Não estamos todos no mesmo barco

Este mapa de Madrid mostra a taxa de mortalidade consoante a classe social por bairro, trata-se da mortalidade estatística apurada em 1996-2015. Enviei-o ao João Martins, biólogo com quem tenho uma correspondência regular e que me respondeu este comentário, que aqui publico com a sua autorização. Não estamos todos no mesmo barco, há uns a apanhar sol, outros no porão.

“Viva, fascinante!O Googleearth é uma grande invenção, fui ver (“apalpar a semântica da coisa”) a que correspondiam as diferenças. Em Madrid, de um lado do Paseo de la Castellana, Chamartín, com pouca mortalidade; distrito de boa qualidade, com muitas infraestruturas, departamentos administrativos, uma renovação recente que lá construiu enormes arranha-céus. Claramente habitado por gente bem na vida e de meia idade. Em 2016, o PP arrecadou 51 % dos votos, o Ciudadanos 14%, foram os dois mais votados; densidade de população, 15600 h/km2. Do outro lado da Castellana, com a mais alta mortalidade, o distrito de Tetuán, mais ou menos com a mesma área, mas com quase o dobro da densidade de população, 28600 h/km2. Bairro de casas pequenas, urbanização “tradicional”, sem grandes rasgos. Nível económico médio-baixo, com elevado número de idosos (cito da Wikipedia); um dos distritos com mais população estrangeira, cerca de 14 %, equatorianos, dominicanos, marroquinos, colombianos, filipinos e peruanos (ibidem). Nas eleições de 2016, os três mais votados foram o PP (33 %), o Podemos (23 %) e o PSOE (22 %).Semelhante exercício se pode fazer para a antiga “cintura popular”, Malasaña-Chueca-Lavapiés-Latina/Carabanchel: são compostos por bairros onde vive uma população envelhecida; a renovação (uma espécie de “Recria”) tem progredido lentamente, e não levou para lá uma grande proporção de habitantes mais jovens. A NE de Chamartín, no distrito de Hortaleza, morre-se menos no bairro de vivendas com jardim do que no bairro com blocos de habitação. Morre-se mais nos bairros mais antigos do que nas novas urbanizações.

Fiz o mesmo exercício para outras cidades, de que conheço alguma coisa. Impressionante!”

https://elpais.com/ciencia/2021-02-19/el-mapa-de-la-mortalidad-barrio-a-barrio-en-espana-revela-enormes-desigualdades-incluso-en-la-misma-calle.html

3 thoughts on “Não estamos todos no mesmo barco

  1. Esperamos que a comunicação social, neste caso a RTP, paga com os nossos impostos faça um trabalho de investigação, eu sei. que exirem excelentes jornalistas nessa área…

  2. Boa tarde, Raquel, acho que um dos meus grandes problemas reside no facto de achar que há verdades tão inequívocas que nem sequer precisam de ser denunciadas, tal a evidência. Seja qual for o tipo de doença ou surto que surja atingirá sempre os mais pobres. Alimentam-se pior, não vão ao ginásio com frequência, vivem em casas demasiado apertadas e condicionadas… A desigualdade é o maior flagelo da humanidade e para essa doença não há vacina ou antídoto disponíveis. Se o estudo fosse feito em Portugal, os resultados seriam exatamente os mesmos.

  3. Impressionantemente triste! Diz-me onde moras e dir-te-ei quem és! É verdade que os barcos não são iguais para todos (iate para os ricos), que há lugares de/para classes diferentes, e há até muitos que nem barco têm! Quem não viu o filme do famoso navio quase inafundável, “Titanic”, de
    James Cameron (1997)? Por muitos anos ou séculos que passem, continuamos a assistir ao mesmo filme dramático – os barcos salva-vidas só eram para os ricos que viajavam em 1ª e 2ª classes. E ainda a propósito de analogias, lembrei-me daquela senhora Presidente da Câmara de Almada, quando tentou desvalorizar os problemas de um determinado bairro da margem sul, afirmando que até tinha inveja de quem lá morava, que nem se importaria de morar lá porque as vistas eram maravilhosas! Pois então, do que está à espera para ser mais feliz? Já agora, é curioso perceber que os ricos e poderosos têm sempre uma ideia romântica sobre os mais pobres e as suas vidas porque acham que não têm problemas graves e vivem o dia a dia, simplesmente. Mas não pensem que isto só acontece agora! Até o rei Inglês, Henry VIII, no século XVI, a propósito das mulheres que lhe arranjavam para casar, e sobretudo quando ele as conhecia e não gostava de alguma, barafustava desgostosamente porque achava que os pobres eram mais felizes por poderem escolher as mulheres com quem queriam casar! Coitado do pobre e infeliz rei, até era verdade, mas só tinham direito a isso e muito pouco mais.
    Drª Raquel, existe algum estudo como esse sobre Portugal? Gostaria muito de ler. É verdade que sempre se verificou uma relação forte e direta entre as condições de vida das populações e a sua qualidade de vida. Valores como a felicidade, a alegria, o sucesso, a segurança e a riqueza não estão acessíveis a todos por muito que trabalhemos, e cada vez até mais tarde, e desejemos alcançar, por direito. Basta ver a escandalosa quantidade de riqueza concentrada nos bolsos de algumas famílias/empresas/… em Portugal e no Mundo. Todos os dias lemos e ouvimos notícias reais (nem tudo é fake!) de gente poderosa que rouba aos pobres para dar aos ricos, qual Robin Hood dos tempos modernos! Já se fosse ao contrário, os ricos não iriam achar piada! Ficariam indignados, furiosos, sentir-se-iam injustiçados por trabalharem tanto e pagarem taxas e impostos ficando reduzidos a um emagrecido salário mínimo e, em muitos casos, serem enganados, explorados, despojados, despejados, despedidos, desempregados e discriminados. Ora, tratando-se de pessoas, de vidas humanas, dos seus direitos, nomeadamente o direito a uma existência digna e de qualidade, em que as mais elementares necessidades – educação, saúde, trabalho, justiça, lazer – deveriam estar asseguradas para todos, ao longo das suas vidas, em todas as idades, nunca será demais denunciar e debater as tremendas diferenças e assimetrias entre localidades, regiões e populações, que se arrastam há décadas, no nosso país. Muitos dos nossos políticos e governantes, posando para a fotografia, gostam de salientar, orgulhosamente, apenas os progressos e melhorias. De acordo, mas bem vistas as coisas, não serão apenas gotas no oceano dos quase 47 anos de democracia? Neste oceano em que navegamos ainda não há barcos para todos (iates são só para alguns), há velhos barcos podres e abandonados, outros ainda vão navegando com alguns remendos, e muitos já se afundaram. E como se não bastasse, tinha de aparecer um bicho terrível para nos dar o golpe de misericórdia! Será que ainda há quem ache que a culpa do naufrágio do Titanic foram os icebergs e o nevoeiro e não as várias falhas e lacunas do navio, bem como os alarmes de outros barcos sobre a existência dos gelos, mas que acabaram por ser desvalorizados?

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