AINDA O INENARRÁVEL EXAME DE PORTUGUÊS do 12.º ANO

Se há textos completos este é um deles, um retrato demolidor sobre o exame de português, um pedido de responsabilização política e uma rejeição da delacção, ou “bufaria”. A Elisa Costa Pinto (ver também comentários da Teresa Rita Lopes na página da Elisa), foi uma das grandes professoras que o ensino secundário, depois da derrota de 2010 (a que não foi alheio o papel dos sindicatos naquele que foi o maior movimento social de docentes em Portugal), perdeu. Saiu, com penalizações monetárias, para não ficar numa escola pública degradada, com cada vez menos qualidade, sem democracia. Foi durante anos autora de manuais de português, referenciados. A Elisa integra a noção do professor como ele deve ser, não como mediador, cuidador, monitor, mas como intelectual e educador cientifico. A qualidade dos exames, expressa nesse texto e no de filosofia, é a ponta do icebergue de um longo e sistemático processo de decadência.

Elisa Costa Pinto:
” AINDA O INENARRÁVEL EXAME DE PORTUGUÊS do 12.º ANO”
Eu já tinha decidido não escrever sobre este assunto que me parecia estafado e amplamente discutido, mas face ao que tem sido dito e contradito na imprensa e nas redes, e porque o ensino do Português sempre foi o objecto mais importante da minha vida profissional, concluí ser minha obrigação contribuir para o debate, de uma forma fundamentada.
Para evitar a perda de tempo a muitos, que a partir daqui poderão deixar de me ler, começarei por dizer que considero esta prova uma das mais mal elaboradas, se não a pior, desde que, em 1997, os exames de Português foram universalmente repostos no final do Secundário. Passo a expor, muito sucintamente, os argumentos que me levam a esta tão grave acusação.

1. ‘A ILUSTRE CASA DE RAMIRES’ e ‘OS MAIAS’ de EÇA
A infeliz opção da análise comparativa entre excertos dos dois romances de Eça – que deverão ser estudados em alternativa – é completamente descabida e configura um convite a respostas superficiais, bem como à convicção de que é indiferente ler uma obra na íntegra ou apenas uns textinhos. Afinal, os alunos apenas leram um dos romances e são convidados a comparar atitudes de personagens que bem conhecem com outras de que nunca ouviram falar. Para quê, então, a leitura integral, perguntar-se-ão. Ler ou não ler equivalem-se?!
Parece óbvio este meu raciocínio, mas também ele é redutor. Na verdade, o excerto de ‘A Ilustre Casa de Ramires’ é consideravelmente difícil quando desinserido do contexto e só é possível tentar compará-lo com o de ‘Os Maias’, pressupondo que foi esta a obra escolhida. E se não tiver sido? Algum aluno entenderá o sentido daquele excerto?
Consultem-se os hilariantes critérios de correcção, digo, cenários de resposta e pasme-se. As considerações sobre ociosidade e pro-actividade, procrastinação (Ó Ricardo Araújo Pereira, olha o que tu fizeste!!!) e sentimento patriótico (deuses, onde é que eu já vi isto!!!) ou incapacidade de criar modelos próprios são aterradoras e limitam-se a debitar uns mal digeridos apontamentos que circulam nos cadernos de preparação de exames ou em apressados manuais.

2. O POEMA DE RICARDO REIS
Falar em “atitude racional” nos seis primeiros versos da ode “Sofro, Lídia, do medo do destino” é, no mínimo, não saber ler e, pior, induzir os alunos em erro e obrigá-los a justificar uma falsidade.
Releiam, por favor:
“Sofro, Lídia, do medo do destino.
A leve pedra que um momento ergue
As lisas rodas do meu carro, aterra
Meu coração.
Tudo quanto me ameace de mudar-me
Para melhor que seja, odeio e fujo”.
Racionalidade?! E, como não tenho mais paciência para justificar o disparate, tomo a liberdade de transcrever o comentário que, a propósito, a professora Teresa Rita Lopes, a nossa pessoana de excelência, deixou sobre o assunto, com um trocadilho ao agrado da sua inteligente ironia :
“Que pergunta irracional!!!”
Sobre a interpretação da comparação final que, de resto, contradiz a dita racionalidade, nem me pronuncio.

