Escolher sabonetes

Já vivemos num país onde o debate foi entre Cunhal e Soares e os temas eram todos de estratégia política e económica da sociedade. Duravam um longo tempo e expunham-se ideias estructuradas. Claras. E desenvolvidas. Que país e que mundo? eram as questões. Agora são 30 minutos, cronometrados, e os temas são ou mentiras e desmentidos ou a opinião sobre o último acontecimento da conjuntura da última semana. Seguem-se duas horas de comentários, sem cronómetro, sobre o que acham que os candidatos teriam dito e “quem ganhou” – para que não restem dúvidas que se trata (também) de um modelo análogo aos concursos televisivos. Quem ganhou e quem perdeu, carregue no botão. Lazersfeld chegou aos EUA e disse a Adorno que nos debates e pesquisas as pessoas deviam escolher como escolhem sabonetes – com o botão de like e dislike. Adorno respondeu-lhe que isso não eram escolhas, mas espectáculo. Lazersfeld venceu – foi o “pai” das modernas campanhas norte-americanas. Registo a dignidade com que alguns dos candidatos nestes debates tentaram estar neles, no meio do concorrente Big Brother Ventura, bom vendedor de sabonetes. Mas temo que o esforço tenha sido inglório. Portugal teve um dia Cunhal e Soares – porque teve uma revolução que pela primeira vez na vida abriu um caminho no novo e possível para um país neste canto finisterra. O mundo do trabalho teve poder e pensou um país, país que a sua burguesia histórica nunca ousou pensar. Sempre se contentaram em ser sócios menores de outros poderes. Debatia-se em 1975 futuro porque havia um futuro desenhado por gente humilde na sua maioria que disse que tinha um sonho- viver num país livre e igual. Gostemos ou não das políticas que defenderam Cunhal e Soares ninguém pode ignorar que eram dirigentes políticos de grande cultura e de impacto e alcance mundial, que até nos seus erros eram admiráveis. Nenhum deles – à sua maneira – confiou nos trabalhadores que fizeram a revolução, a mesma revolução que lhes permitiu a oportunidade de se terem tornado grandes dirigentes políticos mundiais. Esse é enfim o busílis de toda a questão. A revolução derrotada. A razão porque nos tratam hoje como compradores de sabonetes. Não ter confiado (nem Cunhal nemSoares) no mundo do trabalho em 74-75 trouxe-nos aqui – a esta longa e sistemática decadência nacional. Nunca se debateu estes dias uma única vez a ideia de país.

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