O que aconteceu na Suécia?

Os espanhóis gostavam de dizer, nos anos 60, perante a ditadura franquista, e a pobreza sinistra, tão bem retratada por Buñuel, em filmes como Las Hurdes, tierra sin pan, “menos mal, que nos queda Portugal”. Ali ao lado de Espanha, onde o sol se punha, vigorava uma situação um pouco pior – a nossa. Ontem em Munique no centro histórico vi uma fila de 40 carrinhas do corpo de intervenção da polícia e, curiosa, perguntei a um dos políticas porque estavam ali, respondeu-me, num alemão que traduzo ipsis verbis “é uma manifestação contra o Corona”. Eu ri-me e disse-lhe no meu pobre alemão que não é possível isso, o corona existe, ele respondeu, sim, “é contra as máscaras e essas coisas”. Segui para o Museu que ia visitar e não fiquei a ver o ecosistema da manifestação. A avaliar pelo que tem sido descrito nos media alemães trata-se de uma mistura ampla: vegans de esquerda e vegans/animalistas de extrema direita, que há muito na Alemanha e na Europa, gente contra contra as multinacionais farmacêuticas; negacionistas que acreditam que o vírus foi inventado para destruir a economia, gente também diversa contra as máscaras; e extrema direita tout court contra Merkel. Como disse é o que vem nos media, não fui estudar o assunto. Desde que começaram as medidas da pandemia a oposição mundial ficou nas mãos de dois loucos, Trump e Bolsonaro, e disseminou-se um pouco por estes sectores.

Na Espanha e em Itália, por seu turno, as manifestações têm incluído recentemente outro tipo de pessoas: pequenos comerciantes e lojistas contra os confinamentos, não porque acham que foi inventado o vírus mas porque está a ser aproveitado pelas grandes empresas para destruir a concorrência de sectores menores, trabalhadores contra medidas que afectam só os bairros pobres, e sectores médios de esquerda contra as restrições às liberdades, também contestadas na França, como o recolher obrigatório. Concorde-se ou não estamos a kms de manifestações “contra o corona”. O que move o segundo tipo de manifestações não é a negação da realidade, mas as medidas que se aplicam e qual o seu efeito.


No Brasil e nos EUA compreende-se a facilidade com que as classes médias e sectores de esquerda aderiram ao confinamento total. Tenho amigos que estiveram 6 meses fechados e seus filhos. São doidos? Não. Podem ter ficado? Talvez. Já lhes encomendei um bom vinho para quando me vierem visitar, e uma camisa de forças, pelo sim pelo não. O facto é que a resposta deles não foi uma loucura: no Brasil não existe saúde pública e os privados não conseguem dar resposta a uma pandemia. Sem serviços robustos de saúde pública, na mão de (in)seguros privados, a classe média, e a esquerda ilustrada, fecharam-se em casa, a chamar terraplanistas aos que saíam. Bom, também foi fácil porque o que não faltam por ali são terraplanistas, o nível médio de cultura no Brasil ou na América é muito baixo quando comparado com a Europa. E isso é assustador. É uma pandemia de ignorantes.
No meio deste ecosistema quase hilariante das manifestações de extrema-direita e negacionistas, surge um pequeno governo social democrata que “não está contra o corona”, como dizia o polícia alemão, mas contra as medidas de confinamento. Menos mal que nos sobra a Suécia.


Porque de outra forma teríamos apenas a teoria para sustentar o erro dos confinamentos e das medidas, quer de imposição do medo, quer de restrições às liberdades. Devo dizer que acredito como cientista na autonomia da teoria. Não é preciso ver para saber, quando se conhece. Neste caso vimos. A Suécia, ao contrário do que tantos dizem, pode e deve ser comparada com Portugal e com toda a Europa. A densidade populacional da Suécia é baixa porque na maioria da Suécia não há gente, nem vírus, há renas. O padrão que interessa é Estocolmo, uma cidade como qualquer outra na Europa – na verdade linda, das mais belas cidades que visitei na vida. Em segundo lugar a larga maioria dos europeus, e Portugal à cabeça, não tem esfera pública. O único lugar onde socializa é no trabalho, fora disso tem a família. As noites são recolhidas, os velhos já vivem sem Natal, sozinhos, e a maioria do Natal das pessoas será com uma pequena família nuclear. Portugal não é uma festa de socialização há muito, pelo que argumento de “não somos suecos” é um absurdo. Lembro-me de neste verão ter feito 20 km no Alentejo e ao fim de 20 km sem ver uma alma estava um cartaz gigante “Mantenha o distanciamento social”. Rir para não chorar.