3. ESCOLHA MÚLTIPLA PARA TEXTOS LITERÁRIOS.
Que os testes à americana vieram para ficar já nós sabíamos. Que agora se estendam à análise de textos literários é que constitui a grande novidade. Eu tenho vergonha!
E que dizer da alínea C, ainda sobre o poema de Ricardo Reis? Ah! Ah! Linda! Ora leiam e digam lá se isto não é importantíssimo para o conhecimento dos alunos… 😉
“nas características da linguagem e do estilo de Ricardo Reis evidenciam-se
1. a existência de decassílabos graves conjugados com tetrassílabos agudos
2. a existência de versos todos eles com um número de sílabas diferente
3. a existência de elisões na escansão de todos os versos do poema”.

4. BREVE EXPOSIÇÃO SOBRE VIEIRA
O que é “uma breve exposição sobre a importância que a crítica assume no Sermão de Santo António (aos Peixes), de Padre António Vieira”? Ah, ainda bem que são “dois aspectos”, mas os cenários de resposta dos critérios de avaliação, mais uma vez, me deixaram de boca aberta, pela pobreza, pela revelação da ignorância camuflada de saber, na alusão a um aspecto que talvez não ocorresse a nenhum aluno: a “Nau Soberba”! Que alegria, que satisfação, é preciso inovar, surpreender os alunos, pois claro!
5. APRECIAÇÃO CRÍTICA DO CARTOON

Nota prévia – Sinto-me absolutamente à vontade para dizer que este grupo é um completo disparate, sobretudo porque, nos manuais ‘PLURAL’ de que sou co-autora com a Vera Batista e a Paula Fonseca, a leitura de imagem, incluindo o cartoon, sempre tiveram um grande relevo. Fomos mesmo as primeiras autoras de manuais de Português que, no final dos anos 80, incluímos, de forma sistemática e antes de os Programas a consagrarem, a análise de pintura e outros textos iconográficos nos nossos manuais, então, ‘SINAIS’.

Posto isto, quero lembrar que há um PROGRAMA que está em vigor e que, tanto quanto sei, tem valor de lei; há ainda um documento posterior, que não revoga o PROGRAMA, e que tem o nome, já de si menorizador, de APRENDIZAGENS ESSENCIAIS. Vejamos:
O programa em vigor não prevê leitura de imagens, esse conteúdo constava do programa anterior, que especificava o caso concreto do cartoon, na sua dimensão argumentativa e crítica. O actual Programa prevê, em todos os anos – 10º, 11º e 12º – quer no domínio da leitura, quer no da escrita (os que para aqui importam), a APRECIAÇÃO CRÍTICA de “filme, de peça de teatro, de livro, de exposição ou de outra manifestação cultural”).

As Aprendizagens Essenciais prevêem, no domínio exclusivo da Leitura do 10º ano, o seguinte: “Ler em suportes variados textos de diferentes graus de complexidade dos géneros seguintes: relato de viagem, exposição sobre um tema, apreciação crítica e cartoon”.
Será legítimo que esta confusa “nota de rodapé”, não encontro expressão melhor, nas AE do 10º ano e, repito, omissa no Programa, seja suficiente para justificar, em EXAME NACIONAL, um texto de 200 a 350 palavras?!

E como escrever um texto até 350 palavras sobre um cartoon intencionalmente simples? Afirmando banalidades e lugares comuns sobre a liberdade e o poder da escrita e como podemos estar presos e livres, etc., etc. (Acrescento, a título de curiosidade, que este cartoon foi publicado no nosso manual do 10.º ano do programa anterior e que consideramos o artista Agim Sulaj um dos nomes maiores do cartoon contemporâneo).

No final disto tudo, quero dizer que discordo daqueles que exigem os nomes do júri que produziu semelhante abrolho. Sou de uma geração que abomina apontar o dedo e não vejo qualquer utilidade em conhecer os responsáveis de tamanha leviandade. Até porque os responsáveis são, evidentemente, o Ministro Tiago Brandão Rodrigues – para quem a Literatura é, provavelmente, um estorvo sem importância – e o seu Secretário de Estado Adjunto João Costa, que até vem das Humanidades, já foi Reitor da Universidade Nova e que deverá assumir uma responsabilidade acrescida neste desrespeito pelas aprendizagens dos alunos e o trabalho sério da maioria dos professores. Pelo menos, reconhecendo os erros que, acredito, desconheciam.

É que, com assuntos sérios não se brinca, e o ensino da Língua Materna e da Literatura – veículos insubstituíveis do desenvolvimento do pensamento e das competências comunicacionais, da compreensão do mundo e de si mesmo, do espírito crítico – é UM ASSUNTO MUITO SÉRIO.”

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