Um texto Genial – quando a ciência brilha

Este texto é genial, o melhor de toda a pandemia. Sofisticado, bem humorado. Não sou muito de usar o Genial, mas este é. Ele explica-nos porque os modelos matemáticos na base dos quais o Governo se apoiou (e escondeu) falharam com erros impressionantes – a conclusão, adianto é esta: porque a investigação científica foi automatizada. Antes de automatizarmos portos e fábricas, o que já vem a caminho, roubámos o lugar aos investigadores que saíram do terreno para as modelações computacionais desvinculadas de investigação de campo. O que era para ser feito por centenas de médicos de saúde pública e sociólogos no terreno (auxiliados pela matemática) foi feito por poucos investigadores com um computador, sem qualquer vinculação à realidade, e o resultado não podia ser pior. Nem sequer diferenciaram população de comunidades (a população não é homogénea, o contágio na Amadora não é o de uma aldeia de casas individuais).

Não encontram aqui um elogio do “quem tem a mão na massa” (livrem-nos de mais testemunhos emocionais do fim da linha!). É um elogio da ciência como relação entre estudo teórico e investigação empírica, entre teoria e práxis. Porque no século XXI para combater uma pandemia substituiu-se a relação entre conceito e evidência, teoria e domínio da realidade no terreno por “modelos computacionais”? Historicamente é a primeira grande derrota dos computadores – a demonstração cabal de que o computador não é superior ao Homem porque ele só pode dar o que lá é colocado. O que lá foi colocado foi uma amálgama de dados desvinculados da sociologia e da saúde pública e das populações e comunidades que resultou em erros grosseiros com vista a dar um verniz científico aos erros catastróficos de governos que em 30 anos de neoliberalismo destruíram os serviços públicos. Naturalmente que nem todos os matemáticos são aqui visados, é uma ciência notável, a descrição que aqui se visa é a dos que acreditam que a máquina veio para dominar o Homem. E que nós não somos os actores da história.

O texto é do biólogo João Martins, com quem tenho trocado uma correspondência regular este ano. O João está aposentado e conhecemo-nos assim, por carta, à moda antiga. De lá para cá trocámos centenas de escritos. Foi uma das coisas desta pandemia que levo para a vida, esta amizade epistolar. O que aprendi com ele tem o valor raro do conhecimento e do pensamento crítico, caríssimo nos dias de hoje. Publico-o com a sua autorização.

“Estudos: o que é isso? Permita-me uma digressão logo no início, que me parece que também lhe dará que pensar (no dossier “malefícios dos ecrãs”). Problema grave, uma patologia da ciência. A Física em muitos momentos da sua história evoluiu através de “thought experiments”, dispositivos experimentais imaginados que obedeciam às leis da natureza e em que se propunha a observação de determinado fenómeno (um dos mais conhecidos e citados, por vezes com tanta ignorância como quando se diz que “está no seu DNA”, é o do gato de Schrödinger). Independentemente das escolas filosóficas e das suas alianças à ciência física no séc. XX, a essas experiências “mentais” seguia-se um confronto com a realidade concreta.

Exemplo: a verificação da teoria de Einstein sobre a massa causar uma curvatura no espaço-tempo com observações feitas sobre o eclipse do Sol de 1919.Nas ciências menos “duras”, como a Biologia, usa-se também um “método” (tenho relutância em usar esta palavra neste contexto) análogo: depois das observações “in vivo”, seja no organismo em estudo, seja num outro parecido com ele (por exemplo: estudar a fisiologia humana usando outros mamíferos) passou-se, quando se tornou tecnicamente possível, à experimentação “in vitro”, em laboratório, tanto usando organismos desgarrados do seu ambiente (por exemplo, culturas de bactérias) como, ainda mais recentemente, em sistemas acelulares, isto é, em “tubos de ensaio” (ou outros dispositivos) em que já não estão presentes organismos completos mas apenas o seu “extracto” bioquímico.

