Estratégias contra a COVID, um debate

Li hoje o artigo no Público de Isabel do Carmo onde conta a sua experiência internada por COVID, e que ao, cito, 10º dia de febre foi ao hospital. É neste 10º dia de febre que me quero concentrar, porque ele revela uma estratéágia de combate que tem sido muito questionada nos meios médicos, em Portugal também. Quero antes dizer que fico feliz por ela ter recuperado, sou sua amiga, e mesmo que não fosse todos os portugueses – tenham a opinião que tiverem – devem ter um tratamento exemplar no SNS que sustentam. Não desejo ao meu pior inimigo que sofra doente, porque é na discordância saudável que criamos um país decente e nunca desejando o sofrimento individual a alguém. Sublinho-o contra gente perdida que deseja que os seus opositores morram sem ventilador. Dito isto reflicto sobre o seu artigo, todo ele quanto a mim um enorme erro, e vindo de uma médica que conhece o SNS, e que tem-se pautado pela defesa do Governo (está no seu direito também).

Explica-nos que se contagiaram no Natal quase dez pessoas, os mais novos sem sintomas, os mais velhos com alguns, fortes, e só ela precisou de internamento. Pelo seu testemunho reforça a ideia da culpa é do Natal, que o Governo tem advogado. Ora, os contágios disparam a 26 de Dezembro. Poder-se-ia talvez culpar as compras de Natal concentradas nas manhãs antes do Natal e, já em Janeiro, aí sim poder-se ia culpar o Natal. Continuo a achar que foi o frio e caos organizativo do SNS que justifica o que aconteceu, já que Portugal ontem ultrapassou a Suécia em número de mortos COVID e largamente em número de mortes não COVID. Na Suécia houve Natal com restaurantes abertos. Tão pouco o Governo pode escudar-se na “variante inglesa”, a nova desculpa, já que a meio de Janeiro o Instituto Ricardo Jorge declara que apenas 13% dos contágio são dessa variante. Na Suécia não há confinamento, nem máscara (onde estão os detratores da estratégia Sueca?), e mantém ausência de sobremortalidade não COVID e um número de casos muito abaixo de Portugal – a Suécia deu uma resposta democrática e ao nível dos serviços de saúde, depois de ter falhados nos lares, e isso hoje é indiscutível. Portugal não – Portugal teve uma avalanche 10 meses depois dos outros países, e mesmo assim mostrou-se entre os mais incapazes de responder à pandemia.

Mas o que mais me causou surpresa no testemunho de Isabel do Carmo é dizer com naturalidade que alguém da idade dela (80 anos) esperou 10 dias com febre, sabendo-se contagiada, para ir ao hospital. Ora, vários países do mundo, entre eles a Rússia, internam imediatamente alguém com sintomas de COVID, ainda que ligeiros, para evitar a passagem do estado “gripal” à pneumonia brutal, que se dá em poucas horas e em muitos casos com “hipoxia feliz” (termo médico, e que IC cita), isto é, a pessoa não se dá conta da pneumonia que alastra porque o corpo se “come a ele próprio” mas continua a sentir-se bem, ou não muito mal. Por isso muitos médicos têm em casa um oximetro, sabendo que aí reside a diferença entre um estágio inicial da doença, que se combate, como IC refere no seu artigo, com um protocolo que reduz essa inflamação pulmonar. No artigo ela explica com detalhes o protocolo.Hoje mesmo na Galiza médicos declararam que muitos doentes jovens morreram por, cito, “irem tarde demais ao hospital”. Esta “hipoxia feliz” só se pode medir com um oximetro, que, por exemplo, muitos lares em Portugal não possuem. Têm que mandar doentes em massa em ambulâncias, porque são dependentes, com 90 anos para o hospital até para uma simples medição de oxigénio no pulso, num aparelho que custa entre 40 a 60 euros.

Muitos médicos em Portugal consideram que se devia deixar de testar assintomáticos (porque isso cria uma panóplia de falsos doentes e gera uma demora de procedimentos e imobiliza o sistema de saúde); defendem que só os sintomáticos deviam estar confinados mas estes deviam ser imediatamente seguidos (não por telefone) pelos centros de saúde e hospitais. O que Isabel do Carmo escreve no artigo é parecido com a estratégia da DGS – o efeito é “não vá às urgências, não vá ao hospital”, diz a DGS – até nas suas páginas! A DGS diz mesmo para não irem ao hospital…Telefonem…

Muitos portugueses com COVID e sem COVID têm levado a indicação a sério, e a pergunta é – é esse o caminho mais correcto para enfrentar esta e outras doenças? É uma pergunta para a qual não tenho certezas e nem posso ter porque não sou médica – gostava porém de ouvir outras opiniões distintas de Isabel do Carmo. Porque há uma certeza que tenho – Portugal está com o seu sistema de saúde em entropia. Algo de muito errado se está a fazer na organização da saúde.

