O Peso da nossa consciência

O Peso da nossa consciência

Na semana em que o Ministério diz que vai investigar escolas que inflaccionam as notas até 2 pontos ficámos a saber que tal processo é legal em todas as escolas do país. Há escolas que deram 33% de peso na avaliação do 3º período; Liceu de oeiras; 25%, escola Josefa de Óbidos; 10% uma escola em Santarém; 20% uma escola em Linda a velha; e noutros casos 0%, os alunos ficam com a nota do 2º período (ou melhoram, jamais descem). Na verdade é urgente investigar não a ilegalidade, mas a legalidade destes actos. Há inflação e deflação de notas nas escolas públicas e está assumido publicamente. Esta disparidade é inaceitável numa situação normal, em tempos de pandemia causa-me repulsa. E ainda não chegámos à municipalização, em que o empresário local, mais o Presidente da Câmara, e as forças vivas da terra também vão querer dar “opiniões” sobre as avaliações e pesos destas…E quando os programas forem decididos em função das empresas locais? Na Marinha Grande não se aprenderá história, só a fazer moldes; no Algarve não se estudará matemática, só a servir em restaurantes. Sim, é isto a “autonomia”.

É também preciso perceber e respeitar que há docentes maravilhosos que se opõem a isto, e questionam este modelo de escola dita flexível e autónoma, onde cada vez mais os docentes são subordinados. Mas há outros docentes que defendem e praticam esta rol de injustiças, e que acham que isto é “normal” e “autonomia” – estes últimos devem com urgência frequentar um curso de formação sobre o sentido da educação escolar e o princípio geral da universalidade do acesso a esta.

Uma acção legal contra o Ministério da Educação no sentido da constitucionalidade de tal “autonomia” também é mais do que necessária – é que a brincadeira da autonomia pode ir até 4 pontos na nota final.

De um ponto de vista ético os únicos professores que estão correctos são os que decidiram não descer notas ou apenas subi-las, durante a pandemia. Quem passou pela experiência do “ensino” online e decidiu descer notas aos seus alunos tem um grave problema nas mãos, cedo ou tarde vai entrar em sofrimento ético. Eu explico-me, pode-se fazer parte das injustiças, farsas e fraudes no trabalho que se executa e tentar justificá-las com palavras suaves, como “autonomia” e “só cumpro ordens”. Essas palavras porém só conseguem enganar o nosso consciente. Não conseguem eludir o nosso inconsciente. Estes actos, aprovados em conselhos pedagógicos, são na realidade contra a justiça e o sentido do dever, e por isso voltam de noite nos sonhos, que nem recordamos, e de manhã dão urticária, tristeza, raiva e mais uma série de coisas estranhas, que numa palavra são a somatização dos erros quando não os enfrentamos. Daí que o povo tenha essa bela expressão “pelo menos durmo bem com a minha consciência”.

6 thoughts on “O Peso da nossa consciência

  1. Lembro-me muito bem do quão naturalmente me contava, nos anos 90, uma amiga de infância e adolescência minha que, quando chegada ao final do 12º ano, num conhecido estabelecimento de ensino francófono, o que se passava era que, eram os próprios professores que abertamente, e à vontade, perguntavam a (ou “negociavam” com – dentro do possível) os finalistas de tal estabelecimento de ensino a “inflação” da nota final que os últimos queriam ter, para terem mais hipóteses no acesso ao curso pretendido na Universidade.

    Na altura, não me surpreendeu ouvir tal coisa… Pois, tratando-se de um estabelecimento de ensino privado, realmente fazia todo o sentido que, os pais de tais alunos que estavam (directamente) a pagar certamente um muito bom salário a tais professores quisessem que tal dinheiro fosse muito bem empregue.

    A amiga em causa é hoje uma médica num hospital público. E, por coincidência, soube de uma pessoa que é querida e próxima da minha família que já a teve como médica e que gosta muito dela (dizendo que é boa médica).

