Cidadania no Auditório BPI

A polémica do currículo escolar pode ser-nos útil. É um fait divers que durará o tempo de um café, pouco mais de uma semana, até ao próximo, de uma direita (e de uma esquerda) que não se distinguem no essencial – a política económica, o desemprego e os baixos salários de um país periférico sem estratégia independente. Podemos, porém, usar o sururu para pensar algumas questões que são estruturantes.

Devemos debater currículos escolares? Sim, Claro. Não devem existir dogmas. Tão ou mais importante que debater o currículo da cidadania é debater o currículo de geografia (lançado no dogma – e não na hipótese – do aquecimento global/economia “verde”, sem geografia humana, base da nossa relação com a natureza), de filosofia (repetição de ideologias frágeis, sem conhecimento do pensamento estruturado), para dar dois exemplos. Recentemente contactei com uma escola em que lhes transmiti a minha preplexidade por em pleno 10ª ano não ser obrigatório ler nenhum livro completo a filosofia, esta – privada e religiosa – respondeu-me que dão o currículo normal para o exame, e a leitura obrigatória de clássicos para que os alunos aprendam. Isto é, a Igreja – hoje como no passado -, não abdica de formar quadros dirigentes. A escola pública (e a maioria da escola privada) contentam-se cada vez mais com força de trabalho barata para um mercado periférico onde o que interessa é a flexibilidade, multi aprendizagem, currículos superficiais em disciplinas fundamentais, para futuros apêndices de máquinas, linhas de montagem e turismo, sem espírito crítico.

Esta flexibilidade vem a par da municipalização que quer o PS quer o PSD têm defendido, e que implicará coisas tão incríveis como Presidentes de Câmara e empresários opinarem sobre os currículos de acordo com as necessidades de força de trabalho da região. Um construtor civil terá o direito de afirmar que a filosofia é inútil e que o que é necessário é apertar porcas. E um gestor hoteleiro afirmará, com segurança, que a história é pouco produtiva, o que é preciso é dominar o tipo de algodão a esticar para camas de hotéis. O papel de muitos conselhos em escolas e universidades já é esse, hoje. Onde têm assento representantes de empresas como supermercados e bancos, e até, imagine-se, dão o nome a auditórios. Onde antes estava o auditório Cervantes nasceu o palco Pingo-Doce ou a sala BPI…
Este facto – que destrói o conhecimento universalista e por isso destrói qualquer hipótese de cidadania – não mobilizou nenhum dos partidos de direita (nem de esquerda) porque diz respeito a questões fundamentais. E as causas fracturantes têm sido o que resta, quer à esquerda – quer à direita, que zangada no fundo adora nelas navegar…. É o fait divers que oculta os debates que não se fazem. E o debate central é: que educação queremos, com que professores e para que país? Vamos ser uma monocultura de trabalho barato e turismo sem mercado interno?

A rigor a cidadania é uma cadeira onde pouco ou nada se aprende – quem tem filhos na escola nunca deu por ela…Porque é dada de forma etérea por vários docentes, sem profundidade, que engoliram a contra gosto mais uma cadeira de grandes princípios e valores e sem nenhuma execução real. Isto porque se queremos ensinar igualdade e direitos humanos não podemos fazê-lo apenas em palavras, enfiadas na última semana do período escolar. Para ensinar igualdade era preciso que existisse igualdade. As escolas estão segregadas por bairros de habitação, e brancos não convivem com negros e, quando convivem, as brutais diferenças de classe tornam o convívio quase impossível. Um dos lderes negros dos EUA, aquando da libertação da escravatura, propôs a criação de oficinas comuns onde negros e brancos construíam juntos peças de teatro, instrumentos de trabalho, porque o estar junto – em comunidade e a fazer-junto – criava laços de confiança. Ensinar às crianças valores humanos – e a direita sabe-o bem -, não faz com que elas os aprendam, porque a sua vivência diária é de competição e desigualdade, o contrário dos direitos humanos.

