A Revolução do Twitter

Não há confinamento em curso a não ser no Twitter. Há cerca de 5 milhões e 300 mil portugueses em idade activa, destes 813 mil estão desempregados. Segundo o INE, destes estavam em teletrabalho cerca de 500 mil, no fim de 2020, e no pico, em Março de 2020, nunca estiveram em teletrabalho mais de 1 milhão e 100 mil. Ou seja, mais de 65% da população nunca parou de trabalhar, e andar em transportes e movimentos pendulares. Agora há menos gente ainda do que há 1 anos. Por isso mesmo grande parte tem que deixar os filhos com os avós, de risco. Ou achavam que viviam num planeta diferente? Durante o confinamento houve um aumento da contratação das profissões científicas e intelectuais de 80 mil pessoas. Isto é, os desempregados são na sua maioria pessoas sem o ensino superior e na área dos serviços vários, turismo, logística, porteiros, empregadas domésticas, cabeleireiros, lojistas, transportes. Não estão no Twitter. Dos 800 mil desempregados só 35% recebe subsídio de desemprego, pelo que ou vive da família ou trabalha “por baixo da mesa”, ou seja, há mais de 4 milhões a circular para conseguir viver do seu trabalho. A variação e o maior aumento do desemprego está nos contratos a prazo. Ou seja, a classe trabalhadora portuguesa trabalha o dia todo em zonas de alto contágio, e trabalha para a classe média alta e funcionários públicos qualificados com salário garantido (os dirigentes e operacionais estão todos no terrenos) estar sentada no twitter a queixar-se que não se vendem os seus livros.


Há 4 milhões de pessoas a trabalhar fora de casa, em cadeias de contágio, a deixar os filhos com um computador nos avós de risco, sem dinheiro para os alimentar e cuidar decentemente. A opção insane de confinar pessoas saudáveis, com medidas que suprimem direitos constitucionais, não tem contestação ao nível da causa dos livros, que tem merecido uma mobilização pré-revolucionária. Como autora, e cidadã confinada numa solarenga casa, frequentadora da Letra Livre e da Travessa, e confessada admiradora da democracia de base e movimentos sociais junto-me a esta revolução do Twitter. Não posso, porém, deixar de lado esta minha curiosidade por entender este impulso revolucionário nos sectores médios, no meio da aceitação passiva de medidas catastróficas que subscrevem com louvor, e agora até com pedidos de pensamento único científico por parte de governantes. Como diz uma velha piada “se pensas que pensas pensa mal quem pensa por ti é o comité central (agora científico)”.


É fácil compreender que estes cerca de 4 milhões de pessoas a trabalhar atingem praticamente todos os Portugueses, com excepção dos que vivem no Twitter. E nos lares ou idosos sós e pobres (1 milhão e meio). Já que com crianças atinge cerca de 6 milhões no conjunto familiar, e que muitos têm famílias mistas em que raramente há dois membros em teletrabalho. Ou seja, meio milhão de pessoas, a classe média e funcionários públicos qualificados, convenceram a classe trabalhadora a ter os filhos presos em casa a um computador – com efeitos graves na sua saúde mental (mais de 2 horas por dia provoca perturbações várias, há anos estudadas) -, enquanto vão trabalhar desconfinados, sujeitos a contagiar-se, para a classe média confinada e, em geral sem filhos, ou já criados, ou todos com acesso a explicações privadas. Já que o contágio vai-se dar no trabalho e transportes e espalhar-se à parte da família confinada. E esta malandragem, depois da fábrica, ainda vai dar um passeio ao fim de tarde. Confinamento, livros e pouco barulho no prédio, eis as Teses de Abril desta revolta.

Compreendo que esta realidade escape aos meus camaradas da revolução dos livros que defendem o confinamento do lazer de 6 milhões de pessoas, desde que elas trabalhem, desconfinadas – já que não há outra forma para elas -, e que as livrarias abram. Também escapou inicialmente aqueles norte-americanos que acham que no mundo ou há defensores do confinamento ou há negacionistas pró Trump – quando deixamos de sonhar ficamos assim, presos entre dois pesadelos. A ausência de uma política de esquerda contra o confinamento não é se não o outro lado desde 1989, a TINA – a esquerda tem vergonha de ser, recusa-se a ter uma política alternativa, seja para o que for, arrasta consigo fantasmas do passado, e cria novos – agora apoia a repressão sobre si própria que é o segundo round do confinamento quando vierem as greves da crise económica. Dos EUA chegam, como dizia, alguns sinais de esperança. Um estudo recente nos EUA, referido por dois dirigentes sindicais num artigo público nos EUA contra o confinamento explicava que este foi terrível para a queda dos salários dos trabalhadores e que 75% dos norte-americanos sem ensino superior nunca se puderam confinar, sempre trabalharam. O que já levou a uma anedota que circula nas redes sociais americanas “Nunca houve lockdown, o que houve foi uma classe média escondida à espera que a classe trabalhadora lhe trouxesse bens”.

