O “novo normal”

Sobre o vídeo de ontem da violência policial disseram-me “Mas não ouviu o que o rapaz disse!?, como pode julgar?”. Vi muito pior, já lá chego.Em primeiro lugar não ouvi o que o rapaz disse à polícia, imagino que tenha sido um insulto, e num tom desafiador da ordem. E que fique claro, acho insultos algo vergonhoso, venham seja de quem for. Só entre ontem e hoje recebi duas centenas de insultos semelhantes por causa de ter escrito, e não sou um rapaz na rua a fazer algo alegadamente ilegal. Sou mulher, doutorada, professora universitária, e sou insultada pelo que escrevo, que é legal e no meu próprio mural (a minha casa). Ontem foi por supostos defensores dos polícias (que não são, já lá irei), mas há 3 meses foi por médicos fãs do famoso Dr. Carona, e há um ano pelos fãs dos animais, e há uns tempos pelas feministas do Metoo – a violência verbal é típica de uma sociedade com pouca literacia política e capacidade de organização política e sindical humanista. A difamação, o insulto, o ódio atravessa profissões e classes sociais. Mesmo assim não desatei a dar murros a reagir ao insultos.

Bloqueio as pessoas porque quero que o meu mural seja um lugar onde as pessoas se sintam bem a discordar e conversar, um café simpático, ainda será um jardim sem um único insulto à medida que apagar todos os brutos – lá chegarei. Vivemos um tempo de brutalidade e descontrolo emocional, o jovem pode ser um desses e como reagem os polícias? Da mesma forma e pior? Há um sector que é o último a ter direito a descontrolar-se quando são provocados, são os polícias. Porque estão armados e representam o Estado democrático e a obrigação de cumprir a lei acima de qualquer suspeita.

Os polícias ganham mal, vivem em condições degradadas, e têm má formação e apoio. Desde logo naturalizou-se algo impensável que é uma elevada taxa de suicídios, que muitos (e agora falo do meu trabalho nos estudos do burnout) associam ao facto de terem armas, portanto é fácil matarem-se. É a mesma explicação simplista que diz que os anestesistas se matam mais- sabem matar-se. Isso não é de todo é verdade. Ambos têm a vida dos outros na mão e isso implica, em más condições de trabalho, escolhas que levam a um intenso sofrimento ético. Que pode redundar em suicídio. O sofrimento ético não é sofrer só, é sofrer com cumplicidade, é um sofrimento interno que nos diz que fizemos algo errado mas havia uma forma de o fazer bem, se trabalhássemos em boas condições, somos cúmplices por não agir bem, por não lutar por melhores condições, nas palavras do psiquiatra Dejours, que cunhou este conceito, “somos obrigados a conspirar (sic) organizadamente contra as más condições laborais sob pena de sofrermos intensamente” – como tive ocasião de explicar no Público com o meu colega Duarte Rolo.

Um polícia tem que ter apoio, formação regular, treino psicológico para não desatar à pancada quando um jovem mal educado o aborda. É isso que devem exigir, e contam com o meu apoio. Isso é lutarem por si próprios, em vez de ir para o colo do Chega gritar contra miúdos pobres, o RSI, o cigano, todos os desgraçados desta sociedade competitiva e brutal. Ao mesmo tempo que o Sr do Chega recebe milhares de euros por mês, e nunca disse uma palavra que fosse contra os banqueiros falidos que são a causa directa dos baixos salários na polícia, também. Olho por olho, dente por dente, não é uma sociedade. É uma selva. O que propõe quem acha isto bem? Que andemos todos armados? Se há alguém que fez algo errado leva-se a um tribunal, polícias não são juizes que aplicam castigos físicos na hora como ímpeto punitivo, para salvar a honra de insultos.

“Já era assim antes do Estado de Emergência”. Não, está muito pior. Hoje a polícia tem o poder de decidir sobre direitos, liberdades e garantias que foram suspensos por este Governo. Recentemente vi, antes do confinamento do Natal, ninguém me contou, um jovem num skate Park, a polícia chegou, 6 agentes, mandaram-nos embora, um deles (por acaso disseram-me outros excelente aluno de um colégio de elite), abordou, com a maior educação (vi, e ouvi) o polícia e disse “Sr Polícia, não estamos a fazer nada de mal, e pode-se estar aqui fora”, o polícia gritou com ele, virou-o ao contrário contra uma parede, amarrou-lhe as mãos e mandou-lhe o skate ao chão com força. É o novo normal. Fica na conta de todos os que apoiam (ou se abstêm) este Estado de Emergência.