    Não duvido de tal coisa. Pois, sempre tive boa impressão de tal amiga de infância e adolescência, em termos de relações pessoais. E, pelo que me lembro, era boa aluna.

    Mas, o que é um facto, é que suspeito fortemente que, a razão pela qual conseguiu ela ser médica terá sido devido a tal “inflação” de notas, indirectamente paga por quem consegue ter filhos a estudar em tal estabelecimento de ensino privado e restrito.

    E, o que é também um facto, é que, sabendo eu de tal coisa, desde então suspeito que algo próximo disto se passe em todos os estabelecimentos de ensino privados, nos quais é permitido terem 10º, 11º e 12º anos, de cujas médias contam para o acesso ao ensino superior.

  2. O que a Raquel Varela aponta neste texto é uma verdade e uma vergonha, infelizmente.
    Como se não bastasse, as orientações que aí estão num documento conjunto entre a DGEstE e DGS, porquanto organização do ano letivo 2020-2021, vai cilindrar completamente a equidade de uma educação que deveria ser universal.
    Do ridículo da avaliação deste ano vamos passar para o bizarro da organização do próximo.

      • Para observar o bizarro não é preciso ir muito longe, basta ver como as escolas aqui à volta se encontram a desenhar o arranque do próximo ano letivo. Sendo o critério logístico, e não o pedagógico, como deveria ser, a determinar como a escola irá funcionar, as situações de iniquidade no acesso ao processo ensino-aprendizagem vão ocorrer. A exemplo, dois alunos do mesmo ano de escolaridade, em escolas diferentes (10km entre elas), um irá iniciar o ano letivo com a carga horária da disciplina totalmente em presencial, enquanto que o outro terá apenas metade presencialmente e a outra metade ou em trabalho autónomo ou em sessão síncrona via videoconferência.
        Outra situação, fica ao critério do conselho pedagógico definir as regras de registo da assiduidade. Ora, tal como aconteceu no final deste 3.º período, as escolas preparam-se também agora para fazer letra morta do conceito de falta instituído no Estatuto do Aluno e Ética Escolar, substituindo ad hoc a natureza das faltas e assim tratar com iniquidade, também aqui, os alunos.
        As (des)orientações revelam que o propósito fundamental da abertura do próximo ano letivo passa por dar prioridade à prevenção da doença e à minimização do risco de transmissão do novo coronavírus. Como perseguir tal propósito se as entidades que tutelam a educação (nacional e local) não criam as condições capazes de o atingir? Mais salas, mais professores, mais funcionários, alterar o funcionamento dos transportes.
        Para não me alongar mais, apenas referir que as orientações da DGEstE e as orientações conjuntas DGS e DGEstE são documento que hoje norteiam o planeamento do próximo ano letivo para todas as escolas, com toda a importância e responsabilidade que acarretam, e, pasme-se, ou não,nem sequer se encontram assinadas ou datadas. Nem o merceeiro!

  3. Pingback: "A Brincadeira Da Autonomia Pode Ir Até 4 Valores Na Nota Final" | ComRegras

  4. Prof. Varela,
    Deve dirigir as suas críticas ao desgoverno do ministério da (des) educação. Basta ouvir o tiaguinho a falar e pela montra se vê a loja.
    Os professores neste momento são meros entertainers, que se querem acéfalos e obedientes, qual carneirada. Estão velhos e cansados, de tão maltratados que têm sido, por todos – tutela, alunos e professores, e comunicação social bem amestrada. Obedecem a (des) ordens, porque já estão vencidos pelo cansaço, porque já há muito que têm denunciado este estado de coisas e só encontram orelhas moucas e porque estão fartinhos de dar o corpo às balas, para depois serem enxovalhados na praça pública e roubados, sim roubados no tempo de serviço e no salário.FARTOS!
    Chega de bater nos professores. Bata nos seus chefes máximos, os incompetentes vaidosos.

    O próximo ano letivo? Olhe para os comboios de Sintra e já vê a anteestreia do filme.

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