A humanidade pode dar certo

O actor Flávio Migliaccio, que nós portugueses carinhosamente conhecemos do Pai Herói, suicidou-se deixando uma carta que é na verdade um testamento político “Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é (…) como tudo aqui. A humanidade não deu certo. A impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este e com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje”. A semana passada discuti no Último Apaga a Luz o suicídio da directora de emergências COVID do Hospital Presbiteriano de Nova Iorque, noticiada no DN, na gorda como “morte de médica” mas nos jornais dos EUA como “suicídio”. O pai, em entrevista, declarou que a filha se sentia incapaz de dar conta do trabalho todo, e era muito empenhada. Ou seja, burnout e sofrimento médico. Chegam-nos agora, no jornal Expresso, relatos de médicos a suicidarem-se na Rússia.

Como sabe quem segue esta página faço parte de uma equipa que estuda o sofrimento no trabalho em vários sectores em Portugal, Auto Europa, professores, enfermeiros, estivadores, maquinistas e mais. Creio que somos hoje a equipa com mais estudos no país em curso sobre relações laborais, burnout, sofrimento, no Observatório para as Condições de Trabalho e Vida, temos portanto uma amostra ampla do país. Interessa-nos porém, e é isso que fazemos, produzir conclusões que ajudem a mudar este cenário, como transformar os locais de trabalho, prevenindo, evitando, mudando o que faz as pessoas sofrer. Trabalhamos juntos, como um só, discutindo tudo juntos, não existem caixinhas proibidas a ninguém opinar sobre a especialidade do outro, questionamos tudo. Dentro disso cada um tem a área que melhor conhece. Talvez seja eu a pessoa que mais é chamada a explicar duas coisas – as relações laborais actuais, e como mudaram dos anos 90 até hoje; e como se trabalhava há 100, 50 anos. Curiosamente creio que o meu maior contributo é aqui – como se trabalhava no pós 1974 até aos anos 80.

O suicídio é sempre multifactorial. Aliás, nada do que é humano não é multifactorial. Quando aqui há dias falei sobre o suicídio no Alentejo é evidente que há vários tipos de suicídio e várias razões, o que não se pode é retirar da análise do mesmo a palavra “trabalho”, reduzindo-o a uma dimensão individual – há nessas análises uma desresponsabilização do papel do colectivo. Dizer-vos também que o suicídio é um acto extremo e pouco comum. Felizmente. Mas quando acontece no trabalho, ou no caso de Flávio Migliaccio, como acto político, é porque muita gente à volta está muito mal. O consumo de anti depressivos nestas sociedades modernas ocidentais há muito nos devia ter feito reflectir; o tele-trabalho que transforma a casa numa unidade produtiva; as crianças sós em frente aos telemóveis; os locais de trabalho como espaços de terror, em que uma parte tem pesadelos ao Domingo. Quando alguém se mata no trabalho, ou por razões políticas sobre os destinos humanos, é porque o substracto oculto em largas camadas de população com doenças mentais e sofrimento é gigantesco. Não significa que se vão matar também. Mas diz-nos a melhor literatura hoje sobre a psicodinâmica do trabalho, que se escondermos, não analisarmos, e não pensarmos sim, o suicídio pode aumentar. Não por mimetismo, como pensam os media. Mas porque perante um suicídio há um silêncio individual e não uma resposta colectiva, ou seja, aprofundam-se as razões que levaram ao suicídio.

Aliás, quando há um suicídio no trabalho, pelo trabalho, e se faz uma análise colectiva do mesmo reduz-se os riscos de haver ali outros suicídios. Recordo-me de mais de uma vez de darmos cursos de bunrout e o facto das pessoas serem levadas a grupos colectivos connosco a debater o mesmo levou várias a dizer “só de estar aqui a dizer o que está mal com os meus colegas já me sinto menos só”. E é só o início, porque tampouco se resolve em jeito de auto ajuda conversando – não quero passar essa ideia, não é o que fazemos. O que fazemos é compreender colectivamente os mecanismos que adoecem quem trabalha, e nessa compreensão que as pessoas encontrem também a capacidade de resposta colectiva (e as razão porque não têm respondido ou se limitam a queixar, porque são vitimas e não actores). Porque volto a 1975? Porque o meu papel tem sido o de dar dados e análises sobre as más condições laborais que sempre existiram e até eram piores, em 1975 ou 1978, até, eu diria, 1986 – começa aí o grande retrocesso. Pelo que se hoje as pessoas estão pior isso não pode ser alocado à má situação mas à falta de reacção à má situação. Estávamos com mesas piores nas escolas em 75, sem bisturis decentes, e sem segurança extra nas fábricas, mas éramos mais felizes porque reagíamos a essa más condições e faziamo-lo coletivamente.