A maioria das pessoas vive a sua vida, enfadonha, diga-se, sem formas de socialização porque os salários são muito baixos, não têm dinheiro para sair, as famílias nucleares são pequenas, mais de metade trabalham horas extra e quando chegam a casa é para cair para o lado e ver a série com o enredo mais simples, e – o pior de tudo – a esfera pública desapareceu: não há vida em partidos, sedes de sindicatos, associações, comunidades de bairro, basicamente não existe vida política e associativa fora da esfera do Estado. Isto claro varia muito de país para país na Europa já que os espanhóis enchem os cafés – o salário mínimo é o dobro – e os ingleses têm alguma esfera pública, por exemplo.


Bom, os suecos o que fizeram em Março foi dizer que confinar pessoas era uma loucura, elas iam cansar-se de respeitar as regras, adoecer mentalmente, perder a confiança uns nos outros e no Governo. Disseram também que o vírus era incontrolável, e que o que havia a fazer era preparar bem os hospitais e os sistemas de saúde. Começaram uma campanha a recomendar o distanciamento físico (sim, físico, não social), o trabalho em casa, o não andar de transportes públicos (lugar onde a nossa DGS diz que não há contágios), nunca fecharam escolas, não usam máscaras porque consideram que o seu efeito é mais nocivo do que benéfico, e limitaram os eventos grandes e aglomerações. Pediram desculpas por não ter protegidos os lares, onde se deram a largar maioria dos mortos. O seu site é curto e claro sobre todas as medidas a tomar, mais curto e mais claro do que todos os outros na Europa. Sobre o uso de máscaras – que me parece a única medida polémica – argumentam com estudos que salientam que é nocivo o uso prolongado, não há evidência de que diminua o contágio ( a DGS disse o mesmo baseada em estudos há 3 meses) e provoca a degradação da confiança das pessoas umas nas outras. Confesso que tenho dúvidas, acho que em Portugal em espaços fechados deve usar-se, como em transportes, uso prolongado por alunos e professores fui e sou contra (neste caso há vários países da Europa onde dentro das salas de aula não se usam máscaras).


Bom, não quero focar-me nesta diferença mas no espírito geral dos princípios. Hoje, estas medidas, da Suécia, tirando o uso de máscaras, encontram-se em vigor em grande parte dos países da Europa, com a diferença de que nunca houve suspensões de direitos, nem estados de calamidade ou emergência. As taxas de contágio em sociedades urbanas e complexas como as nossas, com a humidade do ar, o inverno, são inevitáveis porque o vírus é altamente contagioso e as pessoas têm que trabalhar, ir à escola, ir ao supermercado. Confinar, recolher, proibir não vai alterar nada a taxa de contágio, porque a larga maioria das pessoas vive uma vida confinada depois do trabalho. Recolher, obrigar, confinar, vai, sim, degradar a democracia. É para aqui, para este imenso poço sem fundo, que estamos paulatinamente a descer.


A lição disto tudo é esta. Portugal vai sair – a este ritmo, sem uma estratégia clara que mude de rumo aposte no SNS – desta pandemia – com um SNS devastado (voltarei a este assunto, com detalhe), e uma democracia ainda mais pobre e frágil, e relações sociais e saúde mental esgarçadas. Os suecos conseguiram entrar numa pandemia, da qual vão sair, tudo indica, com menos mortos do que os outros países, e ainda ter a sua democracia reforçada. Conseguiram entrar numa pandemia e ser hoje um país mais racional, mais educado, mais democrático e mais livre. Para quem acha que o mundo está reduzido a duas escolhas, a do mal menor, Costa e Macron e a dos loucos Bolsonaro, Trump, fica a lição vinda do frio: Menos mal que nos sobra a Suécia.

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8 thoughts on “O que aconteceu na Suécia?

