Os “Grupos pela Verdade” e a qualidade da informação pública.

Como sabem o debate em Portugal sobre as medidas da pandemia está mais ou menos reduzido a um jogo de futebol entre crianças de 5 anos, há os do clube catastrófico e os negacionistas. De um lado notícias que contam mortos com gráficos descontextualizados, espalhando o pavor como medida “educativa”, dizem-nos. Do outro todo o tipo de grupo estranhos. Um dos grupos que é chamado ao debate são algo que dá pelo nome de “Médicos pela Verdade”. Não conheço tal organização, nem sei se é uma organização – limitei-me a ver um vídeo, o que não permite tirar conclusões, e não ser do vídeo em causa. Primeiro: uma qualquer coisa chamada Pela Verdade causa-me logo estranheza. Estamos perante uma pandemia, e um novo vírus, cujos consenso é cada vez menor e o desconhecimento enorme – há porém um grupo que acha que sabe a verdade. É de desconfiar. Segunda questão – a bandeira de Portugal atrás do vídeo tem um cunho nacionalista e xenófobo, ainda que seja apenas um lapso patriótico, digamos assim. O facto é que muitos destes grupos no mundo têm sido colonizados ou aproveitados pela extrema-direita. Não estou a dizer que é o caso, mas não é um acaso que o negacionismo foi liderado por homens de extrema-direita como Bolsonaro e Trump.

O que ouvi no vídeo é um misto de verdades e mentiras – questionam os testes de PCR, uso de máscaras, confinamento – o que muitos cientistas sérios no mundo fazem. E juntam a isso “verdades” como isto é tudo uma cabala, estava programado, é uma gripe como outra qualquer, etc. Ora, nós temos um vasto corpo de cientistas, quer nacional quer estrangeiro, que pode questionar com fundamento a eficácia das medidas do Governo explicando que sendo uma gripe, ou mesmo até menos para a maioria, não havendo imunidade de grupo, pode e está a colapsar os cuidados intensivos. E que o recolher obrigatório não terá qualquer efeito nesse colapso. A rigor a minha conclusão depois de um vídeo é que estes grupos só ganharam espaço porque o Governo deu-lhes espaço com os seus próprios erros, aprovando medidas contraditórias, injustas, muitas irracionais e deu, não raras vezes, números falsos como verdades inquestionáveis, e ainda uma incapacidade notável de assumir que falhou no essencial, que é o SNS, e, por fim, cereja no bolo, manter a produção em pleno e culpabilizar as famílias pelos contágios que são na produção que está a funcionar em pleno. É aqui que grupos negacionistas ganham amplo auditório, porque vêem que as medidas do Governo são incoerentes, destroem os empregos e não estão a impedir uma gravíssima crise de saúde pública, que se agrava em COVID e não COVID.

Não sou porém a favor de se eliminar as páginas como os MPV ou que se perseguiam os seus autores como “desinformação”. A ser assim teríamos que proibir algumas conferências de imprensa do Governo que em matéria de desinformação têm sido inesgotáveis, apesar de acompanhadas de power Point. Abrir notícias com idosos a ser entubados não é uma boa resposta também, já que ajuda a espalhar o pânico e alimenta os dois lados da barricada. Sobretudo, o medo, tira os mais frágeis do acesso aos hospitais, que deixam de ir tratar-se. É essencial acabar com o pavor que está a impedir as pessoas de terem acesso a cuidados de saúde em situações não COVID.Proibir ou atemorizar não é o caminho. A única coisa que nós podemos fazer pela verdade é estimular a dissensão, a razão crítica, o contraditório, dar a conhecer a ciência que se produz, as dúvidas. Se a comunicação social der mais espaço à crítica e ao debate com contraditório creio que as pessoas vão refugiar-se menos neste tipo de sites. Parece-me que é esse o sentido da informação. Se apostarmos em educar a população teremos menos claques de futebol nesta pandemia.

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9 thoughts on “Os “Grupos pela Verdade” e a qualidade da informação pública.