Às vezes penso que coisas simples hoje que realizamos – abrir um espaço amplo de debate sobre como se trabalha e como se deve trabalhar – eram feitas numa comissão de gestão hospital, numa reunião geral de professores e num plenário fabril nos anos 70. Esta minha hipótese leva-me a questionar se na verdade a psicodinâmica do trabalho, ou pelos menos os grupos colectivos, não terão sido “inventados” em França na Greve Geral do Maio de 68 onde tudo se debatia, sem tabus, em colectivo. A ser verdade estava na hora dos trabalhadores irem buscar eles agora à psicanálise a inspiração – e deixarem de falar só de leis e CCTs, importantes, mas começarem a discutir abertamente com os seus trabalhadores, professores, médicos, enfermeiros, operários ou administrativos, logística ou transportes, o que for, porque estão mal, porque se sentem desmotivados, porque precisam de anti depressivos, porque estão tristes.

Evidentemente que o meu papel como historiadora não acrescenta novidade alguma aos que os médicos, psicólogos e psiquiatras da equipa insistem em referir há muito tempo, desde que nos anos 90, com os novos métodos de gestão, o trabalho tornou-se um inferno e a tristeza disseminou-se. Duarte Rolo, Coimbra de Matos, Sílvia Jardim, José António Antunes, entre outros, insistem em recordar que a questão está na falta de ajuda mutua, solidariedade conjunta quando há um problema, reacção solidária, revolta contra o que está errado. A doença é aceitar, é a resignação, é o tabu. A cura é a revolta cooperante, a relação, o penso em ti logo existo do Coimbra de Matos. Isto é assim porque na resignação está a destruição da auto estima, ainda que seja escondida lá num cantinho do cérebro que só fala connosco através de insónias e psoríase.

A humanidade pode dar certo. E já deu, muitas vezes. Mas hoje não dá, é verdade. Estamos a pedir para voltar rápido a uma fábrica a laborar 24 horas sem que esta gente veja mulher ou filhos; vender a nossa casa ao dia como hostel; e aumentar a produção de petróleo, que, desgraça, caiu! Queremos voltar ao anormal que existia antes. Sem perguntar como trabalhamos, para quem trabalhamos, o que produzimos? Armas ou ciência? Lazer ou máquinas que nos transformam em robôs a colapsar numa linha de montagem? Comida de qualidade para todos ou carros individuais “verdes”? Crianças felizes a brincar na natureza ou jogos individuais? Tudo isto porque há milhões de desempregados num mundo que nunca produziu tanto e teve tanta riqueza acumulada. Está a dar errado – não há dúvida. Para a vasta maioria o inferno do trabalho só se tolera porque há o inferno do desemprego.

Para a humanidade dar certo são precisas duas coisas: não aceitar, dizer não, parar de mentir a nós próprios e dizer que uma vida de competição doentia no trabalho é destrutiva. Para de falar da saúde das empresas, dos negócios, das finanças, da economia… esquecendo que a humanidade só faz sentido se somos ser humanos e produzimos o necessário para o bem comum. Que a culpa portanto não é do marido ou mulher chata ou da falta de ioga, não vem daí a depressão crónica mas desta solidão devastadora do todos contra todos. Temos que viver uma e numa economia de cooperação. Não cuidem só das crianças, não há esperança quando só há esperança no futuro. O futuro é agora, é preciso cuidar de todos, desde já. É preciso mudar o mundo que não deu certo.

