Os Putos da Nazaré, e a F1 de Portimão

Nas ondas da Nazaré estavam 1000 miúdos, deixem-me dizer miúdos, acho muito carinhoso, e a maioria de máscara, a ver ondas num espaço público, sem pagar bilhete. Na Fórmula 1, em Portimão, estavam 27 mil num espaço privado, depois de pagar um bilhete. A polícia impediu os primeiros, e garantiu a segurança dos segundos. Ontem, aqueles jovens levaram com um banho de realidade da sociedade em que vivem. Aprenderam de uma só vez o complexo conceito de “feitiço” da mercadoria: o que inclui trocas com dinheiro brilha, o que inclui relações sociais não mercantilizadas é visto com maus olhos pelo Estado. Têm hoje, graças a esta medida descabida, menos respeito pela medidas anunciadas (a tal “fadiga” de que falam os epidemologistas), menos consideração pela polícia, e menos respeito pelo Estado, que os escorraçou dali com o recurso a agentes armados, e à lei. Nós podemos sempre no pensamento criar teorias que justifiquem as nossas posições, o que nunca podemos é inventar uma realidade que não existe. A lição que ontem o Estado deu na Nazaré e em Portimão é esta: pode-se ter prazer num desporto durante a pandemia e assistir a ele, desde que se pague. Nesse caso a polícia estará lá, num evento privado, para dar indicações de como se estaciona o carro…

Enfim, como dizia o Herman, não havia necessidade. A precipitada demonstração de força da policia na Nazaré teve o efeito contrário – trazer mais desobediência e não menos. Neste ponto o Governo também tem sido um desastre em matéria de gestão das medidas. Deixem de fazer dos miúdos – uma vez no Brasil perguntaram-me se eu estava a falar de “miúdos de galinha” e eu ainda fiquei a gostar mais da palavra – deixem, dizia eu, de fazer dos miúdos bodes expiatórios: as cadeias de contágio estão no trabalho e nas escolas, que não se podem fechar. Achar que impedimos a pandemia fechando os momentos de lazer quando acaba o trabalho e a escola é inaceitável, porque é falso – não combate a pandemia, instala a neurose colectiva, o medo, a tristeza, porque a sociabilidade pode e deve ser restrita, devemos educar para o cuidado, mas não podemos fechar as pessoas num isolamento total durante 2 meses, 6 ou 1 ano. O resultado disso, que tem sido amplamente descrito na comunidade científica de saúde, é por num lado doenças mentais graves, e por outro crescente descaso pelas medidas. Ainda não aconteceu em Portugal mas já aconteceu em vários países do mundo, manifestações gigantes, sem máscara e sem cuidado, porque as pessoas ficam desesperadas e fartas. Ora, para evitar isso é preciso equilíbrio nas medidas, educação e não repressão, cirurgicamente escolhida. Havia muito mais gente no metro às 8 da manhã fechados do que na Nazaré ao ar livre. E isso é uma verdade que todos sabemos – e que não podemos alterar porque não se pode fechar o trabalho. É preciso – insisto – reforçar os serviços de saúde. É aí que está toda a resposta.

5 thoughts on “Os Putos da Nazaré, e a F1 de Portimão

  1. Pena que a história que aqui conta não passar de uma Estória porque até concordo com a parte de que na F1 de Portimão não deveria ter havido público. Mas voltando ao início, chamo lhe Estória e não história porquê? Porque o relato que faz acerca da Nazaré e das autoridades não é verdadeira. Os “miúdos” já eram bem adultos e as autoridades não os proibiram de estar ali. Estiveram a aconselhar os “miúdos” a irem para o areal onde mais facilmente poderiam ter o distanciamento social e a Maioria nem ligou. E nem assim foram autoados ou retirados à força.
    As suas Estórias acerca da Pandemia têm todas sido muito bem contadas… Como estórias e não histórias.

