Bolsonaro e os Suecos

Algumas pessoas de esquerda do Brasil comentaram as entrevistas que coloquei aqui de cientistas suecos contra o confinamento, dizendo que era uma irresponsabilidade colocar essa entrevista, e que, no fundo, o cientista sueco pensa o mesmo de Trump e Bolsonaro. É um argumento obscurantista. Que sentido faz comparar um epidemologista sueco, responsável por assessorar a saúde pública no país, que diz que o confinamento é um erro, porque não é a melhor forma de combater o vírus, e que o confinamento põe em causa a liberdade e a democracia, como compará-lo com Bolsonaro, um neo-fascista cuja base de apoio são Igrejas pentecostais e a recusa da ciência? Ambos são contra o confinamento, logo Bolsonaro tem razão. Não, claro que não!

Bolsonaro é Presidente de um país onde em primeiro lugar a larga maioria não se pode confinar, uma parte importante morre de fome, a saúde pública foi destruída, e teve uma atitude darwinista social de “matem velhos e doentes”. A Suécia explicou que era necessário diminuir as aglomerações, manter algum distanciamento físico, suportar bons cuidados de saúde. O argumento de que é irresponsável ouvir um cientista sério porque a seguir as pessoas vão sair à rua está na linha de raciocínio dos que à direita dizem que uma mulher de mini saia é uma provocadora que merece ser violada, e os que à esquerda dizem que o piropo incentiva a violação e a violência doméstica. É uma esquerda de coitadinhos, de vitimas, de oprimidos, e não de sujeitos sociais com força organizada e portadores de liberdade.

Proibir-nos de ouvir o contraditório é o apelo, mais ou menos discreto, ao obscurantismo, é a automutilação da reflexão crítica, não há nem pode haver intelectuais que temem pensar, confrontar-se cientificamente com a dúvida, o erro, a divergência. Não devemos saber, não devemos pensar, porque o pensamento e o debate livre podem originar más acções. Devo aliás dizer que o Brasil me trouxe o melhor do marxismo crítico na minha formação e, nos últimos anos, fruto do medo e do isolamento (e das políticas pós-modernas made in Germany, que, via ONGs e Partidos voaram do Die Linke e do SPD para o PT e suas franjas), o Brasil encontra-se na vanguarda da mutilação intelectual de esquerda, o mais triste dogmatismo, também feito em nome de Marx, ele toda a vida um defensor intransigente da liberdade de pensar. Quem dera a qualquer liberal ter uma obra com a frescura polémica de Marx e e sua defesa da liberdade.

Estes anos pós modernos, de chumbo, também contaminaram a reflexão aqui, em Portugal, um pouco menos, basta ver o unanimismo político em torno da Geringonça, transformando debates sobre estratégia em concursos sobre prestações televisivas, palavras erradas, gestos imperfeitos – uma vacuidade de dar falta de fôlego. No Brasil, confesso, custa-me mais porque o pensamento critico lá sempre foi mais longe e vigoroso do que aqui. E quando a base organizada do PT retrocedeu, estes intelectuais ficaram com as franjas da classe, os “oprimidos”, mitificados em sujeitos revolucionários, com quem de facto não se pode debater seriamente uma política em meio de uma pandemia. Se já é difícil aqui, imagino no Brasil, onde o medo já era a bitola dos debates, que foram ficando cada vez mais desinteressantes. Só para não desesperançar – basta um movimento grevista estilo anos 80 para essa liberdade retornar com força – agora, enquanto os sectores organizados estiverem na garagem a chorar os dramas do seu PT, temos que suportar o obscurantismo que na esquerda reveste sempre uma mitificação de uma classe, já vimos o Stakanov, o estudante de 68, agora a mulher oprimida, o negro da favela – um trabalhador com contrato do sector produtivo esse é sempre um “aristocrata operário”, se for norte-americano é um “privilegiado traidor”. Um movimento camponês nos Andes mobiliza mais a esquerda do que uma greve de enfermeiros em Nova Iorque. Aliás, os intelectuais europeus quando há aqui greves na Europa ou nos EUA são sensíveis ao argumento de que “são privilegiados” e vão a correr de avião dar palestras sobre camponeses oprimidos nos Andes. E o pior é que a minha caricatura não está muito longe da realidade. Mais do que nunca era preciso perceber a classe como um todo a nível global, na cadeia de produção, em vez disso já estão estes sectores apaixonados por uma mais versão mítica, fragmentada, parcelar. Quando era hora de perceber como um camponês miserável nos Andes se liga, na cadeia de minério, à intensa exploração de um operário do sector automóvel de Chicago, andamos em vez disso a fazer camisolas com a mulher andina, símbolo da suprema força na terra (e tem-na, mas não para mudar o mundo sem que o de Chicago tome a dianteira).

A propósito estava a ver a revolucionária série na RTP 2 Merli, uma série catalã, e pensei que metade do que lá se passa e diz seria considerado por uma parte da esquerda brasileira, e portuguesa, politicamente incorrecto, irresponsável, perigoso. Merli em vez de um delicioso professor de filosofia revolucionário seria para esta parte da esquerda (felizmente não toda) um irredutível machista a caminho da comissão de moral. E olhem que ele ensina Engels, e defende. Mas também ensina Kierkgard, e diverte-se, e não deixa um piropo por dar, nem elas de lhe responderam, não há comissões de moral nem censuras. Termina a série aliás vestido de Dali apelando à desobediência, ora Dali era um entusiasta das ditaduras, vamos deixar de olhar a beleza dos seus quadros por isso, ou, quem sabe, como em Nova Iorque, hoje já se faz, proibi-los?

Não se deve rejeitar o debate, o contraditório, só a verdade pode orientar um pensamento crítico fértil, anti dogmático, capaz de perceber e transformar a realidade. Faz todo o sentido explicar que o Brasil não é a Suécia, claro. Não é mesmo. Destruíram o SUS – Serviço Único de Saúde; a população tem uma saúde débil, anos de subnutrição e horários de trabalho brutais, muitos nem água têm canalizada. Bolsonaro é um horror, uma deformidade neolítica da política no seu declínio avançado – e esse declínio só se compreende se olhar-se os erros do PT e do operário mitificado, Lula da Silva que não comprou o tal apartamento mas disse, e a sua base, ouviu, quanto tinha investido em fundos de pensões, ele e a burocracia sindical da CUT. Acham que isto não ia ter consequências na desmoralização da base do PT? Aqui os republicanos trataram tão mal o movimento operário que em 1926 a ditadura subiu ao poder sem que nenhum operário estivesse lá a defender a República. Como tirando pequenos partidos de esquerda não estavam os operários organizados a defender Lula. A monstruosidade de Bolsonaro não pode ser compreendida sem a derrota moral do PT. Nem o Chega em Portugal teria votos se a Geringonça tivesse defendido os trabalhadores em vez de fazer requisições civis. Bom, já vou longe. Volto ao início. Nada ou quase nada é comparável no Brasil à Suécia. Mas censurar uma entrevista de um cientista sueco, deixar de a debater ou desqualificá-la? O que se ganha com isso? Quem queremos realmente proteger da verdade?

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