O Papão fala Português, Açoriano

Uma notícia leva-me às manifestações de “extrema direita na Alemanha, Itália e Polónia”. A ideia do jornalismo, acredito eu, é ainda o Esclarecimento, compreender o mundo. Na Alemanha há uma extrema-direita organizada forte, que faz manifestações, na Polónia protesta-se contra um governo de extrema-direita que quer proibir o abordo em quaisquer condições, mesmo em malformações.

O Chega apoiar um Governo nos Açores tem um significado político muito mais relevante para a força da extrema-direita e isso não deu até agora nenhuma gorda de jornal do género “Governo dos Açores viabilizado pela extrema-direita”. A extrema-direita sair à rua com uma política negacionista e delirante sobre a pandemia é mau. Mas é muito pior chegar ao Estado – ao Governo dos Açores, que é onde chegou em Portugal. Vamos assustando as pessoas com o papão que vem durante a noite, e ele está sentado na mesa de honra. Portugal tem oficialmente um dos governos do mundo apoiados pela extrema-direita, numa região autónoma. Isso foi inviabilizado até agora em França, em regiões da Alemanha como a Turingia, onde a extrema-direita teve mais de 20% dos votos. Em Portugal tornou-se uma realidade em 2 anos de partido. Isso daria uma gorda, de capa. Mas não deu, deu um inócuo “Chega viabiliza Governos nos Açores”.

Não deixei de ficar boquiaberta com a declaração do líder parlamentar do Podemos em Espanha dizer que as manifestações em Espanha eram “nazis e fascistas”. Menos, senhores…,menos. Ir para o Governo devia dar-nos mais e não menos capacidade de olhar o mundo…

Ora, uma volta pela geografia de nuestros hermanos e o que vemos? Manifestações no País Basco, onde não há extrema-direita; na Catalunha foram em frente à polícia nacional (Via Laytana) e a CUP, de extrema-esquerda, apoiou; em Málaga foram no bairro operário de Huelim, onde 2 em cada 3 votos são do PSOE; em San Sebastian foram no bairro espanholista de Alza, que vota Podemos e PSOE; milhares de manifestantes são, vê-se, migrantes; e entre os detidos do dia só 1 tinha mais de 30 anos, 10 eram menores. Felizmente os nazis da Europa não têm esta capacidade de mobilização. O Vox está na ruas, mas as ruas não estão todas com o Vox.

Sou cuidadosa a analisar manifestações porque sendo parte do meu trabalho -movimentos sociais – reconheço cada vez mais as nuances. Do que consigo perceber, e ainda a procissão vai no adro, as manifestações são cada vez mais heterogéneas, recorrentes, e espontâneas na Europa, Ásia, EUA e Argentina. Começaram por trazer para as ruas em Março em alguns países uma extrema-direita organizada – Brasil, EUA, Alemanha – e agora estão muito longe de estar sob qualquer direcção, seja de direita, seja de esquerda, na maioria dos países.

O que parece estar nas ruas agora são, e muda consoante o país, pequenos proprietários ameaçados da falência, os milhões de “falsos empreendedores” endividados à banca criados como solução milagrosa para a crise pós-2008; o mercado de trabalho jovem europeu que é um queijo suíço de precariedade; migrantes abandonados. A maioria destas pessoas não passou o confinamento numa casa confortável com salário assegurado. E está a chegar ao limite da sua subsistência material e força vital. Os governos distribuíram por largas camadas de sectores precários valores que muitas vezes correspondem a 1/3 do salário mínimo, ou metade, não mais do que isso. E não conseguiram – apesar de haver meios para isso – ter uma concertação mundial ou sequer europeia para apetrechar os sistemas de saúde.

O mundo inteiro viu Trump entrar com oxigénio no Hospital de helicóptero e sair de lá passados 3 dias curado e sorridente. Pensam, creio eu, que lhes pedem para ficar em casa, casa que não conseguem pagar, desempregados, e ainda a pensar que se apanharem o vírus pode ser que não tenham camas num hospital ou sequer que consigam ligar a um médico. E tudo isto, dizem os governos, é da sua responsabilidade, que não lavam bem as mãos. Este lavar de mãos dos Governos que não percebem que grande parte das suas populações estão num sofrimento económico extremo era para mim, e para qualquer analista atento, previsível.

Neste cenário – posso estar errada – as manifestações e protestos vão aumentar muito. Como todos, faço o apelo pedagógico, se me ouvirem, a que os protestos se façam com cuidados de saúde. Embora tema que, para muitos dos que estão nas ruas, a sua vida já está em risco, e não é de COVID. Que os governos não tivessem visto isto é que é revelador.As teorias da conspiração ficarão para trás. E a extrema-direita, nas ruas, vai perder caminho porque não tem soluções a oferecer às camadas sociais pobres ou trabalhadores. O que vem a caminho são os protestos típicos de questionamento das medidas contra-cíclicas de uma crise capitalista regular e cíclica, o vulcão que desde 2008 ia explodir e que a pandemia acelerou.

Desde Março que milhões de seres humanos foram expropriados do seu trabalho, e da sua casa, até dos seus alimentos. Filas de bancos alimentares convivem na mesma rua em que milhares de casas de luxo estão vazias, como poupança imobiliária de fundos especulativos. E nenhum banco foi expropriado, nenhum fundo de imobiliário, nenhuma grande empresa pagou mais impostos. Pelo contrário foram ainda ajudados com lay-offs e moratórias que mantiveram estes valores financeiros artificialmente altos. Acredito que a maioria dos que estão nas ruas não consegue explicar isto, como eu fiz. Mas ainda assim acredito que é por isso que estão nas ruas – a sua dinâmica objectiva é esta, o sentimento de injustiça e de desespero com os limites da sua vida e das suas famílias. A sua direcção está longe de ser clara. E, hoje por hoje, chamar-lhes nazis não ajuda muito. Sobretudo quando em tantos lugares, agora em Portugal também, temos partidos de extrema-direita nos órgãos mais nobres do Estado. Achar que o perigo vem da rua, sem olhar a sala de jantar…

2 thoughts on “O Papão fala Português, Açoriano

  1. O mesmo que diz do papao da abstenção do chega, foi dito tambem em relação com o apoio do Partido Stalinista do PC, e com o Partido Trotsquista do BE ao PS
    Não venho fazer a apologia do chega , que não negou o holocausto, nem coloca o Comunismo ao mesmo nivel do Nazismo. Há é que termos as devidas proporções

  2. “Desde Março que milhões de seres humanos foram expropriados do seu trabalho, e da sua casa, até dos seus alimentos. E nenhum banco foi expropriado, nenhum fundo de imobiliário, nenhuma grande empresa pagou mais impostos, pelo contrário foram ainda ajudados com lay-offs e moratórias, que mantiveram estes valores financeiros artificialmente altos.”
    Mesmo assim há uma vaga de fundo, de gente que SE DIZ de Esquerda, que se indigna com o voto contra do BE no OE, nomeadamente não aceitar que através de engenharias financeiras, o país volte a dar milhões ao novo banco!

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