  2. Bom dia Raquel,
    Leio regularmente as suas crónicas, com cujas ideias, de um modo geral, concordo. Mas a demonstrar que não há regra sem excepção, no caso desta última, sinto que devo corrigi-la, pois incorre num erro de avaliação que distorce a informação e concorre para inflamar a opinião pública. E isso vai ao encontro de uma corrente de populismo em que não vejo a Raquel. E explico-lhe que embora a assistência ao Grande Prémio de Portugal em Fórmula 1 fosse paga, e bem paga, a verdade é que o plano acordado entre a organização e as ‘autoridades competentes’ determinava o afastamento dos espectadores, já por si distribuídos por diversas bancadas, cobrindo a área de mais de duas dezenas de campos de futebol, o que desde logo torna incomparáveis as situações – e a comparação também é insistentemente colocada pelas adeptos do futebol, que não aceitam entender, porque não lhes é conveniente, claro, que os espaços reservados aos espectadores num estádio de futebol e num autódromo, como o de Portimão, são de um para mais de 20 hectares, por onde se distribuíam – por força das regras, sublinho – os supostos 27 mil espectadores, que num estádio de futebol estariam concentrados em redor de um campo com apenas 1 hectare. E depois do ‘incêndio’ que resultou da divulgação de imagens que mostravam o não cumprimento do chamado afastamento social nalgumas bancadas do G.P.Portugal F1, veio o ‘castigo’, que não me parece ter sido notícia explorada com o mesmo sentimento: no domingo, o dia mais importante do programa, sem pré-aviso, nem sequer direito a devolução do valor pago pelo bilhete, algumas das bancadas foram encerradas, deixando de fora grandes quantidades de espectadores com bilhete de acesso legítimo (e lembro que o número de espectadores estava limitado pelas ‘autoridades competentes’ e que esse limite foi reduzido e cumprido, apenas alguns dias antes da prova), numa manobra que soou a castigo público, para acalmar o ressentimento da opinião pública.
    No caso da assistência às ondas gigantes da Nazaré, mesmo que nas imagens disponíveis seja perceptível que a maioria dos espectadores exibiam máscaras, também vemos uma multidão compacta, de miúdos e graúdos. E foi sobretudo a disseminação dessas imagens que obrigou a intervenção das ‘autoridades competentes’, não só para fazer cumprir regras em vigor, como, sobretudo, para aplacar a fúria dos que não foram espreitar as ondas. Fúria essa que a Raquel, contrariando os seus princípios – na minha opinião – também estimula com este texto, em que simplifica as questões ao divertimento dos ricos e dos pobres. Ambos os desportos, Fórmula 1 e surf, são populares, independentemente da condição social. O resto, é mesmo retórica…

  3. Gostei do argumentário, cara Raquel. É issa a focagem do problema público que temos, em Portugal e no mundo aí fóra, desde donde a leio. Boa tarde.

  4. Na verdade, as senhoras Ministra e Directora, primam pela incompetencia. Podem ser muito boas tecnicamente, mas a gerir crises, sao um fiasco. Fiasco que tentam encapotar com as ideologias. Nao acertam uma, nao se percebe a logica que empregam e ainda menos as justificaçoes. Quanto mais explicam, mais “na mesma” ficamos. Esta agora de (e nao serà culpa delas) os policias estarem à espera que demos a palavra de honra, é de um amadorismo, e de uma saloice ( so nao digo sem paralelo) porque elas sucedem se. Para enfeitar o ramalhete, o sr Presidente diz que é uma “informaçao agravada”, o que escandalizou os policias: Entao andamos a fazer cara de maus às pessoas , a pedir lhes que jurem pelos defuntos que nao podem visitar, por causa dessa coisa da informaçao agravada? Ou juram, ou vai tudo pro Torel

  5. Permita-me não estar totalmente de acordo com com a opinião que aqui manifesta,
    Estive em Portimão e apesar das mais de 27 mil pessoas que assistiram ao evento, senti que estava seguro, tinha máscara, estava sentado com 2 lugares de intervalo para cada um dos lados, as pessoas que me rodeavam estavam também de máscara colocada. Claro que há os indisciplinados não cumpridores das regras, e vão continuar a haver.
    Nazaré aí vi muitos desses “miúdos” sem máscara.
    Mas o vírus terá horas para contaminar as pessoas? Fechar estabelecimentos mais cedo, proibir a venda de álcool a partir de certa hora e outro sem número de ações, serão as mais correctas? As pessoas que se amontoam nos transportes públicos para irem trabalhar, onde está a preocupação do estado Português?
    Vejo em algumas destas medidas um jogar de areia aos nossos olhos, porque a maior preocupação do estado é a economia e o afamado défice, ou será que quem tem de ir trabalhar está imune?
    Discutimos muitas das vezes determinados situações ou episódios e esquecemos daqueles que enfrentam diariamente outras realidades aqueles que com a coragem que advém da necessidade de ganhar para sustentar as suas famílias e muitas das vezes em empresas que não fornecem condições de higiene e segurança para evitar este vírus que nos persegue.

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