Sobre a entrevista de Fátima CF à Ministra

Fátima Campos Ferreira está a ser assediada nas redes sociais porque fez o seu trabalho numa entrevista com a Ministra da Saúde. O assédio verbal sobre a jornalista vem naturalmente em parte dos partidos organizados, com militantes, uma parte funcionários atrás de uma secretária a criar robots, com caras de gatos e carros, que distribuem pelas redes sociais uma série de impropérios de dar vergonha alheia. Mas não só, há gente real que embarca neste desvario. Reflictam. Cresci numa família onde a liberdade de pensar é intocável, não se bate em crianças e animais, mas ofender uma mulher mais velha dava direito a uma lambada ou um raspanete, consoante o grau do palavrão que alguém ousasse pronunciar.

A entrevista, na RTP, é muito importante, confronta a máxima responsável de um país pelo facto de ter um SNS que colapsou ao ter que tratar 0,06% da população. Que tem uma das maiores mortalidades não COVID do mundo. Devíamos ficar incomodados, na minha opinião, a ver a investigação jornalística substituída por testemunhos emocionais de (alguns, felizmente não todos) profissionais de saúde que culpam as vítimas, os doentes, os “portugueses” por adoecerem, que confessam que não conseguem tratá-los?!, que se mostram em pânico, quando o SNS tem menos de metade das camas que devia ter para este propósito, e isto, caros amigos, chama-se destruição do SNS para abrir mercado ao sector privado. Não foi feito pelos portugueses – foi feito por gestores hospitalares, os tais “eficientes”que substituíram a gestão democrática, e pelos governantes, à cabeça os responsáveis da saúde, como esta Ministra. Uma ministra que atravessa uma pandemia com menos 900 médicos e apoia um confinamento que lança na miséria milhares de portugueses. Não apoia só, diz mesmo que se não há confinamento seremos culpados. Não, se há mortes evitáveis e precoces, os responsáveis estão entre quem gere desta forma destrutiva um SNS que paga 1500 euros a um médico e 1000 a um enfermeiro. Nunca as vítimas que ficam doentes são responsáveis.

É por isso mais triste ver alguns médicos e enfermeiros gritar a quem tem que trabalhar “fiquem em casa, se não não vos podemos tratar”. É na verdade o mais baixo que chegámos como país – transformar vítimas doentes em culpados. Um dia todos teremos consciência da maldade que é olhar para uma população pobre e média, sem meios de vida, a gritar “fiquem sem trabalhar, se não morrem porque não há vaga na UCI”. Nem vou debater a questionável eficácia do confinamento, apenas pergunto: em que momento deixámos de ter empatia pela larga maioria da população que não pode viver confinada?O que se espera do jornalismo é que a Ministra seja questionada, com urbanidade, racionalidade e sinceridade, mas sem falsos consensos, que minam o debate democrático. Como é possível gerir uma pandemia lançando nas costas dos desempregados e dos empresários médios e pequenos todos os custos de um SNS destruído? Esta pergunta foi colocada por Fátima Campos Ferreira a Marta Temido, a mesma Ministra que há 2 anos disse que a emigração de médicos é normal num mundo global…Recordam-se?

A Ministra respondeu a FCF, em liberdade, como deve ser, e com tempo. Fê-lo, quanto a mim, com todo o aparelho de treinamento comunicacional, aliás a sua maior habilidade desde Março. A sua incansável resposta aos jornalistas tem sido concomitante com a sua incansável incapacidade de apetrechar o SNS e nos culpar. Há quem considere que a jornalista deve ser assediada nas redes sociais – eu por mim considero-o serviço público. Aliás, assédio para mim nunca é método, sempre o debate e o confronto frontal são a melhor forma de esclarecer. A entrevista é, nestes tempos, uma homenagem ao jornalismo enquanto saber e poder crítico – que é o que é o jornalismo, não há outro com esse nome.

Jornalistas não são pés de microfone de nenhum governo, apoie eu ou não qualquer governo a minha expectativa é que o jornalismo questione, enfrente, vá à raíz dos problemas e , por isso, informe. O resto é fazer do jornalismo um braço do poder do Estado, eufemismo “microfone”, um mal que corrói a democracia, e põe em causa os próprios jornalistas, cuja vontade de questionar quem exerce o poder é mais do que nunca vital.

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6 thoughts on “Sobre a entrevista de Fátima CF à Ministra

  1. É isso mesmo, Drª Raquel! Jornalismo “à séria”, cada vez há menos, e quem ousa fazer o que deve ser feito, incomoda sempre o sono tranquilo daqueles que só olham para o seu umbigo. Se seguir o Presidente reeleito pela estrada, numa noite chuvosa de apuramentos eleitorais é jornalismo que questiona e informa, então poderemos dizer que qualquer imprensa cor-de-rosa pratica o verdadeiro jornalismo. Claro que isso depende sempre do ângulo em que dá jeito ver, mas jornalista e jornalismo que se preze nunca tem sono enquanto não expõe todos os ângulos da circunferência, dentro e fora dela.