Não contam comigo, nem para diabolizar polícias, tenho vários amigos (e na GNR e no Exército) que não concordam com estas medidas, e acham isto tudo ridículo, que sabem ter calma em situações de tensão, porque é esse o seu trabalho. Não se apoiam as forças da ordem “só porque sim”. A Ordem tem que ser legítima e justa – se não é desordem e o nosso dever é tranformá-la, defender a solidariedade e o humanismo. Os polícias e as forças de segurança são abandonados pelos governos, manipulados pelo Chega, e isso é uma questão seríssima, que atinge o âmago da sua vida. Não a resolvem aos gritos, batendo em miúdos. Mas com organização sindical e política baseada na solidariedade.

Este “novo normal” está a atropelar a democracia e a liberdade, mas é só no Barreiro, onde vivem 4 miúdos sem futuro em dois quartos e na rua convivem, e nas zonas de classe média onde um homem fardado em representação do Estado atira skates ao chão aos gritos. Se forem à Quinta da Marinha, a festa é na piscina, estão 20 miúdos a beber copos e quem sabe alguns são apoiantes do Chega – tiveram aí a sua maior votação – precisamente aí e na Foz do Porto. Volto a dizer – debito a conta na esquerda, na direita e no centro que tem apoiado isto com entusiasmo ou ficado em silêncio à espera que passe. Não vai passar, o novo normal do abuso de poder está aí. E há quem tenha culpas do estado a que chegámos, que é a concentração crescente de poder no Estado contra os cidadãos.

16 thoughts on “O “novo normal”

  1. Brilhante Raquel, os meus parabéns! Até à uns 3 meses atrás não a conhecia ( e não estarei de acordo com tudo o que diz e escreve) mas a Raquel está simplesmente um nível acima dos demais intelectuais, pensadores e comentadores da praça ( e é muito raro eu pensar isso de alguém). Dou por mim todos os dias a fazer refresh no facebook (plataforma que deixei de usar em 2008, imagine!) só para ver o seu novo pensamento em formato de escrita. Bem sei que a sua opinião sobre o estado atual é completamente anti-sistema e posso imaginar o “abuso” e “pressão” profissional a que tem sido sujeita, com tudo a perder e nada a ganhar. Até por isso mesmo, ficar-lhe-ei para sempre grato por ter tido a coragem de ser uma voz discordante, educada, estruturada e muito reflectida, que reconheceu a importancia de ser uma voz esclarecida no meio do medo. Agora chega de elogios e volte p.f. para o computador porque quero ler mais coisas suas! Abr.

  2. Os meandros da pandemia. Ainda bem que continua a explorar esses meandros e a denunciar aquilo em que se traduzem. É fundamental, para que as pessoas acordem e compreendam a realidade deste novo normal no seu todo. Não conheço a situação que descreveu, mas posso imaginá-la facilmente e prevejo que se venha a repetir cada vez mais, principalmente junto dos mais pobres e frágeis, daqueles que não se sabem defender. Uma grande parte dos portugueses não sabe fazer o IRS, preencher um papel da segurança social ou resolver um problema com a operadora de TV, quanto mais defender-se adequadamente numa situação dessas. Quando sabem, não escapam ao insulto e prepotência dos que sabem e dos que não sabem. Veja-se o exemplo do jovem sem máscara na marginal de Vila do Conde. Soube defender-se adequadamente, demonstrou conhecer a lei e os seus direitos, não prejudicou ninguém e mesmo assim foi vítima de insultos e paródia até em canais de TV, deliciados com mais um caso de negacionismo criminoso. Conseguiram multá-lo por causa de um edital da Câmara da cidade, que ordenava o fecho da marginal (foi a forma encontrada de lavar a cara da actuação desastrada e abusiva da polícia). É a entrada garantida num universo kafkiano para os que ousam defender as suas garantias e liberdades.

    Mas existem formas aparentemente simples de contornar estes abusos e medidas inconstitucionais. Por exemplo, pertencer a uma claque de futebol e aguardar a chegada do autocarro da equipa predileta depois do jogo. Esses ajuntamentos, para além de não resultarem em multas, ainda são acompanhados, imagine-se, por brigadas da polícia… Isso, pelos mesmos que perseguem jovens sem máscara na via pública.

