“Emotional Turn”

Hoje viu-se um horizonte de realidade em decisões e palavras, infelizmente foi preciso uma catástrofe para esta ligeira mudança de discurso sobre a pandemia e – importante – mudança na acção face ao ensino. Escolas. António Costa encerrou as escolas depois de grandes pressões políticas e sindicais – pressões pouco baseadas em certezas cientificas -, mas sublinhou que não são as escolas o principal foi de contágio. Mas o mais importante e sério foi isto – decidiu fechar as escolas em vez de as colocar online. Se fecham que se fechem em vez de permitir um simulacro que tantos em Março e Abril apoiaram. Não existe ensino online, como nos cansámos de sustentar – ensinar é uma relação presencial simultânea, é esse o acto de educar, ou não é nada. Os Presidentes de Câmara que foram a correr comprar computadores e Ipads e fazer contratos de milhões com mais uma Plataforma digital recordem-se do que este ano deixou claro – nenhum dinheiro na educação será tão bem gasto como aquele que se gasta em bons professores. Meios podemos improvisar, profissionais de qualidade não se improvisam. É na qualificação, formação e condições de trabalho dos docentes que se decide o futuro da escola pública, e do país – não é na velocidade da internet. Certezas. O epidemologista Manuel Carmo Gomes diz que todas as suas previsões falharam para pior e que não sabe explicar bem porquê. E que o Natal por si só não explica, há o frio, a fragilidade da saúde dos portugueses, a idade, e o SNS não estar a tratar bem as pessoas, talvez seja um pouco de cada, diz, mas não sabe bem. Temos aqui um avanço sobre a realidade, digo-o sem ironia. Reconhecer que não sabemos tudo (é um acto de seriedade) e parar de culpar os portugueses. Reconhecer que há problemas estruturais no país e no SNS. Só peca por tardio – também estamos desde Março a explicar, sustentar, que o SNS está sem capacidade para tratar dos portugueses há anos, e que os determinantes sociais da saúde em Portugal (pobreza) são uma das marcas desta pandemia. Ambos se resolvem com carreiras médicas, salários dignos dos profissionais de saúde e aumento geral dos salários dos portugueses para que possam alimentar-se bem , aquecer a casa, e ter uma vida descansada em vez de chegarem, como chegam neste momento, aos 60 e 65 anos doentes pelos ritmos de trabalho. Portugal tem a mesma esperança média de vida da Dinamarca, sensivelmente, mas menos 15 anos de esperança média de vida com saúde, isto é um indicador oficial – em Portugal quem chega à reforma em média chega doente. Há um mês escrevi no Público tudo isto explicando que podiam confinar o país todo mas se não se olhasse para os determinantes sociais da saúde, para a saúde das pessoas e para a pobreza, o estado real do SNS (muito a montante dos cuidados intensivos, que não era e não é aí que está o grosso do problema), e as condições dos seus profissionais não se ia resolver nada. Agora estamos todos nesta prisão domiciliária, em permanente estado de excepção, com a democracia suspensa e o país em pânico, com praias e jardins fechados e as pessoas a falir, e a ver a sua vida destruída. Há um mês disse que um país não discute mortos, mas políticas, e estratégias. Porque é aí que se discutem os mortos – é nas estratégias e nas estruturas que se decide a vida e a morte, o bem estar e o futuro de uma nação e do mundo. A rigor temos muito poucas pessoas que conseguem olhar o país na sua totalidade, as poucas que o fazem não querem estar na política (o TINA neoliberal teve este efeito, quem sabe não quer “manchar” as mãos na “sociedade” porque a “sociedade não existe”), e muitos ignorantes atrevidos pululam entre cargos e crónicas e todos os dias nos explicam que não percebem nada do país mas querem ditar o rumo das nossas vidas. Tudo isto foi possível porque o jornalismo com a pandemia foi fruto, com raras excepções, de algo que já estava em curso e a ser estudado na área – o “emocional turn” – para estes pensadores dos media é preciso notícias emocionais, relatos pessoais, pivots consternados, em vez de razão e factos, análise consistente e teoria densa. Precisamos claro de um “rational turn”.

11 thoughts on ““Emotional Turn”

  1. Plenamente de acordo. Infelizmente, somos raros aqueles que pensam assim. E sinto que expressar estes pontos de vista tem um elevado custo social: o de sermos de todo excluídos. Parabéns por não desistir. Eu também não desisto. E faço como a Raquel: procuro sustentar as informações que nos chegam, para perceber o que têm de credível. As conclusões são as que ambos conhecemos…

  2. temos aqui o resultado dum pensamento elaborado sobre o País, com um conhecimento profundo da realidade que vivemos
    É tempo do Governo deixar de culpar os Porugueses pelo seu falhanço estrondoso na gestao da pandemia

  3. Denota ignorância técnica quem pensa que o ensino a distância possa vir alguma vez a ser um método efetivo. Num professor que pensa assim a ignorância técnica denomina-se de INCOMPETÊNCIA. Tantos que para aí andam…

  4. Por falar em emocional turn, parece que o confinamento agressivo inglês que dura sensívelmente há um mês não está a ter qualquer efeito no número de casos e mortes, que continuam a subir, principalmente ao longo dos últimos dias. De quem será a responsabilidade?

    a) dos portugueses;
    b) do Pai Natal;
    c) da Suécia;
    d) da telescola;
    e) da estirpe ainda não descoberta que contamina por sms e correio electrónico.

    É melhor começarmos a abordar isto com um pouco de humor. Se é para ser apelidado de insensível e negacionista, ao menos que possamos todos dar umas valentes gargalhadas.

  5. – Oh pá, se a culpa é do Natal, atão acabemos com o Natal e prontos. Tá-se bem.
    – Mas os gajos dizem que a culpa é do povo…Os tugas portam-se mal, andam aos magotes nas praias e jardins, amontoam-se nos parques e passeios marginais…. É do caraças!!!!!
    – Ai é? Atão acabemos com o povão e tá a crise da pandemia resolvida, porque eu vou mas é voltar prá ilha e mai nada…Eh eh eh

  6. “o epidemiologista Manuel Carmo Gomes”… onde se formou ele em epidemiologia?
    Lá por se ser professor de uma disciplina, isso torna o prof um douto da especialidade?
    Onde está o seu vasto currículo e experiência de campo no assunto?
    Fui ver esse curriculum e o que encontrei foi formação em biologia e estatística.
    Trabalho de campo (mãos na massa) no acompanhamento, definição de medidas e gestão de casos em epidemias, por cá e por lá… nada, nadinha.
    Venham daí as evidências do professor de epidemiologia, não passar disso mesmo… um prof de secretária, confortavelmente recostado no seu cantinho e bem remunerado pelos seus “amigos”.

    • O Herege atira-se ao Epidemiolgista Manuel Carmo Gomes, porque sendo ele um Especialista de reconhecidissimo merito, deixa o Costa de rastos

    • Lol, até o Ricardo Mexia e a Rita Cavaco são apresentados como “especialistas”…
      E onde está o contraditório para as asneiras que este Manuel Carmo Gomes debita? Nada do que ele diz é unânime, longe disso, e quem tem opinião diferente raramente aparece. A Comunicação Social, nesta variante, como em todas as outras, está completamente viciada.

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