Quando o trabalho adoece

Recentemente um anestesista escreveu um belo texto aqui na internet onde referia como muitos dos seus colegas, já antes, mas sobretudo depois do COVID-19, passaram a achar que o doente era uma ameaça. Esse sintoma é generalizado, não sabemos bem a percentagem, mas é altíssimo. É um dos sintomas do chamado burnout e está intimamente ligado à qualidade do trabalho. Nos professores pode ser visto pela quantidade de professores que se queixam dos alunos, e não conseguem sozinhos resolver a questão com estes, bem como na quantidade de pequenos problemas normais em crianças que se agigantam nas salas de aula, e acabam em rebuscados processos com directores, pais e psicólogos em que o único ser com saúde mental intacta é a criança que fez asneiras.

Na verdade os médicos vêem os pacientes assustados como uns “chatos” e os professores os alunos como “insuportáveis”. Gostam, ou pensam que gostam, de doentes que são saudáveis e de alunos que não precisam de ser ensinados. É a inversão do sentido do trabalho de ambos.

Isto não se dá por falta de bom senso ou talento para a profissão, como tantos pensam. É um sintoma claro de desrealização e despersonalização – o trabalho não lhes dá prazer, é fonte de sofrimento, o sentido do trabalho, educar, cuidar, passa a ser como que um alvo a abater, porque é visto como fonte de afectos negativos. Daí que quando há estes sentimentos seja preciso conhecer o trabalho e como ele se organiza, sob pena de cada um destes médicos e professores se sentir culpado pelo seus sentimentos negativos, o que só agrava os mesmos.

Lembro-me de uma educadora dos nossos filhos, a Isabel, quando um deles fazia birras, naquela fase de birras homéricas de se lançarem pelo chão dos supermercados a fingir que estão a ser espancados pelo Golias e nós já estamos a dez metros a fingir que não os vemos, pelos 2 anos, 2 anos e meio, eu lhe dizer que estava exausta e ela respondia-me com um sorriso cheio tranquila, na maior, que eu deixasse o assunto com ela porque ela adorava ensinar a controlar birras e ele era um desafio para ela. Era uma educadora, feliz, com o sentido do seu trabalho. Para ela as crianças são desafios, individuais, e não umas coisas chatas padronizadas alvo de planeamento, jamais realizado, num Excel.

As crianças que são muito educadas não precisam muito de professores, grande parte delas a partir de certa altura serão em parte auto didactas, melhores que muitos de nós professores. Ser professor é educar e ensinar quem não sabe, é esse o nosso desafio, ser investigador é perceber o que não se conhece. Ser médico é atender pessoas doentes, assustadas na sua maioria, inseguras e talvez chatas. Porque vão ao médico porque estão doentes e essa é uma condição normal. Ser médico é ter prazer em cuidar quem está frágil. O sentimento generalizado contrário que se criou – de que alunos e doentes são uma ameaça -, é em grande medida uma naturalização de um adoecimento mental, que é resultado da perda da qualidade e do sentido do trabalho nas duas áreas mais nobres, a saúde e a educação.

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6 thoughts on “Quando o trabalho adoece

  1. “Gostam, ou pensam que gostam, de doentes que são saudáveis e de alunos que não precisam de ser ensinados. É a inversão do sentido do trabalho de ambos.”
    Infelizmente, é só isto! A aversão ao dever.

    • Subjectivo que é este comentário do sr Diogo, presumo que o que se passa com os médicos e com os professores (eu sou médico como o meu colega Luís Gomes, só que me mantenho no activo com 67,5 anos porque gosto do que faço e já agora a minha mulher é professora com 63 anos e conta cada dia para conseguir a aposentação e adora o que faz, mas encaixa-se perfeitamente no conteúdo descrito pela Dra Raquel em relação ao burnout) passa-se com outras profissões, até talvez com a do sr Diogo. É que nós, médicos e professores temos um trabalho social (claro que quando se fala de médicos e professores, o imaginário de todos os senhores diogos vai para o arquétipo que os media lançam para o ar: médicos e a sua vida de luxo e professores e a sua vida faz-de-conta…) mas estamos inseridos na sociedade e interagimos como simples cidadões (esta é para os senhores diogos) com todas as outras profições (outra para os senhores diogos facebookianos) e conseguimos perceber que todas as relações profissionais estão deterioradas na relação profissional-usuário. Concordo plenamente como o meu colega Luís Gomes, conhecido no meio dos cuidados de saúde primários como alguém que sempre defendeu o primado da relação médico-doente como a base principal do sucesso de qualquer ato médico. Esta situação pandémica associada ao burnout pré-existente, não tenho dúvidas, está a alterar todo o sistema em que exista uma relação presencial profissional-utente/cliente/interesssado/constituinte/freguês/comitente/solicitador/contratante…
      E claro, também não tenho dúvidas que o capitalismo actual baseado no império dos states, no império financeiro, segurador, monopolista, no império das comunicações, todos interdependentes com os políticos capturados, são o principal destruidor das boas relações laborais, se é que ainda as há, mas isso é uma questão para os especialistas, como o Raquel Varela…

      • Dr. Moreira, depois de ler o seu comentário tenho que me retratar do meu.
        Não é subjectivo. Peca sim por ser uma generalização (logo injusta), extrapolada com base em casos específicos, em que o burnout não é, de todo, um factor para a “inversão do sentido do trabalho” que neles reconheço.
        Doutore(a)s e Professore(a)s que exigem o tratamento de “Senhor(a)” (Eu prefiro só Diogo); reinvindicando todos os direitos (e até privilégios) da sua profiSSão (Eu, não subscrevendo a nenhuma rede social, tive a felicidade de ter uma verdadeira Senhora Sra. Professora na escola primária); em que o exercício do seu dever “é uma maçada”; e prazer no cumprimento das suas responsabilidades é praticamente inexistente.

        Espero que continue sempre a tirar prazer da sua actividade profissional, assim como a sua esposa.

        Sinceramente agradecido pelo que o seu comentário me fez realizar,
        Calorosos Cumprimentos,
        Diogo Carriço

  2. —É transversal, absolutamente transversal diria, as pessoas são hoje uma ameaça umas ás outras, estão em guerra, é o desígnio da condição de fragilidade em que nos encontramos. O capitalismo é uma verdadeira perversão, é capaz de transformar vitimas em culpado. Reconhecer esta realidade não a torna menos objectiva. Não é aceitável a convivência insuportável, e as pessoas são verdadeiramente insuportáveis, com o distanciamento certo é fácil de perceber que a luta pela vida é o pouco permitido, é a redução ao básico e a elementar. No meio deste enorme conflito é possível admirar a imensa força que a larga maioria pensa que não tem.-

  3. Verdade, Raquel. Sou Médico há 44 anos, agora reformado por razões de saúde. E tenho constatado a progressiva alienação na relação paciente/Médico. De facto, com a progressiva taylorização do trabalho médico (nomeadamente em cuidados primários…), é visível o desprazer dos profissionais, com a consecutiva culpabilização … dos pacientes.
    É muito mau e é perigoso. E, pior: não se vê remédio. Os burocratas que mandam na saúde não fazem a mais pequena ideia do que se está a passar. Seria preciso mudá-los!

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