  1. «A única coisa que nós podemos fazer pela verdade é estimular a dissensão, a razão crítica, o contraditório, dar a conhecer a ciência que se produz, as dúvidas.»

    Que é o que fazem os Médicos pela Verdade.

    Como cientistas que são, eles não se acham detentores da verdade absoluta. E, nas entrevistas que são feitas aos mesmos, é implicitamente dito que a Ciência é eternamente feita de Debate, onde tem de ser dado lugar ao contraditório.

    (Sendo também que, toda a gente com boa formação científica sabe que “em Ciência, nada é absoluto” – tal como dizia a minha professora de Química do 12º ano.)

    Contudo, há coisas que já estão muito assentes em Medicina, e não só. E, até que venha alguém com provas em contrário, são tidas como presumíveis factos.

    E, o que fazem os Médicos pela Verdade, é contar (1) o que aprenderam (bem) durante a sua formação médica e (2) o que concluíram de pesquisas que andaram a fazer de estudos científicos de qualidade que existem sobre os assuntos em causa.

    (Um exemplo: se quiser, tem a seguir uma compilação de artigos científicos que denunciam a ineficácia do uso de máscaras: h*tps://vaxxter.com/wp-content/uploads/2020/07/Masks-Final.pdf)

    Ser “pela Verdade” é, primeiro que tudo, denunciar o que são claras Mentiras – que é o que fazem estes médicos, relativamente ao que diz o governo. E, depois venha-se então debater o que poderá ou não ser (em maior ou menor grau) verdade.

    Em suma, ser “pela Verdade” é obviamente também ser “pela Ciência” (onde eternamente se tenta descobrir a Verdade – e no decorrer da qual se descobrem também aparentes Mentiras).

    Talvez o melhor, seja dar mais importância a quem tem uma Grande Formação na área da Medicina (e que, por isso, saberá do que está a falar) e ver mais do que um mero vídeo, antes de fazer um julgamento.

    E, outra observação,

    Os Médicos pela Verdade não são de Esquerda nem de Direita. São um grupo politicamente neutro, em que os próprios até dizem que nem se preocupam em saber que posições políticas têm os restantes elementos do seu grupo.

    Eu, que muito sigo tais médicos (e que também não estou interessado na posição política dos mesmos) sempre fui de Esquerda (da verdadeira, que praticamente não existe neste País, desde que o PCP foi domesticado). Não sendo eu, nem de extrema-direita, nem “negacionista”.

    Entre as pessoas e os grupos sérios,

    Ninguém nega a existência do vírus. Apenas, contestamos a gravidade do mesmo. E, quase toda a gente que pesquisa seriamente sobre o assunto, chega à mesma conclusão – de que, não representa este novo vírus um perigo maior do que a gripe sazonal.

    Todos os anos morrem milhares de pessoas por gripe. A diferença, com este novo vírus, é que, em vez de morrerem abandonadas nos corredores de um SNS subfinanciado, e serem ignoradas pelas notícias, morrem antes possivelmente ligadas a um ventilador, numa UCI, contribuindo para a já enorme falta de quartos que existe no SNS, fruto de um política consciente que visa asfixiar o último.

  2. Dr. Fernando Nobre, diz-lhe alguma coisa?

    Se não gosta do rótulo usado por estes grupos “pela Verdade”, oiça a muito boa entrevista que ele deu, há poucos dias, ao Rui Unas (e que tanta polémica gerou: h*tps://www.facebook.com/ruiunas/photos/a.130707476977162/3474671135914096/).

    h*tps://www.youtube.com/watch?v=F8PfJMIuLnk

    • É o ponto a que chegámos, com a lavagem ao cérebro europeísta – em que, ser-se nacionalista (i.e. querer manter as suas cultura e identidade únicas) já é sinónimo de ser-se “xenófobo” (termo ridículo, que na realidade não se aplica a quase ninguém).