Estes sistemas servem para estudar certos pormenores do metabolismo, aspectos da enzimologia, etc. Na Ecologia, também se usam “microcosmos” (por exemplo: uma “piscina” onde se colocam diversas algas e animais para estudar as suas interacções). Claro que a Biologia só evolui(u) quando estas experiências “in vitro” e em microcosmos passaram pelo confronto com a realidade concreta.Só que, a certa altura, deixaram de passar. Foi depois de um especialista informático desenvolver uma”metodologia” para criar “autómatos celulares” que representariam o “funcionamento” dos organismos vivos num computador, através de programas adequados (atenção, aqui introduzi sub-repticiamente uma noção que não defini, “programas adequados”). Seria interessante para estudar “in silico” (no silício dos microprocessadores) o desenvolvimento de medicamentos, por exemplo. Isto foi pelo fim dos 1980s ou no início dos 1990s.

Evidentemente que se tratava de “thought experiments” que, naturalmente, teriam que ser verificados em “modelos animais” antes de serem testados em humanos para, finalmente, se promover a sua utilização no dia-a-dia terapêutico.Só que, as capacidades dos computadores aumentaram muito, rapidamente apareceram programas para, com procedimentos simples (em geral, gráficos) construir conjuntos (conjuntos de “caixas” (ou “estados”) ligados por tubos com “torneiras” (ou “taxas” de fluxo), sem que o operador tivesse que se preocupar com a tarefa de “equacionar”, ou “pôr em equação” o problema ou sistema que estava a estudar: tudo os programas resolviam/resolvem numericamente. Ou seja, a-teoricamente: não se trata de encontrar a relação “formal” entre estados (que se representa por uma equação) e partir daí para verificar se essa relação existe na realidade concreta, basta que haja uma tabuada que articule as grandezas de causa com as de efeito por qualquer meio.Depois, apareceu a “operacionalização” desta ideia e o seu desenvolvimento numa aberração epistemológica. Os amigos dos animais decidiram “lobbyar” para se acabar com o teste em animais, primeiro de cosméticos e mais tarde de medicamentos: os resultados “in silico” chegam, dizem eles.

Obviamente, o proponente da ideia, há três décadas, sabia perfeitamente que um programa só deita cá para fora aquilo que pusemos dentro dele; portanto, como o nosso conhecimento da natureza é limitado, os resultados são limitados ao âmbito desse conhecimento; mas isso não sabem os “amigos dos animais”. Depois, apareceu uma espécie de “penso rápido” para esconder esta aberração, na medicina, a “evidence based medicine”: se a estatística diz que resulta, aplique-se; mesmo que se não saiba que meios materiais fazem com que a coisa resulte. Claramente, eu não entraria num avião para fazer uma viagem se ele tivesse sido construído com base numa “evidence based engineering” em vez de ter como base o conhecimento das leis da Física.E, evidentemente, apareceu a “ecologia” “in silico”: sai mais barato os investigadores estarem sentados a olhar para os resultados de “modelos” do que andar na natureza a contar bichos ou plantas, a medir taxas fotossintéticas, etc. E assim surge a base do que chamam “ciência do clima”: tudo se passa “in silico”, sem sequer olhar para a realidade concreta. O que levou o Guterres a molhar as calças numa ilha do Pacífico para “mostrar” que o nível do mar está a subir, como se a boa fita métrica da Física fosse o tamanho das pernas do Guterres, sem se preocupar com perguntar onde estava o nível do mar naquela ilha há 20, 30, 50, 100 anos, o que despromoveria o seu número de circo do nível cómico para o do grotesco: a dita ilha não mudou de tamanho, não se afundou nada desde, pelo menos, a Segunda Guerra.

Donde, para terminar a digressão: do meu ponto de vista, o maior malefício dos “computadores” é educar-se os seus utilizadores a não saberem distinguir entre realidade e ficção, entre o que acontece na natureza concreta e o que apenas acontece num a fábula programada “in silico”. “Chapeau” a Woody Allen pela “Rosa púrpura do Cairo” e, claro, ao “Homem com a câmara de filmar” de Dziga Verov (a quem a “Rosa…” faz uma homenagem quando o personagem, como o motociclista de Vertov, salta do ecrã para a sala): parece que estava a adivinhar o que iria acontecer à ciência: os cientistas passarem a julgar que é reaal aquilo que veem no ecrã do cinema…

“Estudos” sobre a C19, como sabe, foram publicados muitos, muitas centenas. Na generalidade, lixo: uma grande parte, são apenas opinativos, sem base material, sem observação empírica; outros, assumem outra forma de ser opinativo: são resultados de “modelos”. Peneirando, sobra pouca coisa (uma dezenas de bons trabalhos científicos).Contágio. Na sequência do que disse: o que é isso? Se olhar para a bibliografia científica, para os jornais e televisões e para as declarações dos mais diversos “especialistas”, é uma coisa que se “mede” pelo Rt, ou R-qualquer-coisa. Ou seja, o produto de um “modelo”. A “verificação” empírica faz-se, segundo estes sábios, comparando datas e curvas em gráficos; “in silico”, portanto. Mais uma vez, peneirando a informação, resta pouca coisa que se possa classificar como “científica”.