8 thoughts on “A humanidade pode dar certo

  1. Esplêndido, bonito, real, mas, como se cura a malformação congénita??!!, se não há formadores para a dar e ciar?, não cura, é a nossa massa recolectora, não resignar, não chega, se não for criada massa humana para moldar, não vai.

  2. Absolutamente de acordo consigo, Dra. Raquel Varela. Fui professor durante 24 anos e saí quando tinha 50 anos para evitar tudo isso de que fala neste artigo. Mas saí só após eu ter sido o único na minha escola a recusar-me totalmente a participar na avaliação competitiva e, portanto, depois de ver qual seria o destino destes professores que desistiram da luta e de assistir ao gáudio com que o resto da sociedade apoiava o governo. E após ter tomado diversas iniciativas que, infelizmente, nem os meus colegas nem os sindicatos (a quem eu as propus e ainda a greve da fome, já que as manifestações e as greves se tinham revelado absolutamente inúteis) se deram ao trabalho de acompanhar: por exemplo, fazendo na escola o horário completo e passando a recusar-me (finalmente!) a ter o meu espaço familiar invadido pelo trabalho escolar (na verdade, quem me deu a ideia desta luta foi a Lurdes Rodrigues ao acusar os professores de serem os que da Europa passavam menos tempo na escola, “esquecendo” convenientemente que as escolas não têm espaço suficiente nem condições materiais adequadas para os seus professores poderem lá trabalhar).
    Mas ainda fui a tempo de ver como a avaliação competitiva destruía os laços de cooperação entre professores. Como os alunos foram terrivelmente, mas mesmo terrivelmente prejudicados por essa competição. E como os professores foram ficando cada vez mais profundamente desmoralizados, tristes e sozinhos.
    Hoje, após ter tirado o curso de Psicologia, ter sido hipnoterapeuta, e ter continuado com a minha paixão que é dar aulas (agora, em universidades seniores) em matérias que versam a Psicologia Positiva, a Psicologia Evolucionista e a Neuropsicologia, sinto-me à vontade para lhe dizer que acho que tem total razão em tudo o que refere neste texto, em particular, o papel importante da cooperação (para mim, absolutamente fundamental quando se trata da educação de crianças) na saúde mental do ser humano.

  3. se acabaram simplesmente com o entretenimento todo e a cultura como querem que nao aja suicidios a vida nao pode ser so trabalhar como escravos ate com o desporto de massas querem acabar com inveja dos salarios dos jogadores como e que pode dar certo com tanta inveja maldizer e escarnio nas redes sociais em que ate se deseja que o virus pegue noutros so porque esse outro pensa diferente as redes sociais deram cabo da humanidade

  4. O ator Flávio Migliaccio, que tantos papéis importantes interpretou na nossa TV e no nosso cinema suicidou-se. É um fato inquestionável. Questionáveis, suspeitos (antecipando julgamentos criminosos) são os motivos que o levaram a cometer tal ato que, perdoem-me os fracos, foi um ato de bravura e de honradez.
    Quem como ele viveu os tumultos e os bons momentos do século XX, também está enfrentando problemas similares, não necessariamente os mesmos, somos seres individuais, cada um com seus dilemas, mas ao atingirmos a segunda década do século XXI precisamos, parar, olhar e agir de forma diferente, ou todos corremos o risco de que se instale uma crise mundial de suicídios.
    Se qualquer de nossos psicólogos tivesse a oportunidade de voltar a este picadeiro a que chamam de terra, certamente escolheriam uma destas duas formas: 1 -renunciariam às suas próprias teorias; 2 – pediriam para ser internados no primeiro asilo que encontrassem (se encontrassem, pois os poucos loucos estão todos à solta e em cargo de comando).
    A humanidade levou 230 anos para tentar construir um sonho de muitos que se tornou pesadelo para todos: uma sociedade. O mais perto que a essa humanidade chegou foi a um capitalismo explorador envolto em uma película de gordura (tal como os vírus) ao qual deram o nome de individualismo: “Cada um por si e Deus por todos”. A humanidade teve alguns poucos momentos de lucidez ao longo desses quase dois séculos e meio. Durante eles descobrimos coisas que nos encheram de esperança para a criação de um mundo melhor, infelizmente essas criações caíram nas mão erradas e hoje amargamos a solidão que construímos.
    As desilusões, no transcorrer da vida, principalmente quando se é jovem, não matam, mas deixam marcas tão profundas que podem induzir a fatos como que este aconteceu com o nosso estimado Migliaccio. A pressão que o individualismo (disfarçado de sociedade) exerce é tão grande, a cobrança por mais e melhor através das constantes pioras das condições de produção desequilibram mentalmente qualquer um. Nem todos resistem.
    E o homem criou o dinheiro. Faltava-nos uma arma para nos defendermos e para morrermos. Não bastava a produção social dos primórdios a que chamavam comunismo primitivo, faltava algo que me desse alguma vantagem sobre os demais. Desumaniza-se aquele ser bruto que tudo dividia com todos que se chegassem. Surge a ganância, melhor conceituação para capitalismo que já escutei nesta minha vida de desilusões, tal como Migliaccio. Dizem que a velhice traz a sapiência, o que eu refuto de modo bem severo e sincero: não é a velhice que traz a sapiência, é a juventude que não consegue o antidoto do vírus da ignorância. Quando eu olho à minha volta e percebo toda essa quantidade de seres que, voluntariamente ou não, se mantêm distanciados das realidades que os cercam, como nos tempos em que para justificar crimes humanos se culpabilizavam animais, bate-me um desespero tão grande que me leva a aceitar como normais atos anormais como esse praticado por Migliaccio.