Falta ainda dizer que uma parte dos profissionais intelectuais que hoje querem ficar em teletrabalho – não todos, felizmente – como médicos, professores, jornalistas, estavam em burnout e desrealização pelas más condições laborais crónicas, que lhes retiraram autonomia e prazer no trabalho, mais de 40% dos trabalhadores em Portugal sentiam-se pressionados e incapazes de fazer todo o trabalho, os hospitais e escolas já tinham sido transformados em fábricas, pelo que o teletrabalho lhes aparece como um certo descanso da pressão. É um tiro no pé, uma bazuca, – é que o teletrabalho é a preparação para grandes despedimentos com a automação nas profissões qualificadas.

A TAP cortou 25% dos salários, é o laboratório e a consequência das medidas tomadas contra a pandemia no sector industrial e serviços, medidas que não evitaram a pandemia nos idosos, mas fizeram da classe trabalhadora uma massa distópica, que, como dizia Steinbeck, todos os dias dá uma lição de sobrevivência e força, mas, acrescento eu, raramente de resistência. O seu suor é para fazer sacrifícios, às vezes para resistir aos sacrifícios. Nesta distopia de hoje só trabalham, levam marmita, e depois fecham-se, e aos seus filhos (a barbárie, fechar crianças dias inteiros), para voltar a trabalhar, pensando que assim evitam o vírus e o colapso dos sistemas de saúde, erodidos em anos de neoliberalismo.

A talhe de foice recomendo a entrevista de hoje ao Público da Dra Graça Freitas, que explica, cito, como se contagiou: estava numa sala, com máscaras, e higienizaram as mãos, o vírus estava no ar, na sala provavelmente pouco ventilada da DGS. O que ainda não compreendi é porque é que a DGS informou que era seguro ir nos transportes públicos, nas fábricas que empregam um milhão de trabalhadores, uma vez que o caso dela mesma nos diz o que já sabíamos, o vírus fica no ar e passa pelas máscaras.

Bom, camaradas de luta, aqui fica o meu contributo para a nossa revolução dos livros – o nosso problema não é que os nossos livros não se vendem. Eles não se vendem porque raramente se consegue chegar lá com os livros – à vida, à autenticidade do ser humano, ao critério de verdade, algo muito diferente do consenso, para lembrar Brecht. Quando se consegue, eles vendem-se.

9 thoughts on “A Revolução do Twitter

  1. De todos os excelentes artigos que tem escrito este foi talvez o melhor, pois coloca o dedo na ferida, escreve o que tem que ser dito e ouvido para levar mais pessoas a reflectir sobre o que se está a passar. Ainda assim, consegue fazê-lo com a elegância habitual, com linguagem suficientemente cuidadosa para não ferir susceptibilidades de quem pensa de forma diferente, mesmo que do outro lado estejam argumentos, esses sim, naegacionistas do país real e não poucas vezes servidos de uma dose considerável de desonestidade intelectual. Pois eu acrescentaria ainda ao seu comentário uma pitada de sabedoria popular que diz: “pimenta no cu dos outros é refresco”.

    Os mesmos que defendem a abertura das livrarias (totalmente de acordo), sustentando que estas não apresentam risco para a saúde pública, são os que defendem marginais e jardins fechados, entre outras diabruras que já assinalou no seu artigo. Gostam de livros e sentem-se atingidos por não poderem visitar uma livraria. Como seria se trabalhassem num restaurante ou num cabeleireiro? A empatia está, de facto, em vias de extinção, a não ser que se aceite o significado que lhe dão agora, que é salvar vidas ficando confinado num sofá o dia inteiro.

