A votação no Chega, notas para reflexão

Sobre a votação no Chega, curtas notas.Há a ideia de senso comum que o voto na extrema-direita é fascista, popular e até operário. Todas, creio, estão equivocadas.

É preciso distinguir o projecto político da direcção do Chega dos seus votos. O Chega é indiscutivelmente um Partido fascista, mas a sua base eleitoral é confusa, eclética e dispersa. Tão pouco se pode falar de uma base social (militância) de 500 mil votos. O que existe é base eleitoral de 500 mil votos, e essa é volátil. Muitos do que votam neste Partido fazem-no, de forma equivocada, porque acreditam que é preciso uma ruptura com um sistema que não consegue reformar-se e trazer bem estar. Que não consegue reforma-se é verdade, mas toda a mentira tem uma parte de verdade. O Chega é parte desse declínio do “sistema”, é a sua dimensão mais obscura. A ruptura com algo errado tem que ser construtiva, humanista e solidária, nunca pode vir de uma direcção cujo programa político é a violência, a eliminação por ameaça e brutalidade dos adversários. A proposta do Chega contra o “sistema” é piorar todos os males do “sistema”: competição, desemprego, nacionalismo, desigualdade, corrupção, favores, é o salve-se quem puder.

No seu Programa está a o fim das carreiras na função pública, a privatização das escolas e do SNS, o fim dos direitos do trabalho, a manutenção do pagamento da dívida pública – é o sistema, no seu pior. Na França de Le Pen insistiam na ideia de que tinham havido uma transferência de voto dos comunistas para a extrema-direita. Porém, estudos recentes, demonstram que a maioria do voto dos comunistas foi para a abstenção – os operários, trabalhadores e intelectuais não se revêm em nenhum dos partidos, abstêm-se, mas não votam maioritariamente na extrema-direita direita, cuja base social são sectores das elites, e a pequena burguesia e classe média empobrecida. Em Portugal olhando para o rendimento das freguesias onde esse voto se deu é muito provável que seja algo semelhante, mas não há ainda estudos qualitativos que permitam concluir. Isto não significa que não haja sectores operários, ainda que minoritários, que tenham apoiado o Chega – tudo indica que é no entanto uma minoria dos 500 mil.O Chega foi levado ao colo pelos media, à procura de likes na crise do jornalismo. Na verdade nem Joacine nem o deputada da IL, tiveram o palco que o Chega tem e teve. O PCP, com 40 anos de história em democracia e vários deputados tem muito menos audiência que o Chega.

André Ventura é, em parte, uma criação dos media, que na busca de enfrentar a sua própria crise querem as audiências das declarações bárbaras do Chega. 500 mil votos são muitos votos. Há uma força eleitoral que pode transfomar-se em social – o convite à deportação de Mamadou Ba; o voto de pesar a Marcelino da Mata; tudo isto são epifenómenos de um mal que veio para ficar, até que o movimento sindical e a esquerda saiam da sua crise, gigantesca, em que desistiram de ser oposição. Perguntam-me: e a direita clássica não é uma barreira ao Chega? Pelos vistos não – há uma direitização do PSD, e do PS (voto em Marcelo), ou seja, um Partido irrelevante com um líder rude a gritar e dizer banalidades ofensivas consegue arrastar para a direita os partidos de centro. Isto é a consequência, na minha opinião, da Geringonça, ou seja, do abraço de urso que o PS deu ao BE e ao PCP, deixando há muito Portugal sem uma oposição de esquerda que cumpra os mínimos.

Há um mal estar geral da população com os governos, o Estado e até o regime – isso é verdadeiro e não pode ser ignorado. Tem que se defender alternativas, em vez de ignorar o sofrimentos das pessoas, deixando-as sem alternativa. O Chega é parte do problema, mas a esquerda que foi para o banco assistir aos jogos queixar-se dos que jogam, não consegue assim ser parte da solução. Se a equipa adversária ganha é porque ela jogou bem e nós mal. Mais auto crítica, menos auto comiseração, é o que a esquerda precisa, porque estes anos de governo PS foram de austeridade e de ausência de respostas, a vida das pessoas não melhorou, e a esquerda PS e BE apoiou este processo sempre contra o papão da direita. O papão chegou, a surfar a crise. Com uma equipa sentada no banco a ver o Chega jogar, este não será derrotado. E a sua derrota é hoje parte da escolha essencial – queremos ou não ser um país civilizado. Não podemos continuar a jogar no “mal menor” – a política tem que ser sonho, mudança, transformação, o bem melhor.

