Quem “está nas ambulâncias”?

Ontem ouvi Adalberto Campos Fernandes, ex Ministro da Saúde exigir o encerramento das escolas e um confinamento drástico, e criticar o Natal. Falava sozinho, sem ninguém que tivesse outra opinião para haver um debate esclarecedor. Vou ser breve:

Portugal insiste em não dar o número de óbitos nos lares e nos idosos sozinhos. O Governo insiste que a culpa dos contágios está nos jovens que estudam e trabalham – por isso o ex Ministro quer fechar tudo e rapidamente. Mas, é acima dos 80 anos que estão as mortes desta pandemia na sua larga maioria, e essas pessoas já estão na sua maioria confinadas, sós, e não tiveram grande Natal – o bode expiatório do falhanço total deste Governo aparece assim numa nuvem de “muitos mortos”, “filas de ambulâncias”, quando na verdade há fortes suspeitas que são os idosos institucionalizados (e mais pobres ou de sectores médios) que estão a morrer. Ontem na RTP um bombeiro confessou na fila de ambulâncias – “não todos, mas são quase todos de lares”. Queremos e precisamos de saber os dados, porque a opinião do ex Ministro é válida ou não se tem qualquer conexão à realidade. Não é aceitável continuarmos o “achismo”, sem factos.

Adalberto Campos Fernandes era Ministro da Saúde quando publicámos um estudo, por mim coordenado na UNL para a Ordem dos Médicos, onde fazíamos uma previsão detalhada da falta de camas, médicos especialistas, e apontávamos um horizonte de colapso de algumas especialidades no SNS por falta de formação e concursos. As contas eram fáceis de fazer – calculámos o ano da sua formação, o número de médicos em exercício, a sua idade, os internos em formação actual e as condições de trabalho no SNS. Este estudo foi apresentado publicamente na Ordem, no Congresso de Medicina Geral e Familiar onde o estive eu e o ex-Ministro da Saúde, que então concordámos em discordar. O meu argumento era o seguinte – quando andamos na auto estrada há sempre uma faixa de rodagem que não tem carros, e custa tanto como as outras 2 ou 3 por onde circulam carros. Essa faixa é usada como excedente para acidentes. Está lá para garantir a vida e a passagem para a vida em caso de interrupção ou acidente ou excepção. No SNS há muito que não existe faixa de rodagem de descanso ou excedente, porque depois da troika a queda dos salários – sobretudo no pagamento das horas extraordinárias – levou os médicos a venderem a sua força de trabalho no privado e os enfermeiros no Reino Unido.

Estamos numa pandemia que mata sobretudo, e principalmente idosos acima dos 80 anos e somos um dos países mais envelhecidos do mundo. O Natal para muitos destes idosos foi só, confinado, como sempre. A diferença, tudo indica, é que a seguir ao Natal veio uma vaga de frio de 2 semanas. E os lares, oficiais e ilegais, são gelados, como geladas são as casas e, segundo a epidemologia por cada 3 dias de frio em cardíacos e pessoas com problemas respiratórios aumenta a mortalidade 2% a 3%. O Estado, que celebrou a privatização da EDP (“grande negócio”, lembram-se?!) vem agora oferecer um desconto (pago com os nosso impostos, que os capitais chineses não abdicam dos seus dividendos) de 10% na conta da electricidade mas Portugal tem oficialmente 47% de pobres e 80% a receber por conta de outrem menos de 900 euros. Metade dos portugueses não pode aquecer a casa. A esmagadora maioria dos pobres situam-se nos mais idosos (pensões baixas).

Houve anos de gripes em Portugal que mataram quase 9 mil pessoas (final dos anos 90). Das 500 a 600 mortes diárias 150 têm sido de COVID (mesmo que morram de outras doenças dando positivo para COVID assim são contabilizadas), mas há uma enorme sobre-mortalidade que insistem em olhar, o cinismo, esse que nunca nos larga, como “efeito colateral inevitável” – quando na verdade o SNS deixou de ter a faixa de rodagem de segurança e não podia já sustentar a saúde regular dos portugueses, quando mais a pandemia.A gestão tem sido a de salvar a face politicamente culpando os portugueses pelo Natal e impondo confinamentos que não alteram a progressão da doença onde ela é grave – por tabela leva-se à falência e ao desemprego centenas de milhar de pessoas e pequenos negócios, quando o drama está e continuará a estar nos lares que têm mão de obra pouco qualificada e rotativa. Estamos a viver aquele que é um dos maiores momentos de proletarização dos sectores médios. Espanta-me que estas medidas sejam tomadas sem uma posição clara dos sindicatos dos profissionais de saúde, que os trabalhadores em geral não reajam e não sejam escutados e que o Governo insista em desculpar-se com o Natal. Tiveram quando 1 ano para se preparar (décadas na verdade!), sabendo que havia um pico no Inverno, e conseguiram perder quase 800 médicos no SNS só entre Março e Novembro. Há hospitais vazios ou com larga capacidade por usar, privados, ao mesmo tempo que crescem as filas em alguns públicos. Há milhares de pessoas a testar positivo que não estão doentes.

