseguiram erguer e manter a empresa. Depois da Troika a TAP tornou-se ainda mais uma bolsa de valores, um casino – a UE impedia ajudas do Estado para promover a privatização da empresa, que foi feita pelo PSD e mantida, de facto, pelo PS. Que tinha o polícia bom Pedro Nuno Santos e o polícia mau António Costa – a ideia era acalmar os sindicatos dos transportes (Pedro Nuno Santos) com uma conversa de esquerda, enquanto Costa tocava a música dos despedimentos colectivos e restruturações (Porto de Lisboa, GALP, TAP, Groundforce). Adormecido pela música da geringonça os sindicatos não actuavam com greves radicais, pelo contrário, perdiam horas em audições parlamentares.

Como a TAP se transformou num casino? Com uma gestão privada que abria rotas sem sentido, comprava aviões com dívida garantida pelo Estado, e pagava, à maioria dos trabalhadores, mal e em regime frequente de subcontratação. Essa dívida, acumulada muito antes da pandemia, ficou agora nas nossas mãos, e a proposta é despedir todos, fazer rotas regionais e entregar as lucrativas à Lufthansa, a empresa alemã, país que impediu Portugal de ajudar a TAP em 2008 e que também detém os bancos que emprestam o dinheiro para comprar os aviões que eles fabricam. Eis o resumo. Costa e Pedro Nuno Santos, e Marcelo, são a face actual de um país que há 4 décadas disse a “Europa connosco”e que vê o país transformado num pagador de dívida pública, público é o pagamento, o recebimento é sempre privado. 25% de cortes é a chinenização do país, o que aliás vai ser um bálsamo para a economia alemã, que não precisa de ir ao extremo oriente para comprar forca de trabalho miserável.

Para compreender o que se passa com a Groundforce é preciso ir ao passado. Mas é preciso começar pelo óbvio – o direito ao trabalho. O trabalho não pode ser um privilégio de quem consegue pelos colégios que frequentou, formação familiar, etc não estar sujeito aos ânimos de empresários e do mercado que lhe compra o trabalho. O trabalhador não pode ser uma mercadoria dispensável. Temos um país confinado sem democracia para “salvar vidas”, que não se salvam, mas achamos muito natural ter 1 milhão de desempregados que perderam o direito a viver. Podem,, alguns, mendigar, e ir pelo mundo oferecer a sua força de trabalho. O trabalho define-nos como ser humanos – diz-me como trabalhas dir-te-ei que és. Foi pelo trabalho – pensar o que fazer e fazer socialmente o que se pensa, que deixámos de ser animais, e desenvolvemos inclusive a linguagem, e com ela as emoções, afectos etc. Sem trabalho regredimos, somos tendencialmente animais, em estado católico, vegetal, depressivo. É como o oxigénio – essencial à vida, não pode estar dependente de numa minoria que compra força de trabalho e a despede quando não dá lucro. O lucro é um privilégio com custos sociais insustentáveis, o trabalho não é um custo, trabalho produz bens para a sociedade. Esta é uma questão de princípio.

Dito isto, o que fazer com a TAP e a Groundforce? Nacionalizar? Sim, mas com quem custos, com que critérios, quem vai gerir? Com que finalidade? E o Montepio onde as acções falidas da Gropundforce estão, também nacionalizamos? E ficamos com Montepio Mau ou o Péssimo? Nacionalizar só, sem fazer exigências de abertura das contas públicas sob controlo de quem trabalha, é uma factura que os portugueses na sua maioria não estão dispostos a pagar. Insisto na minha utopia – temos 40 anos de gestão empresarial, experimentem por uma vez dar a gestão aos trabalhadores cujo interesse é manter as empresas abertas e a funcionar bem. Por uma vez na vida haver democracia dentro das empresas, ouvir quem trabalha. Esta ideia de que temos trabalhadores preguiçosos e empresários e políticos incansáveis simplesmente não encontra eco na realidade. As pessoas têm demonstrado ser muito melhores que as suas instituições. Na verdade a TAP foi destruída pela gestão profissional – e o pouco que se salva foi carregado nas costas de homens e mulheres em turnos nocturnos e salários abaixo de qualquer decência quando comparados com a Europa, trabalhos qualificados, ou pesados, com risco de vida e saúde, de alta responsabilidade na manutenção, em terra no handling, no ar a voar. A TAP são eles. O resto é um casino, que não devemos estar dispostos a pagar.

9 thoughts on “Groundforce

  1. Eu diria que a TAP foi destruída por 4 palavras que a Raquel usa: “dívida garantida pelo Estado”.
    Sem ‘skin in the game’ também eu sou gestor!

