O Professor-robot

A professora de português que deu a primeira aula da telescola deu uma entrevista ao Expresso este fim de semana onde diz que nunca gostou de ler, cito, e está a fazer um esforço para ler um livro no Verão. Como professora e mãe também senti vergonha alheia. Na realidade há muito que acho que a maioria das crianças quando entra na escola sofre um processo acelerado de perda da curiosidade, vitalidade, interesse e educação que levavam da infância. O burnout docente contagiou as crianças, o desinteresse pega-se, contagia. O mesmo retrocesso se dá com os professores, entram na escola muitos a pensar que vão ser educadores, entram rapidamente em burnout quando percebem que vão ser operadores de uma linha de montagem – crianças – para um mercado de trabalho desqualificado.

É de um colégio privado, esta professora, segundo percebi. Podia ser do público, dificilmente seria de um colégio privado de luxo onde não há telemóveis e os professores são intelectuais, bem pagos, em exclusividade. A professora de português que não gosta de ler não é um caso, mas um problema disseminado na educação – a proletarização dos docentes, transformados em mediadores de entrega de conteúdos pré feitos, desprovidos e expropriados do seu ser-pensar-intelectual. No nosso estudo sobre o trabalho docente era visível a desintelectualização da profissão e a falta de consciência desse processo. Quando nós dissemos aos docentes que eles eram intelectuais expropriados uma larga parte ficava impressionado, “então eu devia ser um intelectual”? pensavam com estranheza. Insistimos que para não haver burnout eles tinham que se assumir como sapateiros e não como vendedores de sapatos. Como produtores de conteúdos e não entregadores de conteúdos. E tinham que lutar por isso, não havia e não há outra forma de driblar a depressão, perda de qualidade e sentido do trabalho que não seja lutar contra estas condições de trabalho, por mais ioga e auto ajuda que façam. Em breve (já aliás em curso em Portugal), se nada fizerem, serão apenas monitores de exames também eles de cruzinhas, que o próprio computador se encarregará de corrigir. No Brasil o dito ensino à distância, e isto também no Universitário, já colocou um docente a corrigir 40 mil provas, leram bem, 40 mil. Nem ele é docente, nem a prova é prova, nem a correcção é correcção – é tudo uma enorme farsa que visa a automação, por um lado, e o défice zero por outro, ou seja o pagamento de dívidas privadas transformadas em públicas.

A questão permanece e convoca-nos a todos, o que nós professores, pais, contribuintes, estamos dispostos a fazer para inverter este declínio sistémico, quando cada vez pagamos mais e temos menos. Podemos sempre pensar, como vítimas, queixando-nos do estado das coisas, e salientando que é um caso isolado, daquela professora naquele colégio. Ou podemos agir como questão pública, que o é, com verdade – é um problema geral, é cada vez mais comum, se não mesmo maioritário, e que põe em causa todo o futuro do país, do mundo, da humanidade humanizada.

4 thoughts on “O Professor-robot

  1. Já há muito tempo se havia percebido que os problemas do ensino/aprendizagem só se podem ir resolvendo (é um processo permanente) através da formação de equipas constituídas por profissionais diversificados, postos a trabalhar em conjunto e cooperação continuada. Eu ainda apanhei essa fase que se sucedeu a uma outra já vinda do antigamente e baseada no isolamento e individualismo. Pude portanto constatar no terreno as enormes vantagens e sucesso dessa abordagem. Eis senão quando, inaugurado o consulado do “animal feroz”, acolitado pela sinistra Milú, se impõe a lei da selva, o salve-se quem puder e a competição desenfreada de todos contra todos, em nome da “eficiência”. O trabalho em equipa acabou e passou a dominar a ideologia do “eu é que sei e outros que se desenrasquem”, como é hoje timbre dos gurus instalados na 24/Julho.
    E depois ainda querem que façamos milagres.
    Que ninguém se iluda.
    Como diz o poeta: “Sei que não vou por aí”.

  2. Também li e pasmei com a entrevista da dita “professora de português”. Que péssima imagem e exemplo deixa ao “mundo” em geral e aos seus alunos em particular!

  3. Boa noite! Li o seu texto e concordo na generalidade. Vergonha alheia… Também eu. Fui professor de Português 40 anos. Trabalhei muito na formação de professores de todos os ciclos e secundário. Tenho obra publicada na área da formação de leitores. Trabalhei muito com alunos e professores neste domínio, por exemplo orientando fóruns de leitores com professores e alunos. Em todo o país, incluindo as ilhas. Estou aposentado. Mais livre para continuar 🙂 Muitos professores de Português são renitentes à leitura. Digamos assim… Frequentemente, chamando a atenção dos colegas para o papel do professor como exemplo de leitor, tão importante na formação de leitores, eu dizia – e sabia bem de mais porquê – eu dizia aos colegas que se não liam nada, nunca o dissessem aos alunos… Inventassem qualquer coisita. Isto era motivo de riso – compreensivo… Esta colega veio exibir uma triste realidade. Sem pudor. Vergonha alheia…

  4. Numa profissão constituída por tantos elementos, é verdade que uns são intelectuais e outros não, a falta de exigência no acesso à profissão coloca lado a lado pessoas muito diferentes. Por outro lado, a falta de exigência das instituições universitárias responsáveis pela formação de professores e de alguns organismos que continuam a formação ao longo da carreira (sei do que falo pois estive ligada à formação de professores) também são evidentes. Se é verdade que o exemplo dado por Raquel Varela ilustra o 2.º exemplo, também é verdade que, nas mesmas aulas de #Estudoemcasa#, de Português 7.º e 8.º anos, de Leitura e de Escrita, as professoras selecionadas foram bons modelos do que deve ser um professor e particularmente um professor de Português: alguém que é um leitor proficiente, que escreve bem, que ama a cultura e a literatura e, por isso, seleciona bons exemplos. Faz toda a diferença para os alunos perceberem que o seu professor é alguém que ama o conhecimento, um “magister”, e não está apenas a facilitar (verbo que diz tudo) o acesso ao conhecimento. Fico sempre irritada quando oiço alguns dos meus colegas dizerem que não são de Português para justificar que escrevem com incorreções linguísticas de bradar aos céus. Na realidade, todos somos professores de Português, é a nossa língua materna e temos obrigação de ser bons modelos para os nossos alunos.

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