    Como em tudo, há boa literatura e má literatura. Das duas uma, estas pessoas a quem nada parece faltar e que se revoltam agora com a não abertura das livrarias, ou têm escolhido mal o que lêem ou não têm percebido nada do que vem nos livros. Vejo-as com demasiadas certezas, sinto-lhes o moralismo no discurso, a incapacidade na discussão e a cegueira face à realidade. Se lerem melhor, nos livros, compreenderão que o que lá se encontra (na boa literatura) são mais dúvidas que certezas, mais perguntas que respostas, mais empatia e menos umbigo. Os livros devem ler-se por curiosidade, para que possamos formular novas questões e novas hipóteses, para pensarmos melhor, não por vaidade ou para servir superioridades morais.

    Por fim, Suécia. Recusar discutir as diferenças entre Suécia e Portugal e Suécia e outros países é um insulto e uma irracionalidade completa. A Suécia desapareceu agora dos media portugueses, que a traziam várias vezes para mostrar que tinham mais casos e mais mortes covid do que nós – o triplo, o dobro – gritavam. Agora que é diferente, tendo Portugal ultrapassado os números Suecos (já para não falar da mortalidade por todas as causas) a estratégia é comparar a Suécia com os países vizinhos. Chegará o dia em que, para validarem os seus argumentos, compararão a Suécia com a Antártida…

    • Forçar, em desespero de argumentação, a comparação da Suécia tão-somente com os países vizinhos é mais uma evidência do jogo de cintura intelectual em que os activistas detractores da estratégia seguida por aquele país se tornaram tão habilidosos.
      Para isso, era requisito prévio a demonstração de que as características comuns aos países escandinavos possuem correlação bem estabelecida com a mortalidade atribuída à COVID-19 e que as características que os distinguem não a têm. Esqueceram-se dessa parte. Nem a densidade populacional salva o argumento, pois esta não é homogénea na Suécia: regiões há com grande densidade e outras regiões são praticamente desertificadas. Seria mais razoável comparar a expressão da pandemia na área metropolitana de Estocolmo com a de outras grandes capitais da Europa, com densidade equivalente… Porém, há trabalhos publicados que, com base nos dados da Europa, revelam que não existe correlação entre a mortalidade COVID-19 e a densidade populacional, a urbanização, a latitude da capital, o PIB per capita ou a despesa com saúde [doi: https://doi.org/10.1101/2020.12.25.20248853%5D.
      Para além disso, os países escandinavos adoptaram desde Maio do ano passado, uma estratégia mais aproximada à da Suécia do que à da generalidade dos países da Europa, em que se inclui Portugal. A Finlândia não está confinada e a Noruega também não (apenas a cidade de Oslo). O bloco escandinavo foi o menos restritivo da Europa [Oxford Stringency Index]; foi também o menos aderente ao uso de máscara em espaços públicos [ver YouGov] e isso, afinal, associou-se a menos mortalidade COVID-19 e a mortalidade por todas as causas terminou dentro do intervalo histórico de cada um dos países. Na Suécia, 2012 e as suas gripes teve uma taxa de mortalidade bruta mais elevada do que 2020 e a sua pandemia por coronavírus. É importante salientar que a taxa de mortalidade bruta, em 2020, da Suécia foi igual à da Dinamarca (9,5 óbitos/1.000 habitantes) e inferior à da Finlândia (9,9). Apenas a Noruega, bem menos envelhecida, teve uma taxa de mortalidade bruta inferior (7,5). Já Portugal e o seu pacote de medidas impostas com dureza e autoritarismo, não se tolerando qualquer questionamento ou contraditório, têm os resultados que estão à vista: observando-se a sua inutilidade no controlo da pandemia, mas a sua efectividade danosa ao nível da saúde pública nas dimensões extra-covid, bem como da economia e da sociedade, que se viu condicionada na expressão cívica das liberdades fundamentais.
      O melhor comparador de um país é o próprio país (e o seu histórico). Se a Suécia está confortável nessa comparação, Portugal não está: a taxa de mortalidade bruta em 2020 foi recorde, em 60 anos.

      • Muito bem Paulo Costa! Análise excelente e essencial. O que ainda me choca é que ninguém, ao fim de tanto tempo, leve esses dados para um qualquer jornal ou canal de televisão.

  2. Excelente como sempre, tocando nas teclas certa, só espero que continue com a escrita “afinada” e ”afiada” para os mentecaptos dos políticos perceberem(não sei se essas pessoas passam por aqui) que vão pelo caminho errado, fazendo mal à economia e aos seres humanos.
    Continue com a mesma força de inicio, bem haja

  3. Uma posição marxista…Eu não diria mais… Espero que não perca leitores por esta minha a afirmação. Mas sincera…

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s