Respondendo à sua pergunta: há algumas coisas sobre contágio nas escolas. Até cá em Portugal, na “testagem massiva” de alunos antes de fecharem as escolas e de professores e restante pessoal das que ficaram abertas: leia o artigo do Público de 17 de Fevereiro (o DN publicou um mais detalhado, que agora não encontrei):”Os quase 16 mil testes rápidos de antigénio que foram realizados em escolas desde finais de Janeiro permitiram identificar 50 casos de infecção pelo novo coronavírus entre alunos, professores e funcionários. As análises foram feitas, numa primeira fase, nos concelhos que estavam classificados como de risco ?extremamente elevado? e, mais recentemente, nas escolas de acolhimento para os filhos dos profissionais essenciais, que se mantiveram abertas.”Quase 16 mil testes deram 50 positivos, nas escolas que ficaram abertas. Isso diz tudo.

Por outro lado, há o que lhe indiquei sobre as escolas escocesas:Sharing a household with children and risk of COVID-19: a study of over 300,000 adults living in healthcare worker households in Scotland https://www.medrxiv.org/con…/10.1101/2020.09.21.20196428v2

Saliento estes dois casos porque não são resultados obtidos “in silico”, não tratam de “Rt” nem de outras bruxarias: tratam de casos concretos, de pessoas concretas observadas de facto. Perante isto, quero lá saber dos valores dos “Rt”!Escavando um pouco mais o assunto: “estudos”, como classicamente os entendemos, creio que não foram feitos. Há vários anteriores, sobre as epidemias de influenza. Seria preciso estabelecer um protocolo de observações, realizar os inquéritos para saber como se deram os contágios (se dentro da escola ou em outros lugares), etc. Suponho que não tenha sido feito nada parecido. No entanto, a prevalência na população é evidência bastante para concluir que as escolas abertas não são perigosas.Pronto. Foi um bocado longo. Espero ter-lhe dado matéria para pensar não só no tema (escolas) mas também nos seus “arredores”.

Um abraço

João Martins, biólogo

7 thoughts on “Um texto Genial – quando a ciência brilha

  1. Concordo inteiramente com a Raquel. Este texto é brilhante e também extremamente oportuno, estando de parabéns o João, como cientista e como cidadão que teve a coragem de afrontar o estafado discurso mainstream para colocar as coisas no lugar.
    Começo no entanto por discordar das primeira frase alusiva à derrota dos computadores. Aliás, mais adiante, o próprio texto evidencia que quem foram derrotados foram os pseudocientistas, de modo nenhum os computadores, até porque estes sequer são derrotáveis, como ferramentas que deveriam ser.
    É muito raro encontrar um cientista que vem remeter os modelos computacionais ao lugar onde sempre se deveriam situar, ou seja, ferramentas, utensílios, auxiliares e nunca o cerne as investigações ou até das conclusões. Como muito bem sublinha várias vezes o João, o modelo não vale mais nem menos do que os dados e sobretudo os pressupostos que lá se põem. Para esses pseudocientistas idealizantes de uma realidade substituta, a realidade objectiva e factual sequer existe ou tem qualquer interesse.
    Infelizmente, é um fenómeno comum que se tem estendido a outros ramos do pensamento científico, contaminando muitas conclusões. Provavelmente, deve ser essa a principal razão pela qual mesmo os mais famosos economistas mainstream são totalmente incapazes de prever as crises mais óbvias.

