Mortalidade não Covid é mais de metade

Chegaram hoje aos jornais os dados do excesso de mortalidade em Portugal. Aconteceu o que previmos há meses. Mais de metade do excesso de mortalidade não é de Covid, é de falta de assistência na saúde. Os que conhecemos a sociologia do país e o SNS, e a assistência privada, sabíamos que este seria o resultado. Não argumentem por isso que as medidas do Covid estavam todas bem, “só faltou assistência aos outros”. Porque isso é inaceitável, é prosseguir no erro. Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. O que se fez ia dar este resultado previsível (que previmos) porque se bloqueou o acesso ao SNS, a maioria não têm nem podem pagar seguros privados, e se fez uma campanha que promove o terror e o medo.

A campanha aliás continua, pese embora estes números trágicos – hoje mesmo poderão encontrar a famosa campanha da DGS nas televisões que tem gente jovem ventilada a dizer Uma Janela Aberta teria Evitado Isto. É um indecoroso atentado quer à ciência quer à ética (pois nenhuma da aquelas relações pode-se provar, “Se não usares máscara acabarias aqui”…) e, mais uma vez, espalha o pânico, não deixando as pessoas mais frágeis procurar assistência. O DN hoje resolveu usar duas gordas bombásticas que não conseguem informar nada sobre estes números, pelo contrário: são eles “A Maior Mortalidade em 100 anos”, e “Quase metade do excesso de mortalidade é de COVID”. Ora o que os números nos dizem é outra coisa: esta é a maior mortalidade em 100 anos por falta de assistência médica, e mais de metade do excesso de mortalidade é não Covid. Estas são as conclusões informativas dos números do INE.

Falhou-se em toda a linha, e, neste quesito Portugal está entre os piores do mundo. Mas não se quis ouvir quem tinha outras estratégias, num afã de proteger o Governo e o PR e medidas que não só devastaram a economia, como não conseguiram salvar milhares de pessoas. E a conta da saúde mental, essa ainda não entrou nos dados.Podia ter sido de outra forma – com requisição do sector privado, campanhas de educação, todos os serviços não Covid abertos, campanhas a dizer às pessoas “se se sentir mal confie no SNS”.

Alertei aqui nos meus estudos do SNS que com estas medidas da pandemia, o SNS este estava a transformar-se num lugar de agudos, abrindo o mercado de doenças diferenciadas e lucrativas ao sector privado. E que, dados os baixos salários do país, muita gente ia morrer e sofrer porque não teria acesso nem ao SNS nem ao sector privado. Agora há que fazer o balanço: do Governo e do PR; dos Partidos que sustentaram estas medidas; do populismo das campanhas aterrorizadoras, que atacam os mais frágeis que desconhecem dados e factos; e do anticientificismo que nos foi oferecido nestes meses sempre com o intuito de “salvar vidas” e sempre em nome de uma evidência científica que nunca chegou a não ser na forma de profissões de fé e argumentos de autoridade; da desinformação que aparece não só nas redes sociais mas no próprio jornalismo que, e com honrosas excepções, não foi o 4º poder, mas parte da Instituição Estado. Um jornalismo feito de investigações com contraditório, que fosse parte da educação e informação da população, teria tido um papel fundamental – para isso temos que começar a discutir as condições em que trabalham os jornalistas porque sem segurança laboral não há liberdade nem correcção de erros.

Noutro artigo mais longo farei um balanço do que se passa dentro do SNS, porque ou os profissionais de saúde assumem a gestão democrática do mesmo ou no próximo ano, com ou sem vacina, este rumo não se vai inverter – dado que o SNS está hoje muito menos capaz de responder aos desafios do que estava em Março, quando se começou este rumo sem norte, que visava o impossível – controlar uma pandemia sem tocar no sector privado. Era sol na eira ou chuva no nabal.

7 thoughts on “Mortalidade não Covid é mais de metade

    • Então, se fizer favor, diga quais são as conclusões mais complexa (ou menos simples, como queira), porque eu, pessoalmente, e talvez mais pessoas, gostaríamos muito de as conhecer. Para nossa elevação espiritual.
      Agradeço desde já a sua melhor atenção.