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5 thoughts on “A votação no Chega, notas para reflexão

  1. O Chega é um partido fascista. Axioma falso que a Raquel insiste em repetir até à exaustão mas que choca com a realidade. Porquê manter esta falsidade histórica? Ver quem sabe: Emilio Gentile

  2. Saúdo a Raquel por ter ido ao fundo do problema. Claro que o Chega é partido fascista SIM! Óbvio que não é um fac simile dos camisas negras nem dos camisas castanhas, mas não é menos fascista por isso em todos os detalhes. Um fascismo de hoje naturalmente e não dos anos 30.
    Sobre a votação no dito que me parece tende a aumentar nas próximas legislativas, direi não acreditar que de repente 500 mil tugas viraram fascistas. Parece-me absurdo. Não há estudos sociológicos, é verdade. Mas já foram feitos na Alemanha e concluiu-se que grande parte dos votantes na extrema-direita o fizeram, não por serem ou defenderem o nazismo, mas por esses partidos serem os que mais se opõem às políticas do governo que a população ali rejeita, como apoio aos imigrantes, etc.
    Em Portugal, creio ser um fenómeno semelhante. O voto no dito foi de facto um voto de protesto por parte de pessoas que não acompanham o “costismo” e consideraram que a melhor maneira de se oporem seria essa. Mas aos 12% do dito teremos de somar os 60% de abstencionistas militantes, atingindo portanto cerca de 70% do eleitorado os que não apoiam o sistema. Só uma fracção dos 30% restantes votou no professor, ou seja, uma clara minoria.
    A Raquel tem ainda razão ao afirmar que a esquerda está sentado no muro há muito tempo.
    Porque será??????????

    • Está a fazer confusão com a malta estalinista e maoista, que continua saudosista daqueles genocidas e pretendem ser a sua continuação. para isso, e dado que o contexto é outro, mascaram-se de democratas e depois dão em cleptocratas, pedófilos, corruptos e autoritários, querendo impor o seu pensamento minorit´´ario e totalitário. Se formos objectivos, conseguimos distingui-los, pois defendem o extermínio, a segregação daqueles que consideram um incómodo, caso dos bebes e dos idosos. A esquerda com o seu discurso de ódio, está esgotada!

  3. O Chega é o plano B, o “cavalo de tróia”, apoiado e financiado para o efeito. A alternativa dura, bruta q.b, à manipulação cultural mais progressiva, de escalonamento mais suave em curso.
    O descontentamento com este rumo dos acontecimentos era inevitável, julgo ser fácil esta constatação, daí o surgimento de movimentos, grupos, partidos capazes de absorver esse descontentamento. Que melhor forma de o conseguir? Ora, recorrendo a métodos de sucesso já usados no passado histórico para outros eventos sociais disruptivos. Nada de novo por aqui.
    A situação ocorre através das diversas camadas da sociedade, dos grupos “arruaceiros” aos partidos políticos. Os eventos do último ano nos EUA são o melhor exemplo disso, mas por cá na Europa a situação é semelhante. É uma fórmula de sucesso, a qual os povos na sua superficial e rotineira existência, não vislumbram. Como poderiam? Da sua história pouco conhecem, a que conhecem é a que lhes entra pelos écrans lá de casa, ou a que esqueceram da lenga-lenga das salas de aula, a politicamente correta e ditada pela aceitação curricular do regime de serviço em determinada zona do planeta. Ambas, fontes alinhadas, obedientes à narrativa aceitável.
    O programa do Chega? Quantos dos 500 mil o leram? Quantos foram além da retórica?
    Que critérios de avaliação usam os milhões de descontentes, para a escolha de uma alternativa aos que são “o sistema”? Será que os têm? Aposto na emoção do momento, no raciocínio instintivo perante a frase feita, a frase da ordem apregoada em voz dura, segura e em alto tom.
    “Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”… ditado popular, ou sabedoria popular?
    Podiam ao menos tentar saber quem o financia. Se sabem, porque sabem mesmo, que os dos sistema agem em benefício dos seus patrocinadores, porque não acautelam desde logo esse critico fundamento? Epá, isso dá muito trabalho, mesmo muito.
    Querem uma voz autoritária? Ofereço-lhes esta…https://vimeo.com/401862156

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