  2. Brilhante, indeed!

    Este excerto foi uma pequena ‘realisation’:
    “um programa só deita cá para fora aquilo que pusemos dentro dele; portanto, como o nosso conhecimento da natureza é limitado, os resultados são limitados ao âmbito desse conhecimento”

  3. E é isto, tudo dito com a maior das racionalidades, com uma base sólida de argumentação e conhecimento. Penso que vivemos uma crise no mundo dos “especialistas” e das “especializações”. Se eu fosse responsável por uma grande instituição ou empresa gostaria de ter ao serviço os melhores especialistas, mas fundamentalmente, gostaria que esses especialistas fossem coordenados pelos melhores “não especialistas”, por pessoas dotadas de lucidez, de espírito crítico, de uma elevada inteligência emocional e de um conhecimento transversal e potenciador dos contributos de todas as áreas. Infelizmente, isso está a desaparecer. Temos cada vez mais a arrogância de especialistas presos a nichos de conhecimento a preencher o espaço público e a desvirtuar a discussão e a procura de soluções para problemas de enorme complexidade. Isso cega a própria construção da realidade e as suas idiossincrasias.

    De facto, este tipo de ciência informatizada (é preciso dizê-lo), por si só, vale tanto ou menos que uma crença qualquer. As crenças, pelo menos, podem ser discutidas, ao contrário da rigidez imposta pelos modelos descritos na peça apresentada, pelo que produzem. Por exemplo, tenho a crença (mesmo sem estudos) que usar máscara ao ar livre é absolutamente irrelevante. É o que me diz a leitura que faço da realidade, da experiência, da comparação de dados do antes e depois da sua obrigatoriedade em Portugal e da comparação que faço entre os países que a usam e os que não usam. Por muitos estudos que esta nova ciência computacional arrogante e algorítmica me apresente, continuarei a dar preferência ao pensamento lógico e crítico, à observação das pessoas a das suas interações no dia-a-dia, portanto, àquilo que é humano e comportamental, ao invés da rigidez da máquina. Resta saber se em breve, por este caminho, não nos tornaremos nós mais automatizados e vazios de inteligência emocional do que os próprios computadores e máquinas.