  1. Mais uma vez a Raquel tem carradas de razão e o governo e os seus acólitos, incluindo os media, saem profundamente execrados deste confronto com a realidade. E depois ainda nos vão pedindo confiança. Era óbvio desde o início, como a Raquel frisou, que os milhões de consultas que não aconteceram, as milhares de operações adiadas, as milhares de análises e exames que não foram feitos em nome de “salvar vidas”, só podiam ter os mais trágicos resultados. Nada como fugir para a frente da presidência europeia para desviar as atenções sobre o desastre em casa. As consequências serão bem pesadas.
    Não esbanjámos………..Não pagamos!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Dado o pouco interesse que a Saude tem para o Antonio Costa, porque a Saude não dá votos, o Costa optou pela luta contra o Covid19, que estava na berra e na moda, embora com uma falta de lucidez impressionante, como aliás era de esperar dum governo do Antonio Costa

  3. bom artigo.

    e mais, continuam sem fazer distinção entre morrer DE covid ou COM covid, o que é aliás como se diz em informática “it’s a feature not a bug”, nas palavras da sra DesGraça Freitas e passo a citar:

    – [Os países contam as mortes por Covid de forma diferente. Contagem em Portugal considera mais casos – Observador](https://observador.pt/especiais/os-paises-contam-as-mortes-por-covid-de-forma-diferente-contagem-em-portugal-considera-mais-casos/)

    – [Os países contam as mortes por Covid de forma diferente. Contagem em Portugal considera mais casos – Observador](https://archive.vn/9OwKY)

    > Se Portugal estiver a cometer erros na contagem de mortos por Covid será por excesso e não por defeito. É essa a convicção da Direção Geral de Saúde, expressa no *briefing* da DGS de terça\-feira por Diogo Cruz, subdiretor\-geral da Saúde, e reforçada na quarta\-feira pela diretora\-geral. “Se um médico escreveu no certificado de óbito que o evento terminal foi Covid, então é assim que esse óbito é contabilizado”, esclareceu Graça Freitas. Ou seja, tal como em Itália, Portugal está a registar os óbitos com Covid e não apenas os por Covid. A escolha da preposição faz toda a diferença. Até agora, antes da pandemia, um doente oncológico, por exemplo, podia morrer infetado com Covid, mas o cancro não deixava de ser a causa da sua morte na contabilização. Agora, tudo mudou.

    > Em tempo de pandemia, as regras foram alteradas. “Se o evento final, se a última linha que o médico preenche, for por Covid, nós não estamos a codificar da forma tradicional, estamos a considerar que o evento terminal é a causa última”, explica Graça Freitas.
    > Na véspera, Diogo Cruz deu uma explicação idêntica. “Em Portugal, estamos a ser muito abrangentes na classificação de casos de falecimento por Covid.” Qualquer pessoa que tenha Covid — “e que tenha a menor causa de falecimento por uma questão infecciosa” — está a ser considerada na contagem dos óbitos derivados do surto de coronavírus, “o que não é verdade para todos os países, incluindo os da Europa.”

    – [DGS – Graça Freitas e atribuição de Óbitos por COVID](https://lbry.tv/@DeviHope:8/DGS-Graca-Freitas-atribuir-Obitos-por-COVID:8)

    ou seja, mesmo os números do covid pecam por excesso, o que implica que as mortes de outras causas são ainda bem mais elevadas.

    bom ano, se os incompetentes e descaradamente mentirosos que nos desgovernam nos derem alguma paz.

  4. Dizem ser a matemática, a mais exata das ciências. Acredito que de facto o seja, sempre que expõe, trabalha sobre números/factos reais e não sobre variáveis de estimativas e expectativas. Estas últimas, sempre expostas à manipulação de factores extrapolados por conveniência, pelo autor, homem ou máquina, em função da obtenção de determinado resultado para se chegar ao determinado objetivo pretendido, justificando-se determinada metodologia planeada.
    Mas, quando o exercício é feito com rigor e profissionalismo, sobre dados reais e fontes credenciadas, as quais podem ser objeto de comparação validativa entre si e com os registos dos tempos, algo a que chamamos a evidência dos números, acontece.
    Confirma-se ou desmente-se, categoricamente e com carácter de prova jurídica, o que tantos dizem por dizer, dizem por querer, dizem para vender e/ou dizem para nos mentir e enganar.
    Aconselho, a todos quantos não se acomodaram, nem pretendem assumir nas suas vidas, as posições conhecidas das estatuetas africanas dos três pequenos macaquinhos, onde um tapa os olhos, outro os ouvidos e o outro a boca, a acompanharem assiduamente o trabalho de um português sem medo e carregado de razão, matematicamente falando…
    (*ttps://noscornosdacovid.blogspot.com/)

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