  2. A Raquel vem aqui retomar a velha narrativa de Engels sobre a humanização do macaco pelo trabalho, história hoje desacreditada pelas diversas ciências. Insiste na mesma linha de pensamento que a linguagem é oriunda do trabalho, pensamento também equivocado, pois a origem da linguagem falada é reconhecidamente característica dos instintos sociais e socializantes do ser humano, do seu ADN, das inerentes adaptações físicas do seu “aparelho fonador” e das áreas do cortex a tal destinadas.
    Qualquer que seja a concepção e definição de Trabalho (>Tripalium=instrumento de tortura), é com certeza louvável a sua defesa do trabalho e da sua alegada “centralidade”, mas creio que talvez se prestasse um melhor serviços aos trabalhadores que diz defender, se se debruçasse sobre as reais condições laborais de hoje e do futuro próximo. Não é preciso ser especialista em história dos conflitos laborais para se compreender que actualmente o trabalho desempenha um papel cada vez mais reduzido na economia global. Se o trabalho humanizasse, os escravos seriam os mais humanos de todos e as trabalhoras texteis do BanglaDesh que dormem no meio das máquinas por não ganharem para os transportes, seriam também muito humanas.
    Isto para dizer que o trabalho pode libertar (artistas, p. ex.), mas também pode escravizar e até matar. Nunca houve tanta gente sem trabalho e por oposição, os que ainda têm trabalho, nunca tiveram de trabalhar tanto.
    Os lucros obscenos dos grandes jogadores dos casinos bolsistas só podem fazer sorrir a quem assevera que “toda a riqueza vem do trabalho”.
    Porque será?????????????

  3. Esta gostei :(…)”Adormecido pela música da geringonça os sindicatos não actuavam com greves radicais, pelo contrário, perdiam horas em audições parlamentares”!

  4. O desemprego é uma opção da sociedade, uma opção imoral e desonrosa, nenhuma conversa é séria quando tem como ponto de partida a desonestidade. Não nos tornamos melhores quando aprendemos a praticar o bem, a prática não é uma absolvição, os não livres não salvam os outros talvez nem salvem ninguém, são um conjunto de almas impenetráveis e vazias. O emprego que conhecemos não define ninguém, o orgulho na natureza morta é uma perigosa e inaceitável perversão. O trabalho como punição é a copiosa condenação a que estão sujeitos os que merecem sofrer, a dor é uma forma de justiça, é o ultimo pagamento, a derradeira retribuição.

  5. Mais uma vez, Drª Raquel, certeira e assertiva. Os buracos negros na economia não aparecem por acaso, e é sempre bom e útil esclarecermos as razões por detrás desses “fenómenos”.

    Cada macaco no (com o) seu galho! Cada um no seu lugar e na sua função é muito importante para a existência de todos, quer na selva, quer na civilização. Independentemente das diferenças óbvias para todos, e ainda mais para a Ciência, é indiscutivelmente reconhecido, pela via da História da Humanidade e das várias ciências, que o Homem e o macaco partilham muito mais do ADN do que muitos pensam – ambos têm necessidades, gostos, vontades e ambições, e ambos sabem que para as satisfazer ou alcançar têm de fazer algo: trabalham para sobreviver, dividem tarefas e responsabilidades dentro das suas famílias e grupos sociais, têm instintos, pensamentos e emoções, socializam e estabelecem relações entre si, comunicam entre si na sua própria linguagem e partilham a Natureza e o meio que os rodeia. Ambos precisam de viver, brincar e trabalhar em grupo/sociedade. Ambos desejam viver em paz e ser felizes. Nisto, não somos diferentes, mesmo depois de tantos milhares de anos de evolução.
    A diferença poderá estar nas estratégias ou nos meios como ambos queremos atingir os fins. Se a inteligência deveria suavizar os instintos, selecionar os meios e travar as ambições desenfreadas, se a racionalidade deveria trazer a luz e a razão à irracionalidade, se o primitivo e o selvagem deveriam ser agora apenas uma sombra indelével no moderno e no civilizado, e se viver deveria significar mais do que sobreviver, neste momento da História, neste Presente em que vivo, não consigo compreender como há homens e mulheres capazes de ignorar ou de não compreender o tanto que partilhamos e o tão pouco que nos separa dos outros animais.
    Se, por várias razões, os galhos não chegam para todos os macacos, e se só alguns chegam aos melhores frutos, a inteligência e a razão deveriam bastar para saber e compreender que operações simples como dividir, partilhar, acordar/negociar e cooperar seriam as melhores soluções para resolver ou minimizar problemas e as suas consequências, garantindo que todos fiquem mais felizes e em paz, sem deixar que outros vivam à mingua ou simplesmente não sobrevivam. É com base nestes princípios de raciocínio que podemos atingir fins ou lucros como a honra, a honestidade, a dignidade, o humanismo e a liberdade. Eu já vi macacos e outros animais, incluindo homens e mulheres, partilharem dessa inteligência, a qual até já é reconhecida como “inteligência emocional”.

  6. Gostei especialmente da passagem:
    “Sem trabalho regredimos, somos tendencialmente animais, em estado católico, vegetal, depressivo”

    Irra!

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