Estar positivo não é estar doente. Todas as pessoas se forem procurar em PCR partículas de alguns vírus encontrarão dentro de si partes de vírus ou de outros microrganismos. Isso não significa ter um diagnóstico clínico. É preciso olhar para quem está doente e quem é vulnerável e não para casos positivos porque estar positivo não é estar doente. O facto é este – e já era em Março – não há trabalhadores suficientes para cuidar dos idosos, é um trabalho rotativo, pouco qualificado, flexível, e é assim em toda a Europa (incluindo na Suécia! que é aí que se concentram também a maioria dos mortos). Já não havia antes porque os idosos sempre foram o sector mais desprezado pelo modo de produção em que vivemos – são pouco rentáveis, diria um bom neoliberal.

As pessoas andam na rua não porque são irresponsáveis e criminosas mas porque precisam de trabalhar para viver, porque ninguém vive com os 200 ou 400 euros da Segurança Social (quando chegam, que a muitos nem isso chegou até hoje). O país não são os cerca de 700 mil funcionários públicos com salários garantidos, mais de metade das pessoas é precária ou depende de cadeias precárias de trabalho e produção e o que o governo dá…não dá para viver. Não precisamos nem de confinamentos drásticos nem de deixar as crianças e jovens sem escola. É preciso deixar de ocultar que os lares são a bomba relógio do problema, e estes estão confinados mas com trabalhadores que não podem estar confinados! Precisamos de pensar o país com coragem, com contraditório.

Não se enfrenta uma pandemia respiratória sem garantir alimentação, aquecimento e conforto à população (para isso a requisição/nacionalização da EDP era e é uma necessidade, bem como controlo de preços alimentares); precisamos de um SNS que atraia os melhores profissionais (experimentem duplicar salários e vejam quantos sairão do privado para o SNS? – fiz esta proposta 100 vezes este ano…); e, finalmente, não se enfrenta uma pandemia sem a coragem de dar notícias com honestidade intelectual. Quem está dentro daquelas ambulâncias? Que idade tem? Que rendimento tem? Em que tipo de instituição estavam? Quantas delas estavam sozinhas num lar ou em casa?

9 thoughts on “Quem “está nas ambulâncias”?

  1. Aparentemente uma intervenção positiva…, contudo, se tivermos em conta que é de alguém que não tem responsabilidades governativas e pertence ao sector (sinistra) responsável pela pobreza e misérias várias que afligem as pessoas em muitos paises, entendo que é conversa oca, sem força ética! Ainda não perceberam que a esquerda já nos colocou na cauda da Europa e a viver de euro-esmolas, querendo colocar-nos ao nível da Coreia do Norte ou da Venezuela? Ai se não tivessem sido Cavaco Silva e Passos Coelho e seus colaboradores, o que seria de Portugal?

  2. O Amora pretende fazer-nos esquecer que foi precisamente o Acabado Silva quem vendeu o país ao desbarato e privatizou muitas das nossas infraestruturas, tendo esmagado grande parte do tecido produtivo, como bom discípulo de Thatcher.
    Claro que dou inteira razão à Raquel, mas cumpre alertar para uma outra face do problema. Assistimos a uma corrida perdida à partida como bem sumarizou a Raquel. Um dos fulcros do problema reside precisamente na corrida à hospitalização. Como sempre consideraram os espíritos mais avisados, a montante têm de funcionar centros de saúde que atendam os casos menos graves para descongestionar os hospitais. A esses competiria levar as pessoas a fortalecer a sua imunidade natural e a tratar com os diversos fármacos que mostram bons resultados contra o C-19. Mas nada disso está a ser feito.
    Porque será??????