      Para mim, o que tem cunho mesmo muito negativo é a bandeira da União Europeia. Pois, sabendo eu que esta união e centralização de poder, que não foi desejada por nenhum dos povos europeus, é em boa parte a concretização de um IV Reich (h*tps://blackfernando.blogs.sapo.pt/a-uniao-europeia-e-em-boa-parte-a-131523) o que vejo é tal azul como cor da nova forma de Fascismo que temos.

      Já agora, Dra. Varela, a bandeira nacional por trás de quem fala, não é da parte de algum dos Médicos pela Verdade. É uma “assinatura” de um conhecido activista, que tem entrevistado tais médicos – e que se distingue por ser ex-militar e estar emigrado (https://www.facebook.com/queroemigrarhoje).

      • Questiono muito a “evolução” que CEE teve até aos presentes moldes da UE, com um poder centralizado, em que burocratas NÃO ELEITOS em Bruxelas (que nem sequer sabem o que é um pastel de nata) é que realmente me governam.
        Mas opinar que caminhamos para os Estados Unidos da Europa, em que Portugal perde a já pouca soberania que ainda tem, faz de mim um negacionista ignorante e xenófobo que deve ser calado.

        Mas até me calarem continuarei a questionar. Acho que é salutar.

        https://lifetidesblog.wordpress.com/2020/09/06/negacionista/

      • A União Europeia foi até criada com a ajuda de ouro nazi.

        O que é feito do ouro que os nazis pilharam, na Segunda Grande Guerra? R: Foi também evacuado para a Argentina. E, quando a situação estabilizou na Alemanha, voltou para a última nos anos 1950 – dando origem ao económico “Milagre do Reno” e – sendo usado para criar o Clube Bilderberg, que viria, por sua vez, a criar a União Europeia. (Fontes estão na hiperligação que deixei no meu comentário anterior.)

        Também, o Tratado de Roma (que criou esta União) não só foi assinado na cidade de Roma, como especificamente no monte correspondente à cidadela que esteve na origem do Império Romano… E, a escolha não foi inocente (h*tps://twitter.com/BlackFerdyPT/status/808789275772796928).

        Também,

        Na manifestação de ontem, de desempregados em frente ao Parlamento, mais uma vez puderam ser vistas bandeiras nacionais e foi cantado o hino nacional (h*tps://www.facebook.com/dias.joelngnigg/videos/1562479550610331/).

        Mas, consigo ver uma mulher negra na multidão e ouvir um chef jugoslavo a discursar… Devem então ser como os imbecis “guerreiros pela justiça social” brancos nos EUA que se revoltam contra a si próprios…

    • O activista Alfredo Rodrigues, que é quem aparece com a bandeira nacional por trás nos vídeos mencionados, fez um vídeo de resposta a esta colocação da Dra. Varela:

      h*tps://www.facebook.com/queroemigrarhoje/videos/186501649809195/

  3. Nicolas Bonnal.
    Fonte : nicolasbonnal.wordpress.com

    “O distanciamento social, as máscaras, a lavagem obsessiva das
    mãos, o medo do próximo, a vida à distância, tudo isso cheira a burguês.

    Finalmente, vamos dizer sem rodeios. Somos governados por burgueses perigosos. Volage, libertino, o burguês selvagem será implacável nas questões do dinheiro e da mundialização, e se-lo-á tanto mais quanto estiver preocupado com as questões da migração, do clima, do ultra-regionalismo ou da poluição. Ele é humanitário, portanto, mais moral do que as pessoas que ele explora e despreza com o seu trunfo. Soros, Rothschild, Macron, os servis e os lacaios muito bem pagos da TV são burgueses que se consideram mais valiosos do que nós, em termos materiais, mas também em termos morais. Eles, portanto, reivindicam o direito de nos substituir. E mantiveram, com o seu modelo anglo-saxão, como inimiga de sempre, a Rússia, que, czarista, comunista ou democrata ortodoxa, tem o poder de os enlouquecer.”!

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