Diagnóstico

O Público tem dado a entender em grande destaque que as duas juízas do Acórdão da Relação que determina a ilegalidade da quarentena dos Açores não saberiam ler artigos científicos, e que estariam a ser alvo de “procedimentos internos”. O Conselho de Magistratura já deixou claro, em resposta, que vai ser debatido o assunto mas não há nenhum processo disciplinar ou outro em curso. Este Acórdão porém é de uma importância central, para todos nós, mas sobretudo para os médicos. Porque o que ele diz é que só os tribunais podem dar ordem de prisão, enfim, o elementar de qualquer democracia. E que – sublinho – só os médicos podem fazer diagnóstico de uma doença. Um laboratório não se substitui a um médico, nem a máquina a uma prática clínica.

Os testes, como o PCR, são, como o diz o nome, “um meio auxiliar de diagnóstico”, mas é ao médico que cabe fazer o mesmo. Isto tem muita importância para a pandemia, o intervalo de confiança do PCR é inferior ao de uma sondagem eleitoral, e sobretudo demonstra a presença, com grande margem de erro, do vírus, mas não da doença.

Porém, o mais importante para mim é que, com os anos, os médicos têm sido expropriados do direito ao diagnóstico porque, por falta de tempo nas consultas, do esboroar da relação médico-doente, da proliferação de protocolos padronizados e possíveis processos judiciais, do trabalho à peça, da quantificação dos actos médicos, cada vez mais o diagnóstico fica nas mãos de uma máquina e não do saber clínico. O sentido revolucionário deste acórdão é dizer que não, nada substitui o médico no papel de diagnosticar a doença. Não me parece portanto coincidência que o ex-bastonário e dono de uma rede de laboratórios Germano de Sousa, que segundo o mesmo jornal lucrou dezenas de milhões de euros em plena pandemia (nunca percebi porque os laboratórios privados não foram requisitados, já que estamos em estado de emergência) tenha usado palavras no mesmo jornal contra as juízes que não só procuraram contradizer o Acórdão, o que estava no seu direito porque sendo dono do laboratório pode ter na mesma razão e magistrados não são deuses, mas foi mais longe, e num ataque ad hominem tentou denegrir as magistradas, que aos seus olhos são quase analfabetas, que não conseguem interpretar artigos científicos. O Público teve pouco cuidado e conseguiu fazer todas as gordas do assunto na mesma linha, umas tontas, enfim que se aventuraram pelo campo da epidemologia e caíram no ridículo, é o sentido geral das notícias. Ora, é fácil perceber que se um teste pode ter até 30% de erros há dezenas de milhar falsos. Mesmo que só tenha 5% de dados errados, percentagem que Germano de Sousa aceita no mesmo jornal, continuam milhares falsos, porque o universo é grande – é fazer as contas, já dizia Guterres. Mas isso, reitero, para mim não é o central deste Acórdão. O central é como as magistradas devolveram aos médicos, num importante acórdão, que creio fará história, o sentido real da sua profissão. Numa era em que a automação da medicina ameaça transformar esta profissão numa linha de montagem, este acórdão é um imenso progresso – um “travão”, no campo das ideias, na proletarização dos médicos.

5 thoughts on “Diagnóstico

  1. Não estou de acordo com muito do que esta senhora diz, mas desta vez, curvo-me perante as suas palavras.

    É claro que estas senhoras (segundo já ouvi, são 3 e não 2 juízas) de burras não devem ter rigorosamente nada e foram beber informações a fontes credíveis (virologistas, microbiologistas e epidemiologistas internacionais de gabarito, como a Dra. Dolores Cahill, Sunetra Gupta, Sucharit Bhakdi, etc.) e não a avençados cá do burgo, com ligações ao Estado. É claro que as trombetas de alerta dos diversos lobbies soaram bem alto, porque a narrativa mainstream dominante, foi posta em causa.

  2. Leu o acórdão?

    Na página 31, as relatoras citam uma passagem de um artigo (tem o link no acórdão) “that at a cycle threshold (ct) of 25, about 70% of samples remained positive in cell culture (i.e. were infectious); at a ct of 30, 20% of samples remained positive; at a ct of 35, 3% of samples remained positive; and at a ct above 35, no sample remained positive (infectious) in cell culture (see diagram).

    Mas de seguida, e nao se percebe porquê, têm outra citação que vem de um site qualquer (procure swprs no google – The Trouble With PCR Tests): “This means that if a person gets a “positive” PCR test result at a cycle threshold of 35 or higher (as applied in most US labs and many European labs), the chance that the person is infectious is less than 3%. The chance that the person received a “false positive” result is 97% or higher. ”

    E ainda por cima a tradução que as relatoras fazem da segunda parte é “as probabilidades de uma pessoa estar infectada é menor do que 3%”. Repare que é apenas um texto de opinião e que o texto do site diz “chance that the person is infectious”, probabilidade de ser contagiosa, não contagiada ou infetada.

    As juízas aproveitaram o acórdão para destilarem falsos factos, destilarem uma visão negacionista, não deram nenhum poder aos médicos. O diagnóstico de COVID-19 é médico, sim, mas o resultado de ser positivo no teste laboratorial é do teste laboratorial e citar um qualquer site para dizer que não tem valor não fica bem a ninguém, quanto mais a um juiz.

    • Esse Sr João Salvado, não precisa de se valer de artifícios. Porque o pior cego, não é o que não vê mas o que não quer ver. Mas se insiste em querer enganar os seus compatriotas, será melhor dedicar-se a uma outra atividade, porque essa, já tem muita concorrência e cada vez mais está com os dias contados. Você deve pensar que toda a gente usa PALAS, mas está enganado: se tem dúvidas! É só ir à Suécia, ou obter informações verídicas e não as adquiridas pela fraudulenta agência política LUSA, quem controla a informação. Ok? Vá lá e veja, com seus próprios olhos, o quanto está a pactuar com a Fraude instituída e oficializada no nosso País. Isto, se já não sabe e se não é um dos que beneficia da desgraça já instalada, de muita gente e por consequência de todos nós, por muito curtas que as vistas sejam e de quem quer que sejam.

      • A sério? Então o que vem da Suécia é bom, mas o que vem de Portugal não? A Suécia até tem tido recentemente uma série de medidas semelhantes às nossas, com a diferença que lá foram proibidos eventos com mais de 50 pessoas desde março, portanto lá não houve festas do avante!, casamentos com 200 convidados ou eventos de automobilismo. Será talvez melhor o Raoult de França com as suas vigarices sobre a hidroxicloroquina? Não se esqueça que o artigo que as juízas citam no acórdão (ao lado do tal site suíço) é do grupo do Raoult. Mas a França até está em confinamento…

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