  2. Não ouvi a entrevista, tinha chegado à conclusão que era uma perca de tempo…
    As entrevistas realizadas pelos vários canais de tv e rádios, os seus jornalistas e pivôs, as suas perguntas foram sempre no sentido de se colarem ao lado e defenderem interesses dos sucessivos governos e dirigentes políticos.
    No caso do SNS, sempre foi da responsabilidade politica dos sucessivos governos, assembleia da república (todos os deputado e partidos políticos incluindo o partido neofascista “Chega”) e presidente Cavaco e Marcelo – não fizeram rigorosamente nada para defender o SNS, mas sim, ajudaram a enriquecer os privados (hospitais e clinicas), estando hoje ainda mais ricos que estavam antes da epidemia…

  3. Raquel Varela

    Parece-me que não tem razão na apreciação negativa e, na minha opinião, injusta, que faz da ministra Marta Temido

    Eu “também” sou mais um daqueles portugueses (muitos) que se sentam num confortável sofá, a “apreciar” ou a criticar a acção dos ministros deste governo, como dos que o antecederam…

    E SIM, eu não sou dos portugueses culpados, pela progressão exponencial de uma pandemia súbita, com a qual ninguém contava, não se sabiam as origens nem as consequências, e tudo ´era uma incógnita !

    E SIM, há doentes, que são “responsáveis” pela sua infecção,ou vítimas de inconscientes e criminosamente irresponsáveis que são os que os infectam, , mas ambos por, presumívelmente, descurarem as medidas de auto-protecção !

    E NÃO, eu também não sou dos portugueses culpados dessa progressão fatídica, porque cumpro, NO MEU PRÓPRIO INTERESSE, todos os preceitos aconselhados de defesa, minha e dos meus concidadãos (máscara,alcool-gel, luvas, medição frequente da temperatura, confinamento, etc., etc.

    E NÂO, não sou dos portugueses culpados, (e ainda há muitos…) que, permita-me o plebeísmo, SE ESTÃO MARIMBANDO, inconsciente ou criminosamente, para a preservação da sua saúde, da da sua família e da dos seus concidadãos !

    Aglomeram~se, alegremente, sem qualquer protecção, em bares, boîtes, casamentos, em plena rua, etc., algumas vezes com a complacência das autoridades.

    Criticam “hoje” para se retractarem “amanhã”, são (ou não…) contra o estado de emergência, “furam” o confinamento, andam em público, ostensivamente, sem màscara, etc., etc., etc.

    Quanto a Fátima Campos Ferreira, há muito que ela faz de certas entrevistas, “interrogatórios”, não deixando, frequentemente, que os “arguidos” explanem os seus argumentos e justificações, interrompendo, ostensivamente as suas respostas !

    Marta Temido, naquela aparente fragilidade, tem sido uma Mulher corajosa, muitas vezes injustiçada e incompreendida, que tem sobre os ombros, o peso de uma grande responsabilidade, alvo do “bota abaixo” permanente do “macho lusitano”, e não só, normalmente perito em COISA NENHUMA, e cobarde a fugir às reponsabilidades. É o caso de telmos, fantoches, bonifrates, e outros imbecis, que sabemos (e a Raquel Varela ,também…) de onde vêem e para onde querem levar o País !

    Cumprimento-a com apreço e consideração

    José Peralta

    ,

  4. …mas não esquecer que vários médicos fazem serviço nos hospitais públicos e privados, dão consultas de medicina do trabalho, fazem serviço de “legista”, etc… e recebem de todos os lados – tenho duas amigas intimas médicas, sei quanto ganham e o que fazem, e quanto ganham quando acumulam cirurgias. Portanto, apresentar todos os itens sff, não é só os que nos dá jeito. Que o serviço nacional de saúde está mal gerido, é verdade. O serviço ao cidadão é medíocre face ao custo que fica ao mesmo. Um médico especialista, que demora anos a formar, custa cerca de meio milhão de euros, cada, aos cidadãos. Portanto o mínimo exigido é cuidarem dos cidadãos fazendo o seu melhor profissional e técnico. Nos enfermeiros vai para o mesmo. Fazem serviço ao publico e privado, fazem medicina do trabalho, etc… e recebem de todos os lados. E os valores não são esses que apresentou. As horas extra vão para banco… e fazem serviço no privado. Acumulam várias remunerações. Não estou a descrever por “ouvir”, estou a descrever o que sei no terreno… e desconfio que a grande maioria dos profissionais de saúde agem dessa forma. É-lhes perfeitamente legitimo. Não venham é sempre com a ladainha dos coitadinhos. Arranjaram lenha para se queimarem durante anos… agora os privados exigem-lhes resultados e metas e pagam-lhes menos. Mas isso tem sido por culpa dos mesmos. Pensavam que iam fazer isso a vida toda sem consequências, agora vão tarde. E isto que têm estado a fazer desde Março… vai-lhes sair o tiro pela culatra, e vai sair-lhes bastante caro… vai ver se não.

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