Vamos falar de números

Vamos falar de números a sério. Somos 10 milhões e 250 mil. Há 169 mil doentes ou com teste positivo. Isto é – 1,65% está ou doente ou positivo. Destes, 6 117 estão internados, ou seja, 0, 06%. Dos quais em UCI 742, ou seja, 0,007% da população. Estamos numa gigante prisão insuportável, o desemprego galopa, as falências disparam, há delactores estimulados pela PSP, órgão do Estado que pede em directo nas TVs mais denúncias!, tudo isto porque nos dizem que o SNS não consegue nos seus hospitais tratar 0,06% da população sem colapsar. Isto apesar de sermos o 4º país de toda a OCDE com impostos mais altos.

Muitos profissionais de saúde estão com a noção real do que isto significa, e viram que o SNS foi durante anos de facto semi destruído, apelam à razão e sentem-se ofendidos com as descrições Correio da Manhã que estão agora por todo o lado e lançam a população no terror. Mas muitos insistem em dar testemunhos apocalípticos e dizer que somos culpados se ficarmos doentes. Ainda que metade do Governo, que definiu estas regras, esteja positivo. O que se espera de um profissional de saúde numa altura destas é que questione afinal o que aconteceu ao SNS, o que aconteceu ao seu trabalho. Se não podem transmitir segurança e confiança, é isso que esperamos, que pelo menos nos deixem de culpar e aterrorizar. Um profissional de saúde cuida, dá confiança, soluções, critica as que não são boas – não atira pedras nem espalha o pânico à população que pagou para ser cuidada. Pagou, como poucos no mundo pagam.

Ninguém quer admitir o óbvio e que Jorge Torgal disse vezes sem conta – esta é uma pandemia ligeira para a maioria, podemos ter um dia pandemias muito piores. Esta pandemia efectivamente atira para as UCIs gente que – se for cuidada a tempo – na sua maioria sai de lá viva; e os idosos acima da esperança média de vida de facto ou são protegidos ou a medicina não consegue em cerca de 20 a 30% dos casos fazer nada. O que temos é um SNS destruído e um Governo que para o ocultar diz que o país deve entrar na sua maior crise económica de sempre, fechando tudo.

No meio disto tudo um tipo de extrema-direita tem 500 mil votos, alimentando a fogueira com mais gasolina. Ele navega e cresce no caos que os governos (e na ausência de oposição) semearam ao longo destas décadas de trabalho barato e serviços públicos destruídos. Haja pelo menos neste caos político a contenção em parar de culpar quem ficou doente. Se o SNS não consegue salvar vidas a culpa não é dos portugueses, é do SNS e de quem Governa.

5 thoughts on “Vamos falar de números

  1. O facto de se tentar equiparar doentes a positivos tem muito que se lhe diga. E se os media adoram bombardear-nos com números, então que publiquem quantos falsos positivos é que há.
    Ah, mas isso nunca farão!
    Porque será?????????????

  2. Obrigado por nos mostrar com palavras a revolta que sentimos pela descapitalização que os diferentes governos levaram acabo ao longo de anos para financiar serviços privados e dessa forma assegurar lugares e financiamento à

  3. Ontem, milhares saíram à rua para reeleger o Presidente dos estados de emergência. Esses milhares foram elogiados por políticos e comunicação social, por terem demonstrado um comportamento cívico exemplar. No próximo fim-de-semana, se sol houver, esses milhares passarão novamente a irresponsáveis, caricaturados através de fotografias de jornalistas, onde se encontrarão duas dezenas de pessoas a caminhar junto ao mar.

    O governo sabe perfeitamente o que continuar a fazer para sacudir qualquer responsabilidade. Se o confinamento resultar fomos todos exemplares cidadãos e a sua estratégia foi brilhante, se não resultar é porque fomos uns irresponsáveis mal comportados. A vacina começará convenientemente a fazer efeito lá para a Primavera, se assim não for será porque nos “esticamos” novamente. A crise sem precedentes que já aí está será sempre justificada com a pandemia. Ouviremos “não havia alternativa” e “foi tudo para salvar vidas” repetidas vezes, até que acreditemos. Não é preciso ser bruxo para saber o que aí vem.

    O circo está montado e continuamos todos a ser tratados como os palhaços desse circo e a validar a palhaçada. A maioria dos portugueses está hoje confinada, consumindo cada vez mais TV, aumentando as audiências de quem precisamente lhes grita “fique em casa”. Entretanto, morrem cada vez mais velhos por esse país fora, confinados que já estavam, aguardando solitariamente a chegada do vírus ou de um qualquer abandono.

    Li algures que a ignorância é, em certa medida, um fenómeno normal. Já o acto de ignorar necessita de reforço constante. Continuamos quase todos a ignorar os direitos que perdemos e a negar toda e qualquer discussão. Se não temos consciência nem valorizamos os direitos que são nossos, se não os reconhecemos, se não nos ensinam e se abdicamos de os aprender, então este novo normal em que nos estamos a transformar talvez seja, inevitavelmente, o próximo passo evolutivo da humanidade – a sua completa robotização emocional e crítica.

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