  3. https://noscornosdacovid.blogspot.com/2021/01/da-suecia-onde-afinal-os-velhos-morrem.html

    Partilho o link acima, do blog do Pedro Almeida Vieira, apelando a que seja lido pelo maior número possível de pessoas. Esta análise deveria abrir telejornais durante uma semana e lançar uma discussão séria e aberta em relação a tudo o que se está a passar. Estes números não mentem, não são crenças, não são previsões catastróficas com base em modelos duvidosos. São uma parte fundamental da REALIDADE e do que aconteceu verdadeiramente ao longo do último ano.

  4. Trocámos tudo o que sabemos e aprendemos ao longo de séculos sobre as mais variadíssimas áreas por tudo o que não sabemos ou pelo que alguns afirmam ser verdade (quase sempre sem qualquer evidência), sobre a covid-19. Somos governados por gente que se demitiu de qualquer responsabilidade ou da simples capacidade de assumir erros, decidindo o que fazer com base em crenças e na narrativa que mais lhe é conveniente. Os “especialistas” não são ouvidos antes de serem tomadas medidas. São ouvidos depois de essas medidas já estarem decididas e escolhidos a dedo para validarem a lengalenga da culpa é dos portugueses, do Natal e do Ano Novo.

    A culpa é dos portugueses que se juntaram nessas festas, sobretudo nos lares, onde sabemos que se realizaram mega eventos, com direito a pista de dança e tudo. Já os ministros que recentemente apareceram positivos, coitados, estiveram a trabalhar para poder pagar contas ao fim do mês e infelizmente aparecerem infectados. Também o nosso Presidente da República não teve culpa alguma de dar positivo à covid-19. Sim, não digam que foi falso, porque segundo a TV, polígrafos e quase todos os “especialistas” consultados não existem falsos positivos, isso é uma invenção de negacionistas! Já que andamos numa de crenças e afirmações que não parecem carecer de qualquer validação científica, eu acho que o Sr. Presidente se curou em poucas horas por acreditar na Nossa Senhora (sem ofensa, mas também está provado que são estas pessoas quem mais valoriza as vidas humanas).

    Comentadores e “especialistas” pedem medidas ainda mais drásticas, invocando mais uma vez as suas crenças pessoais e a narrativa que nos despejam há 10 meses, apesar de a realidade nos mostrar exactamente o contrário, ou seja, com ou sem medidas a covid já faz parte dos nossos dias. Confinados ou não, os resultados de todos os países são basicamente iguais, tanto no que diz respeito à mortalidade covid como à mortalidade geral, que para muitos parece não ter qualquer relevância. Pedem mais confinamento, mais multas e mais máscaras. Conseguem fazê-lo em estúdios fechados, sem máscara, rodeados muitas vezes por outros comentadores, jornalistas e técnicos audiovisuais. Se isto não é o cúmulo da hipocrisia e do ridículo, não sei o que poderá ser.

    Alguns referem ainda que não sabemos as consequências da covid a longo prazo nos mais jovens e por isso temos que nos confinar todos. No entanto, volvidos 10 meses não apresentam quaisquer dados com esses milhares de jovens que mal podem agora respirar. Se calhar, as consequências só aparecem em 2030 e a culpa ainda vai ser do Natal. Aliás, podemos perceber por uma actividade com enorme visibilidade, o futebol, o que aconteceu aos já milhares de jogadores (pessoas jovens, portanto) que deram positivo à doença. Se conhecerem algum que passados 10 dias não continue a correr e a marcar golos como sempre avisem-me porque devo estar a viver em Marte e ainda não me apercebi.

    Por último, importa discutir, em pleno século XXI, se as pessoas têm consciência de que estão a viver numa ditadura. Se não têm essa consciência, será que podemos chamar ditadura a isto? Se for aceite pela maioria, será mesmo uma ditadura? Penso que se impõe mais do que nunca uma séria discussão, apelando à participação de todos os quadrantes da sociedade, para que possamos abordar o rumo existencial que estamos a tomar, onde mais parece que quem quer viver é visto como extremista negacionista e quem não quer morrer (mesmo que “vivendo” dentro de uma bolha) é visto como o modelo civilizacional a seguir. Ambos querem no fundo a mesma coisa, só não é justo que os segundos queiram ditar aos primeiros como devem viver as suas não mortes.

      • Eu é que agradeço por dar voz a tantas pessoas que sentem a sua liberdade posta em causa, através da sua participação pública em debates e outras iniciativas. É uma lufada de ar fresco e racionalidade poder ouvi-la. Um abraço.

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