  4. Acredito no brilho do olhar

    Brilhante! Não me refiro à tecnologia, mas ao cérebro humano, à sua sensibilidade e inteligência que nenhuma tecnologia é capaz de substituir e de suplantar. E é tanto mais genial e brilhante quanto mais motivado naquilo em que acredita. Como melhor nos explica o biólogo João Martins, se a tecnologia funciona e subsiste, para o bem e para o mal, aos homens e mulheres que a criam e programam à luz das suas crenças tudo isso devemos. Só acho que não lhe devemos submissão e obediência cegas, como se a Vida e o Mundo estivessem contidos nela, como se para gostar das coisas e das pessoas, interagir e relacionar-me com elas, descobrir e aprender, e para ser feliz eu tenha de o fazer através dos ecrãs e acreditar piamente nas suas verdades. Sim, claro, é apenas mais uma ferramenta à qual reconheço muitas e grandes vantagens em várias áreas do conhecimento e da vida em sociedade, mesmo à distância de uns cliques (como ter lido o que acabei de ler e estar aqui a escrever e a partilhar a minha experiência e a minha opinião), mas nenhuma delas é igual ou maior do que a beleza e a felicidade que experimento quando folheio um livro, lhe sinto o cheiro e me lanço a ele com vontade de o “devorar”, quando olho os outros nos olhos, os beijo e abraço, quando com eles converso e lhes confesso o que me vai na alma, quando meto as mãos na terra para semear e plantar o milagre da vida, ou para observar fora do vidro e da caixa todas as criaturas que me convidam a entrar na floresta quando vou caminhar e procurar aquela tranquilidade e inspiração que não encontro em nenhuma rede virtual ou “modelo programado”, “in silico” ou nos “tubos de ensaio”. É como se o meu cordão umbilical continuasse firmemente ligado aos meus antepassados e à Mãe-Natureza que me criou. É de humanismo que precisamos, e não mais maquinismo.
    Muito antes das “novas tecnologias” (por oposição às “velhas”, como um lápis e a mão?) – quando os nossos antepassados viviam à luz da tocha e depois da vela, apenas confiavam nos seus olhos, ouvidos, nariz, boca e mãos, na sua força braçal, na sua resiliência e humildade, na sua imaginação e sensibilidade, nas histórias e aventuras contadas pelos outros, bem como na sua imensa cultura e sabedoria pela curiosidade, observação e experimentação da realidade – fizeram-se muitas descobertas e criaram-se muitas obras que sem elas não teríamos chegado onde tão orgulhosamente afirmamos ter chegado. Mas até onde é que chegamos, na realidade? Era isto que ambicionávamos? É neste rumo que vamos continuar? Para onde? Quanto nos vai continuar a custar em vidas, recursos naturais e felicidade se continuarmos teimosamente pelo mesmo caminho egoísta, materialista, consumista e desumano?
    Se não fosse o “método” da dúvida dos espíritos inquietos, o génio da curiosidade e da busca pelo menos óbvio, a necessidade que aguça o engenho, perderíamos o foco, o cerne, a essência das coisas, que é simples de compreender mas, paradoxalmente, à força de tanto quererem escondê-la ou omiti-la, descobri-la para a luz do dia vai dar mais luta e mais trabalho (para os políticos e economistas só vai custar muito dinheiro e umas quantas chatices indesejáveis). A verdade das coisas pode doer e até ser assustadora e traumática para alguns, mas é sempre preferível enfrentá-la do que viver na ignorância. É como escolher o caminho mais fácil para chegar a algum lado, mas depois perde-se a oportunidade de viver uma experiência e uma aventura mais interessante e desafiadora, uma nova descoberta sobre ti, os outros e as coisas que te rodeiam, uma tentativa de superar os nossos medos e fazer-lhes frente, dando-lhes a volta. Posso sentar-me confortavelmente a ler jornais, revistas e a ver televisão ou pesquisar na internet. Não digo que não seja bom e importante, também o faço, mas questiono-me frequentemente sobre a aparência do pacote fantástico, sensacional, espetacular e fácil que nos querem oferecer. A cientista de origem polaca, mas que acabou por se mudar para França, Marie Curie, inspirou-me quando um dia, ainda adolescente, li sobre ela e percebi que nada devemos recear, mas antes compreender. Como nos idos anos 70 do século passado, tempos da escola primária, do ciclo preparatório e do ciclo básico unificado em que, apesar de na época não ser obrigatório para todos, tínhamos um ensino-aprendizagem experimental e muito manual. Lembro-me das divertidas e saudáveis “saídas de campo”, da recolha de exemplares de fauna e flora, dos registos dos dados observados, das aulas práticas no laboratório de Ciências, de observar e dissecar rãs, minhocas, fígados de porco, cortar e segmentar plantas, comparar características semelhantes e diferentes, usar o método cientifico, colocar hipóteses, experimentar, errar, experimentar de novo, e fazer os relatórios das experiências. Investíamos todos os sentidos e capacidades, a motricidade fina e grossa das nossas mãos com os trabalhos manuais. Até aprendi a bordar, a construir objetos em madeira e metal, e a fazer ligações de eletricidade! Estávamos sempre ansiosos por essas aulas e tudo parecia mais motivador, e fácil de aprender. Recordo as caras estranhas e assustadas de alguns colegas mais “sensíveis” e dos comentários arrepiantes que faziam! “Estranhar para depois entranhar” dizia o professor. Era o método “mágico” de descobrir e aprender, e quanto a mim, o mais eficaz.
    Tenho saudades de ver isto nas escolas! Dizem-me sempre que é por falta de dinheiro! Há muitos anos que nada disto acontece, geração após geração. Há muitos anos que nada ou muito pouco é natural, real, genuíno e brilhante. Há muitos anos que vivemos alienados pela ficção, pelo virtual, pelos ecrãs filtradores da realidade e castradores da nossa consciência e criatividade. Passou a ser mais fácil clicar com um dedo e imprimir um desenho do que usar um lápis e um lápis de cor para criar o desenho e o colorir com a imaginação; fazer uma operação aritmética ou um cálculo matemático simples com a calculadora é mais rápido e fácil do que usar a “máquina” cérebro; ter uma opinião resume-se cada vez mais a plagiar as opiniões dos outros ou, com algum esforço, dizer “Acho que sim/Acho que não/Sim, também acho/Não sei bem… acho que concordo/…” É tempo demais a acreditar que esta é a única e a melhor maneira de conhecer, aprender, brilhar e ser feliz. O que está a falhar? Será por falta de tempo, dinheiro, apetite ou vontade? Será por causa do frio, do calor, da chuva ou do sol a mais? Ou será por falta daquele brilho no olhar/ver as coisas?

  5. Pingback: Sobre “Estudos” e “Verdades Científicas” | LiFe TiDeS

  6. Pingback: Um texto Genial – quando a ciência brilha — Raquel Varela – Museu Educação Diversidade

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s