Dito isto, regresso ao meu argumento inicial. Os currículos precisam de um amplo debate científico muito mais denso do que o de cidadania. O facto de termos tido um exame de filosofia em que era possível ter 16 valores sem escrever uma palavra (e palavra e pensamento são indissociáveis, isto é, quem não lê e domina a língua pensa pior, inclusive pensa pior a cidadania), não mobilizou, nem à esquerda nem à direita, debate algum. Ficámos uns quantos de nós, relativamente sós, a explicar a gravidade que significa expropriar a larga maioria dos alunos do saber. No fim poderão identificar como informação o género ou a etnia mas nem saberão como conhecimento o que é o género, ou etnia e as implicações históricas e filosóficas dos mesmos. Idem para disciplinas como matemática e física, ou sociologia. O drama é transversal. Chama-se país sem rumo.

Enquanto não saírmos das causas fracturantes para as estruturantes, não encontraremos rumo.

5 thoughts on “Cidadania no Auditório BPI

  1. A representação de alguém não pode estar associada à sua condição social ou laboral, enquanto assim for a filosofia, a história e outras ciências sociais serão sempre dispensáveis e acessórias para um conjunto cada vez mais alargado de pessoas. A imposição tem de passar a reconhecimento e isto só é possível se estiverem reunidas condições objetivas para que tal aconteça. A moralidade tem de ser repensada, mudar o essencial não é ter uma opinião diferente.

    Não há cidadania sem igualdade.

  2. Sobre o refeitório escolar num 2º ano em Dezembro de 2017: “Tenho uma opinião que verifico ser minoritária entre os enc. de ed.: é a de que a escola, sobretudo numa época em que as crianças aí permanecem a maior parte do dia, serve não só para ensinar mas também para educar. A educação transmite valores que, nesta época, não são generalizados. Mas julgo que o risco de a escola não assumir a responsabilidade de educar é superior ao risco de educar em valores que contrariem valores transmitidos pela família. Além disso parece-me impossível ensinar sem educar. Por exemplo, como se ensina que se devem lavar as mãos antes de comer se à hora do almoço ninguém se responsabiliza por levar as crianças ao lavatório antes de irem para a mesa? Como se ensina o respeito sem que haja alguém a fazer notar e corrigir quando faltam ao respeito uns aos outros? Os modos à mesa são uma parte importante da educação que gostava que fosse tida em conta tanto quanto a qualidade da alimentação. Se eles não adquirem bons hábitos de alimentação (que a meu ver inclui a comida e a forma como se come) até ao 4º ano, não é no 5º ano que os vão adquirir. E não é só com a educação em casa que se consegue que eles se comportem em meio escolar”. Ou meio social ou meio laboral. A questão é anterior à estruturação dos currículos, é sobre o papel da escola: o que queremos enquanto sociedade (identificável?) que a escola seja? Queremos realmente um Ministério da Educação ou basta-nos um Ministério do Ensino? E queremos como país ou queremos como classe?

  3. Cara Raquel, como você tem razão e como ninguém a consegue entender.
    Sim ninguém ou quase ninguém consegue entender esse tipo de preocupações.
    Não é difícil ouvir gente a elogiar as suas reflexões, identificar-se com elas – sem precisar onde e o quê – e, na prática, agir em total oposição a elas.
    Outros, apesar de tudo mais previsíveis e honestos, dirão que temos de ser pragmáticos e que isso são devaneios!
    Pior ainda, e neste momento estou a pensar nos partidos, alegadamente de esquerda, são aqueles que reivindicando maior igualdade e melhores condições de vida para o povo em geral, negligenciam as preocupações de quem comunga das reflexões da Raquel.
    A Esquerda ao demitir-se de privilegiar um pensamento estruturado e aprofundado que dê suporte às mais pragmáticas reivindicações, põe-se em pé de igualdade com os grunhos do Chega e similares. Acaba por perder para esses porque ao reivindicar aparentemente as mesmas coisas, fá-lo de forma mais populista, logo, mais apelativa para os incautos ou ingénuos.

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