    Passaram-se anos, séculos e a escravatura que dizem ter sido abolida, fez foi intensificar-se; cada dia o homem se vê mais escravo de si mesmo, nem precisa ser escravo dos outros. Cria hábitos, fazeres, leis, motivos, justificativas e cobranças para não se dar um tempo para si mesmo, para olhar à sua volta e perceber a família, as necessidades do outro, que não as suas; não aprende mais tabuada de dividir, as máquinas de calcular só executam as contras de multiplicar cifrões nos cofres dos capitalistas a troco de migalhas.

    Minha colega Raquel Varela acredita que ainda é possível a humanidade dar certo. Tomara. É extremamente necessário. Mas precisamos saber calcular o custo dessa possibilidade. Precisamos, mais ainda, sermos nós a nos comprometermos a fazer essa possibilidade existir. E estamos no mau caminho: procuramos, desesperadamente, nos outros o culpado de termos chegado até aqui, quando ele está dentro de nós. Enquanto não aprendermos a nos libertarmos, a praticar o desprendimento, a julgar igual a mim aquele outro a quem chamam de diferente; enquanto não dividirmos na mesma mesa os mesmos direitos e deveres, essa sonhada possibilidade de criação de uma humanidade sociável está a séculos de distância e se afastando a cada dia.

    Felizmente e contra o que muitos pensavam, ainda há quem nos possa ajudar a nos colocar no bom caminho: a Mãe Terra. As aulas que ela nos tem dado nestes dois últimos meses têm, para mim que me digo historiador, sido magistrais, dignas de doutoramento ou qualquer título que se possa inventar para o homem: talvez HUMANO. E será com ela, para ela e através do respeito a ela que conseguiremos transformar a sociedade excludente existente num HUMANISMO em que todos se respeitem e ajudem a vencer as dificuldades que certamente irão surgir, mas sem elas a vida também ficaria monótona. Quem sabe, se livres dessas etiquetas absurdas de liberais que querem ver os outros presos; de cristãos que gritam pela morte do seu próximo e de democratas que querem tudo para uma pequena parte e nada para os outros, a humanidade possa dar certo.

    • Especial, muito profundo, parabéns, o bicho recolector, o humano, foi criado a embandeirar monte, a ficar por cima do outro, está na massa do sangue, só com sequela, será educado a contrário. Bem aja.

  5. O tempo da escravatura e da ditadura há muito que terminaram, dizem. Uma ova é o que é. A diferença relativamente a esse tempo é apenas uma, a subtileza (José Gil). Ambas, escravatura e ditadura, com outras vestes é certo, estão aí ao virar da esquina e só não as vê quem não quer ver.

  6. Devemos responsabilizar todos aqueles que ao longo dos anos promoveram o capitalismo, começado logo pela maioria da “comunicação social”!

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