  1. Olá, Raquel
    Sigo as suas publicações com interesse e com concordância quase sempre. Mas no caso de comparação Portugal/Suécia tenho muitas reservas. Ou seja, desde sempre (e esta construção tem muitas décadas) que a Suécia tem um SNS forte e bem estruturado . Nós, pelo contrário desmontamos há décadas o que nos anos 80 foi exemplo, agora é claramente deficitário, cada vez mais e os (in) seguros privados lucram com as nossas fragilidades (que sabe tão bem como eu são MUITAS actualmente). Só este tema dava conversa de horas, infelizmente.
    Segundo, a situação social da Suécia é muito diferente da nossa, o número de bairros populosos, de pessoas a viver com menos de 500 euros por mês, os apoios sociais…enfim toda uma rede de bem estar da população que nós não temos. A nossa pobreza é muito maior. Assim a velocidade de propagação do SARS Cov será maior.
    Também a estrutura social e familiar é muto diferente nos países do norte do que aqui nos países do sul.
    Mesmo ali ao lado da Suécia tem havido exemplos melhores de combate à pandemia.
    Finalmente as máscaras, sendo da área da saúde e estando habituada a trabalhar de máscara, sempre, muitas horas, não me faz assim tanta confusão (o hábito faz o monge) e, se o fazemos é porque sabemos que assim protegemos os doentes dos nossos “perdigotos” que há muito se sabe poderem ser veículos de infecção. assim, parece-me apenas lógico que usando máscara reduzo a propagação de infecções (esta e outras). Estando perante uma doença infecciosa que promete matar muita gente, mesmo que não estivesse 100%provado, acho que seria de usar. Sim em espaços fechados, sim não tem sentido ir correr na mata sózinho de máscara, mas o que observo também é que as pessoas parecem preferir a obrigatoriedade (talvez para depois se poderem manifestar?) ao bom senso.
    Obrigada pelas suas análises, gosto muito de as ler e acho de importância primordial nos dias que correm.

    Leonor

  2. Não posso estar mais de acordo -, se me permite assino por baixo: “As taxas de contágio em sociedades urbanas e complexas como as nossas, com a humidade do ar, o inverno, são inevitáveis porque o vírus é altamente contagioso e as pessoas têm que trabalhar, ir à escola, ir ao supermercado. Confinar, recolher, proibir não vai alterar nada a taxa de contágio, porque a larga maioria das pessoas vive uma vida confinada depois do trabalho. Recolher, obrigar, confinar, vai, sim, degradar a democracia. É para aqui, para este imenso poço sem fundo, que estamos paulatinamente a descer.
    A lição disto tudo é esta. Portugal vai sair – a este ritmo, sem uma estratégia clara que mude de rumo aposte no SNS – desta pandemia – com um SNS devastado”!

    • … a Suécia tem menos cerca de 3 mil mortes que Portugal em período homólogo – como explica isso? População idêntica… com a nuance de nos paises nórdicos as gripes invernais ceigarem muito mais vidas que nos paises do sul.
      Quanto terem morrido com covid-19 não quer dizer que morreram de covid-19. Os testes PCR, segundo seu inventor, Mullis, não foi desenvolvido para rastrear doenças.
      Eu tenho a descoberta para a cura, que a receito a todos os que trabalham comigo: desliha a tv, não leias jornais nem ouças rádio. Lê clássicos, brinca com os teus filhos, convive com a familia e com os amigos.
      Agora cada um faça o que quiser…

  3. …o Trump e o Bolsonaro são dois lunáticos? Hum… então, bons deverão ser os politicos franceses, ingleses, alemães, suecos, holandeses, belgas, etc, que com as suas politicas externas mantiveram o Médio Oriente e África a ferro e fogo. Depois no fim de causarem a miséria… as organizações chamavam a cavalaria americana para pacificar a porcaria deixada… hum. Deve ser isso entao, Trump e Bolsonaro os maus da fita… só é curioso terem acabado os grandes conflitos, que provocaram milhões de mortes, com a chegada deles ao poder.
    ii) isto de atacar Trump e Bolsonaro sem nexo já começa a ser óbvio. É como a selva amazónica a arder e com imagens de elefantes… elefantes na amazónia!

  4. “Dois loucos”?! Todos os q se opões à mutilação crianças são nazis, racistas, xenofobos, misajonistas (nem sei escrever esta merda), sexistas, homofobicos, deploráveis e… loucos. Dou-lhe um conselho pq gosto de si e sempre gostei: desligue a TV.
    Obrigado.

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