    A outra forma é o dinheiro e os seus subterfúgios, claro. Recordo-me da polémica em volta da Festa do Avante no ano passado, onde se proibiu a venda de álcool a partir das 20:00h. Ao mesmo tempo, em milhares de hotéis do Algarve, turistas com possibilidades económicas bebiam o que queriam em regimes all-inclusive até à meia-noite em esplanadas com música ao vivo. Durante o dia, os filhos desses turistas saltavam aos magotes para mega piscinas, os mesmo filhos que estiveram e estão novamente protegidos(!!) em casa, sem escola, com a concordância de muitos progenitores.

    Não estou a criticar claques ou turistas, que fique claro, por viverem as suas vidas e encontrarem prazer naquilo que lhes dá felicidade. Estou a criticar os dois pesos, duas medidas. Estou a dizer que a certos grupos e ao dinheiro as nossas instituições e o nosso Estado permitem actividades que estão proibidas a todos os cidadãos. Já os mais pobres e incapazes estão onde sempre estiveram: no seu reduto de precariedade económica e intelectual, entretidos com programas de TV básicos e notícias sensacionalistas, estimulados frequentemente a culpabilizar os seus próprios pares e a sua classe pelas desgraças da pandemia e de tudo o resto… Estão onde sempre estiveram, mas cada vez mais longe dos demais.

  3. Como se isto tudo que a Raquel disse (e bem) ainda não bastasse, aqui vai mais uma. Ontem no artigo do Público do JM Tavares, um assumido homem de direita, o autor insurgia-se indignadamente contra a proibição de venda de bebidas em muitos locais, desde McDonalds até postos de gasolina. Por mais sede que ele e os miúdos tivessem, não conseguiu comprar nem uma garrafinha de água, esse perigoso líquido, altamente responsável por verdadeiros enxames de infecções, como já foi cientificamente demonstrado pelos analistas de serviço.
    O incrível absurdo da situação levou o articulista a confessar-se “ligeiramente marxista”. Temos assim de agradecer ao Costinha e sus muchachos esta viragem à esquerda, à boleia da pandemia. Boa, Costa, o Chega agradece reconhecido os bons serviços prestados à nação. Nem livros nem água.
    “Eu queria aplaudir”……………….

  4. Cada vez mais a democracia está em causa, quando os portugueses se derem conta, vai ser bastante tarde. Os políticos estão aproveitar-se de uma situação de saúde, muito provocada pelo desinvestimento no setor, para cortarem as liberdades. O seu texto mostra muito BEM a situação atual.

  5. “O ódio e a internet”, fenómeno que veio para ficar. Até lá, há que moderar e não deixar entrar.
    Força!

  6. Obrigada por continuar a escrever e a partilhar as suas análises! Faz-em acreditar que ainda há pessoas com coragem. Muito obrigada!

  7. “A difamação, o insulto, o ódio atravessa profissões e classes sociais. Mesmo assim não desatei a dar murros a reagir ao insultos.” esta frase está certa, embora incompleta, na medida em que lhe falta acrescentar a profissóes e classes sociais, a falta de educação e o ser de esquerda, característica dos que mais difamam, insultam e odeiam. Ou nem sabem que o camarada Lenine aconselhava os camaradas dizendo: Mintam, mintam sempre que da mentira muita coisa há-de ficar. Contudo há que reconhecer que a esquerda sabe manipular com um discurso doce, mas oco…., “o cântico de sereia”.

  8. obrigada RV por ser uma voz forte e decente de resistência. ao mesmo tempo, a forma como desmonta estas questões e revela o que pode estar por trás delas deixa-me com pouca esperança… quantas gerações nos faltam para mudar esta falta de educação e de participação? já tínhamos que ter começado

    • Mónica, o seu desabafo é preocupante na medida em que ainda não percebeu que a falta de educação que refere, foi provocada pela esquerda, a qual vive do conflito…, ou ainda não se apercebeu como a sociedade portuguesa, com os ventos socialistas de Abril, está mais violenta? Se tem dúvidas, fale com pais ou avós e saberá que antigamente, as pessoas eram mais honestas, mais educadas, mesmo quando não tinham grande instrução. Por isso, houve tempos em que tivemos governantes honestos e competentes e nos últimos 40 anos, são essencialmente corruptos e incompetentes, além de maliciosa verborreia.

      • Sim, sim, antes é que era, reinava a miséria e, como em qualquer ditadura, eram bem mais educadas, pudera, caso contrário iriam presas ou faleciam à mão da PIDE. E sim, também, não tinham grande instrução, porque essa traz outras necessidades. Ai deles.

      • Amora, creio que divergimos profundamente no conceito de educação, o seu parece ser o comum de bem ou mal educado, o meu tem mais que ver com instrução e consciência

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