Política de “Andar à Porrada”

O debate ontem entre Ventura e João Ferreira foi uma aula para quem acha que o Chega deve ser legal e normalizado. Foi uma humilhação para o PCP e um terrível constrangimento para todos nós, desprezados. Ventura não está ali para debater nem apresentar ideias. O fascismo não é uma ideologia como outra qualquer nem o seu objectivos são ideias, apresenta-se com uma organização política legal, com milícias nos bastidores para amedrontar, ameaçar e aniquilar dirigentes de esquerda ou sindicais e apoiar medidas autoritárias, suportadas financeiramente por empresários desesperados. A sua expressão legal, em debates, é a boçalidade.

Ganha quem consegue impedir os outros de se expressarem. Na ausência de uma milícia ali no debate, em público, que pudesse bater e amordaçar João Ferreira, Ventura usou da máxima violência verbal, já que a física estava vedada – o princípio é o mesmo, calar e suprimir o adversário, não debatendo uma única ideia. Ninguém conseguiu ouvir nada, nem das ideias de João Ferreira, nem dos grunhos de Ventura, altos, para que nada se escutasse. A moderadora foi tratada por Ventura com um desrespeito vergonhoso – um adorno, uma inexistência para Ventura continuar a grunhir. Com Marcelo será mais polido.

Fica como exemplo para quem acha que se deve dialogar com a extrema-direita ou para quem tenta normalizá-la porque é um “deputado” eleito, ou ainda para quem, no delírio sem história, afirma esse imberbe chavão de “que é a outra face da moeda da extrema-esquerda”. Ventura não é a outra face de nada – está aqui para “andar à porrada” – sem aspas. Ontem dissiparam-se as dúvidas.

E nesse ringue vai ajudando à radicalização do PSD, agora feliz por ter justificação para ir mais à direita, e à normalização de Marcelo como “líder de todos os portugueses” sendo que historicamente nasceu no berço da extrema-direita economicamente mais liberalizante no fim do Estado-Novo, saiu daí para comunicação social e uma breve passagem frustrada pelo PSD e daí para o carinho da Geringonça num Portugal mergulhado na união nacional do retrocesso de 2008 – o mesmo Marcelo que agora, sem surpresas, aceita “naturalmente” dar posse a um governo onde Ventura esteja presente. À esquerda não creio que fosse possível outra alternativa que não fosse a de ter recusado sentar-se na mesma sala – com fascistas não se dialoga. O resultado foi uma enorme humilhação e certamente nem mais um voto.

No outro lado estava Marisa Matias do BE que confundiu polidez, necessária e decente, com ausência de oposição política – só faltou dizer, como li por aqui com graça, que ia votar em Marcelo. Ou seja, do outro lado, nada. Um vazio de alternativas. Aos trabalhadores que olham o vazio e que vão seguindo esta página não dou conselhos em quem votar, mas se têm a ideia de votar em Ventura pensem antes de tomar esse decisão.

A frontalidade com que Ventura combate o “sistema” não faz com que ele não seja uma importante engrenagem desse “sistema”. Todo ele é “sistema” e dinheiro do “sistema”. Se não se revêem noutros candidatos saibam que até a abstenção, os nulos e os brancos defenderão mais os trabalhadores do que um voto em Ventura. Há partidos em Portugal que não respeitam a vida, o trabalho e os direitos de grande parte da população, admito-o, infelizmente. Mas Ventura faz o pleno – goza e desrespeita com o país inteiro.

11 thoughts on “Política de “Andar à Porrada”

  1. É o que este artigo faz, dá de barato que o ventura ganhou o debate, ganhou como? Porque assim o diz? Não me revejo no ventura e, apesar de saber que outros o fazem, não lhe dou essa importância, é só focar no programa que há matéria mais que suficiente para contra argumentar…

  2. Hooliganismo não é fascismo. Mais uma vez faz tábua rasa da História e apela ao populismo anti fascista de pacotilha. Leia “Quem é fascista” de Emilio Gentile, “Totalitarismo” de Arendt, etc…

  3. Talvez a revolta de Ventura, seja uma revolta de muitos Portugueses. Uma justiça que não funciona. Banqueiros roubaram, mas continuam a passear pelo chiado. Não gostam que se diminuem os deputados. Não aceitam o corte aos deputados 14%
    Afastamento do Sr. Juiz Carlos Alexandre. Vamos ser honestos. Acabar com as mordomias dos dos políticos. etc. Pobre Paìs, qual será o teu rumo!

  4. Em vez de enterrar-mos fastasmas politicos que nada tem para nos ensinar e a historia assim o prova, cada vez lhes damos mais forca, porque?

  5. Neste momento, estamos a ser ameaçados por uma cambada de cobardes -, alguns deles não tem a coragem de dar a cara, e quanto aos que estão na linha da frente, dessa ,canalha, mais tarde ou mais cedo vão ter o que merecem…
    Não é uma ameaça -, mas uma certeza!

  6. No artigo só não concordo que seja dito que o PCP foi humilhado. Por essa ordem de ideias toda a violência exercida, como foi o caso com a violência verbal, seria uma humilhação. O PCP foi sujeito a grande violência antes e já depois do 25 de Abril e isso não configura uma humilhação. A humilhação só é efectiva quando alguém aceita essa humilhação por qualquer interesse ou para tirar partido de uma situação não importa a que preço. Apelo para que Raquel Varela, por quem tenho admiração, possa corrigir esse pormenor do seu esclarecido artigo.
    Desde já lhe agradeço
    Luís

  7. Todos os parasitas que vivem através da politica de uma forma direta ou indireta, para chegarem à carteira de um povo masoquista e de todos aqueles que só falam e não actuam … é tudo farinha do mesmo saco.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s