Uma Ponte sobre o Atlântico

Acabo de receber a notícia que fui galardoada com o Prémio da Associação Ibero Americana de Comunicação/Universidade de Oviedo pelo meu trabalho como historiadora internacional dos movimentos sociais e da história do trabalho.

Nós somos sempre muitos, eu sou os tantos com quem tenho a felicidade de trabalhar em colectivo, em cooperação, há muitos anos. Nenhum prémio ou louvor se dá a um cientista sem que ele tenha que o repartir por cada vez mais pessoas. Sós não existimos. As universidades e os empregos em geral pedem-nos o nosso CV e nunca o nosso CV colectivo, aquele que mais se aproxima da realidade.

Hoje quero dedicar este prémio a uma dessas muitas pessoas do meu, do nosso, CV colectivo, o meu marido, Roberto Della Santa. Quando atravessou o Atlântico para vivermos juntos deixou para trás uma carreira de professor universitário de teoria e filosofia das ciências sociais, porque em Portugal somos pequenos, esse lugar não existe. Este mês voltou a recusar um convite para regressar, abraçou Portugal com uma paixão e carinho temperados pelo seu olhar doce pela cultura portuguesa. Trouxe na bagagem tanto saber teórico que todos os dias me ensina algo sobre Portugal, que eu nunca tinha visto, embora já tivesse olhado tantas vezes para aquele lugar. Já doutorado, começou a tirar um novo curso, de língua e cultura portuguesa, e vai ser, certamente, professor de português em breve nalguma escola que o tenha a sorte de receber. Para quem viu o Merly, o meu marido é um Merly de carne e osso, um desses professores que nos transformam para sempre – são pessoas com a capacidade rara de fazer com que as ideias tenham força para nos mudar (em geral só as acções/experiências nos mudam, são poucos os que conseguem fazer isso com as ideias). Para ele, deixar de ser professor de teoria das ciências sociais numa das melhores universidades latino-americanas e tornar-se aqui professor de português de jovens é só mais um desafio, divertido. Eu ganhei com este salto atlântico uma fortuna. Todos os dias ele me desafia com questões filosóficas complexas, desperta-me curiosidade crítica, e me faz rir com uma combinação rara de humor e inteligência viva e – posso dizê-lo sem qualquer dúvida – é o teórico-critico mais honesto intelectualmente com quem me cruzei na vida. Imaginem agora tudo isto todos os dias regado com um amor eterno, apaixonante. Todos os dias, há muitos anos, acordo apaixonada. E, agora que já passaram uns anos, posso dizer que essa ideia que por aí corre nas bocas do mundo de que a paixão é um tempo curto não é verdade. A paixão faz parte de uma totalidade das relações de amor felizes – são as relações que sobrevivem, e ganham ao tempo.

Com a escrita da história do trabalho fomos construindo pontes entre o Atlântico, encurtando a distância entre cá e lá, fazendo do espaço ibero-americano só um, entre a Ibéria e a América Latina. Numa dessas travessias conheci o amor total.

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2 thoughts on “Uma Ponte sobre o Atlântico

  1. Deixe lá Raquel, À Mariana não foi suficiente o facto de ter um marido ainda melhor. Bonito texto, com um corajoso afecto e honestidade

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