Sobre a defesa que Isabel do Carmo faz no mesmo artigo dos médicos que dão testemunhos de pânico, explicando que estão bem intencionados, aí a minha discordância é total. Não discuto intenções, são coisas que só um divã de psicanalista pode discutir. Discuto razões – precisamos de homens e mulheres no sistema de saúde que transmitam confiança e saber. O pânico gerou uma bola de neve de medo de ir aos hospitais, e a sobre-mortalidade está aí a não deixar dúvidas disso. Um médico e um enfermeiro têm que ser firmes e ter a cabeça fria. As emoções tristes (pânico, desespero, medo) não se podem sobrepor às emoções alegres (confiança, entusiasmo na busca de soluções). Quando alguém está sem rumo numa doença, e esses são os doentes, cabe ao profissional de saúde dar um caminho, não cabe gritar-lhe ainda mais.

4 thoughts on “Estratégias contra a COVID, um debate

  1. Se bem percebi pelo comentario da Raquel Varela a um artigo da Isabel d Carmo.,é que a Isabel do Carmo depois de ter sido uma revolucionaria ter-se-a´tornsdo uma apoiante inflexivel do Costa

  2. Raquel obrigada, aqui de longe de outro país – pela sua racionalidade, inteligência, trabalho que são tão inspiradoras para uma mulher portuguesa como eu. A sua frontalidade e empatia fazem com que consiga comunicar de uma forma honesta e generosa, trazendo com coragem, alguma luz, a articulação do pensameno crítico muito bem estruturado, a redacção de longos textos com a organização de argumentário para precisamente ajudar este Povo a pensar sobre os temas com lógica e coerência. Nestes tempos sombrios de desinformação, de medo, de grandstandismo, de auto-promoção nas redes, de todo o comentário é válido e deve ser ouvido e escutado, de verdadeira confusão trazida pela proliferação da adição ao digital-rápido-noticias e informação fast food….lê-la (com a outros também) continua a ser como há muitos anos um bom presságio de que ainda há qualidade de pensamento, numa época em que o cidadão comum deixou de ver como relevanete o tempo para a leitura, (a verdadeira leitura de horas perdidas e viagens infinitas num texto) para os bons filmes, bons documentários para as tertúlias entre amigos em que se conversa apaixonadamente a aprender em conjunto com graça, sabedoria e amor. Temos de recuperar esses valores de não os deixar para trás. O seu contributo posicionando-se nestes tempos de Covid tem sido importante – tenho uma grande admiração por si como intelectual e Mulher. Nunca se deixe abater por estas vozes ignorantes carregadas de um ódio que é sinónimo de doença, de falta de trabalho interior. Um abraço de outro país, a ler ao longe noticias de um Portugal que às vezes parece empedrenir-se ainda mais nos seus terreiros , no seu fechamento, na sua falta de Mundo na sua pobreza intelectual, nos seus dogmas e ultimamente em palavras de ódio, na violência do discurso por todo o lado.

  3. Apesar de já me enfadar a conversa Covid-19, não consigo deixar de seguir alguns pensadores, nos quais incluo a senhora professora doutora Raquel Varela. Serve, assim, este “reply” para o seguinte pedido:
    Peço-lhe que faça chegar ao grande público quais as suas propostas de resolução para o grande problema que agora vivemos. Nas suas intervenções torna-se claro que identifica com muito rigor tudo o que não funciona, tudo o que atenta contra a nossa liberdade individual (e coletiva?), o que me leva a crer que tem todos os elementos, todas as informações, todos os conhecimentos das várias áreas científicas em causa, enfim, a sua abordagem frontal, honesta e generosa, como é classificada por alguns, merece que nos diga como resolver a situação.
    Por favor não guarde para si, partilhe connosco, assim como partilha tão lucidamente a sua análise e diagnóstico do que está a ser mal conduzido, partilhe, com a mesma sabedoria, lucidez e conhecimento lato e profundo, como resolver a situação neste país, neste sistema político, neste sistema de saúde, nesta população, nesta nossa realidade.
    Antecipadamente, agradeço-lhe.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s